O charuto ⸺ pt. I
A celebração que quase me matou

Foto de Turgut Kirkgoz / Pexels
O charuto ⸺ pt. I
A celebração que quase me matou
Por uma desafortunada concatenação de eventos, não pude desfrutar socialmente da espera pelo meu filho, tampouco o momento da sua chegada. A ideia que eu gostaria de ter colocado em prática incluía alguns rituais e uns tantos lugares-comuns, como escancarar a porta de entrada da redação em que eu então trabalhava e anunciar em voz ligeiramente exaltada que eu enfim seria pai. As pessoas então abririam sorrisos, bateriam palmas, deixariam seus teclados, seus copinhos de café, suas palestras e suas cadeiras para virem até mim oferecer um abraço, batidinhas no ombro, piadinhas que eufemizariam as dificuldades do posto. Então alguém ⸺ eu idealizava ⸺ diria que era preciso comemorar apropriadamente em um bar. Lá, ato contínuo, surgiria cerimonialmente um charuto, como nos filmes. Eu aceitaria de bom grado, o acenderia com dificuldade e, apesar de praticar o tabagismo (muito esporadicamente) com meu cachimbo, todos ririam quando eu tossisse elegantemente, tentando disfarçar a inexperiência. Seriam ocasiões, a da redação e a do bar, que encontrariam reencenações em momentos diferentes, com outras pessoas, todos querendo registrar com um símbolo a alegria da coisa.
Nada disso aconteceu, mas eu ganhei um charuto de uma amiga preocupada o bastante com a marcação dos eventos dignos da vida. Era um charuto cubano ⸺ Habana, veja bem, que minha amiga não poupa despesas (independente do que será descrito a seguir, obrigado, Carol: foi um gesto muito maior do que o presente em si, apesar do gesto ser, convenhamos, um Habana). Então sobreveio outro arranjo infeliz de episódios e meu charuto permaneceu cinco anos numa gaveta, devidamente cuidado, mas claramente levando uma existência despropositada. Que sentido poderia haver um charuto que não é queimado…? (há vários sentidos, penso eu, mas quero te condicionar, meu leitor e minha leitora, para a outra faceta da história).
Meu filho amado completou cinco anos há pouco. Numa noite de sábado de setembro, eu, rotundamente cheio do saco de combinações melancólicas do “destino”, abri a gaveta, apanhei um isqueiro e me coloquei a caminho da beira do rio. Aquilo tudo, o primeiro parágrafo todo e muito mais, seria sutilmente celebrado por mim mesmo, de bermuda e camiseta, a passos, na beira do rio. Sem registro, com atraso, que seja.
Acendi o Habana ainda no caminho. Descobri que era preciso morder o bocal e lhe arrancar um pedaço a fim de permitir que a fumaça corresse da ponta à boca. Não pequei por falta de destreza. O sentido de uma celebração deste tipo, me pareceu então, era uma simbólica oferta ao homem (porque é um signo masculino) que havia gerado um novo ser humano, ou seja, a coletividade homenageando a potência que se realiza.
Não havia coletividade alguma ali. Éramos eu e minha sombra, projetada da iluminação da rua, desviando aqui e ali de transeuntes que ignoravam solenemente a grandiosidade do que estava se passando. Nem mesmo uma única palma, nada de tapinhas. Tudo pareceu meio deslocado sem “o público”, mas não me importei. Segui adiante com um vento fresco antecipando o rio até mim. Numa esquina, a última, dezenas de pessoas festejavam o fato de estarem vivas e bebiam e cantavam e conversavam e riam e diziam coisas sem nexo, imitando alguém ausente. Ou assim me pareceu. A água do rio não se fazia ver, negra como a noite à volta. O charuto prosseguia lento, queimando sem ofuscar, a fumaça saindo em bocadas, mas não em demasia. Havia poucas pessoas na orla, nenhuma delas gratuitamente ali. O sabor que vinha à boca era agradabilíssimo. Num dado momento, minha atenção ficou presa a um pontinho de luz logo acima da ilha em frente. Que será?, e logo me veio à mente a figura do Naziazeno, do Dyonélio Machado, o mistério que segue até hoje sobre a luz que o protagonista via pairar sobre a Igreja das Dores, ali perto. Não fui capaz de solucionar nenhum dos mistérios ⸺ o d’Os Ratos, nem o da ilha ⸺ e, como o charuto já ia à metade, levantei e comecei a refazer meu caminho. Parei em frente à obra em homenagem aos voluntários que ajudaram na Enchente de 24. Aquele monte de ferro recortado tem a forma de um barco onde se acomodam adultos, crianças e animais de estimação, ajudados por alguém que estende os braços, e falou diretamente a mim. Eu não precisei de um barco, mas minha família sim. Uma plaquinha avisa os incautos de que do ferro retalhado haviam se originado lâminas cortantes. Não convinha tocar na escultura. Mas foi o que fiz, na ânsia de testar a veracidade do alerta ⸺ como fizeram meus pais, esperando inertes até que a água subisse quase até o pescoço. Deslizei o dedo sobre a base do barco, a lâmina riscou a pele e subiu não água, mas sangue. Me dei por satisfeito.
Eu pensava na minha condição de pai, na monumentalidade do fato que é trazer alguém a este mundo, no que se ganha e no que se perde, nas dificuldades e, por fim, na beleza das coisas. O fio da minha mente me trouxe o protagonista d’O sonho de um homem ridículo, do meu “mentor cósmico” Dostoiévski. A humanidade que ele vislumbrou ali me pareceu não só possível, mas real, e eu estava experimentando aquele fascínio por algo muito maior que eu mesmo, que me coloca num ponto tão pequeno, tão circunscrito ⸺ e por isso tão confortável ⸺ do universo.
O primeiro sinal de mal-estar surgiu ainda ao lado da Usina. Senti o estômago embrulhar e a saliva ficar fina, fina. O charuto já estava no último quarto, eu sentia o calor do fogo nos lábios. A fumaça ficou espessa, pesada, e o sabor doce virou de um amargo insuportável. Pensei: “é certamente uma metáfora das cruezas da vida de pai, do esforço e do doar-se… blá blá blá, sim, deve ser isso”. Representando como estava a Ruptura, a Grande Esquina que dobrei em minha vida, o “antes e depois”, aquele charuto cerimonial devia ser exaurido, não poderia ser usado pela metade, ficando incompleto… Não faria sentido. Era preciso desfrutar do bom, mas resistir ao mau. Além do mais, pelos meus cálculos eu poderia contar com uns 5 minutinhos a mais, apenas, de desconforto fumacento. “Esperou tanto… agora fuma até o fim!”
Mas era A Náusea. Me peguei cambaleando de bermuda e camiseta em frente ao bar da esquina. Não que aquela vista trouxesse algo de inédito às pessoas dali. Mas seguramente havia algo de tosco na minha figura séria pelo enjoo crescente, o cansaço nos movimentos, o despropósito de parecer não ter exatamente aonde ir. Havia muitas crianças no bar, nenhuma desassistida, o que me encheu de ternura porque cuidadas e, apesar da hora (eram dez e meia), lhes foi permitido uma diversão diferente, noite alta, ambiente adulto, gente embriagada, música ressoando com as risadas, mas, no todo, pude perceber por entre piscadelas lentas um cenário “familiar”, talvez fossem mesmo todos conhecidos, amigos. Enfim, não havia perigo para aquelas crianças; ao contrário, havia um mundo novo, horizontes renovados.
Havia perigo, fato era, para mim, isso era certo. A Náusea me acossava. Dei oficialmente por encerrada a minha celebração. Precisava agora retornar porque, ao contrário do plano inicial, não terminei o charuto no caminho de volta… Estendi o passeio encorajado pela brisa e pela ausência de paredes à minha volta. Foi um engano. O enjoo já me dobrava e eu sentia a cabeça girar. Fui atacado por soluços asquerosos. O mais impactante de tudo: eu não conseguia me mover na velocidade que meu estado demandava… Sonhava agora já não mais com a humanidade em harmonia, mas com uma cadeira ⸺ melhor ainda, uma cama. Eu tentava atinar de quê, exatamente, tinha gosto o engulho repugnante que eu ruminava. Tinha, concluí, o odor nauseabundo do papel e da tinta encharcados da água suja que destruiu, reduzindo tudo a uma massa nojenta, todos os meus livros na Enchente de 24…
[ *continua* ]
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- 2026-06-26 03:39:16