Apresentação da cobertura da 27º Mostra de Cinema de Tiradentes
Por Maria Bogado
Apresentação da cobertura da 27º Mostra de Cinema de Tiradentes
Por Maria Bogado
Gosto de pensar que a crítica cinematográfica, ou de outras áreas, é uma arte do encontro, mas não só. A crítica é, também, movida por um desejo de prolongamento, ou reverberação. É o desejo de fazer o encontro com o filme durar no tempo e para além do espaço inicial do primeiro olhar, lançando a escrita no campo aberto da história, para o leitor ainda por vir. O crítico é, talvez, aquele que sempre pede uma e mais uma saideira e chama um e outro desconhecido para sentar na mesa do bar até que se forme um coletivo tão vivo quanto imprevisto.
Ao passar uma semana na Mostra de Cinema de Tiradentes, fiquei me perguntando como fazer aquele carnaval de encontro com filmes tão diversos durar mais um pouco e se prolongar para além daquela cidade — tão charmosa quanto terrivelmente minada pela espetacularização do turismo. Diante de cada filme forte que eu via, ficava a inquietação: para onde ele vai depois daqui? Será que vai atingir o público que merece? E quanto mais eu gostava dos filmes, mas me embrulhava essa pergunta que, infelizmente, na maior parte dos casos, sei que só pode ter uma resposta imaginada com pessimismo. Foi contra essa melancolia que pensei essa cobertura da mostra, convocando estudantes de Comunicação da UFRJ e universitários que integraram o Júri Jovem do festival, sob minha coordenação.
É claro que fizemos um trabalho de mínimo alcance, mas a força das palavras aqui escritas, comoveu o suficiente para valer a iniciativa. Beatriz Passos escreveu sobre João de Una tem um boi (2024), de Pablo Monteiro e LAB+SNZ. Senti uma força grande em uma escrita extremamente atenta a todos os detalhes de composição, mas que também parecia falar com uma propriedade surpreendente do universo filmado. Por áudio, enquanto editava o texto, descobri que Beatriz é maranhense, frequentadora de terreiros na região, como o que é retratado no filme, e viu o curta justo quando estava de férias lá, no reencontro com a sua família. Já Vitu Senra, que integra o coletivo Baixada Cine, de realizadores de filmes e cineblubes na Baixada Fluminense, escreveu sobre O tempo é um pássaro (2024), de Yasmin Thayná, cruzando seu olhar sobre o filme com o olhar que já elabora há anos com suas realizações cinematográficas. Vitu escreveu também sobre Fala da terra (2022), de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, filme realizado junto ao coletivo de teatro que é braço político do MST no Pará, os Benzeiros. Acho bonito pensar nos diálogos entre os bate-bolas e o funk da baixada do filme de Yasmin e do coletivo de Vitu com os cantos de luta do MST, que evocam, de outra região do país, João Cabral, Chico Buarque, Edson Gomes e suas músicas próprias. Samuel Cotta vibrou ao escrever sobre Homem de verdade (2023), de Rafael Rudolf, justo porque o filme remeteu às suas pesquisas apaixonadas sobre masculinidades. Já Marina Bonifácio escreveu sobre Eu também não gozei (2024), de Ana Carolina Marinho, apresentando uma escuta fraterna e ao mesmo tempo abrindo o feminismo do filme a um plural mais agudo. Já Rafaela Campos tinha que escrever sobre Hit Parade, dirigida por Marcelo Caetano. Sua sensibilidade fortíssima para a moda e o contemporâneo permitiu o olhar mais aguçado para essa série que se envereda por outras décadas, a de 1980, no caso.
Faço essa breve apresentação para sublinhar como esses pequenos escritos reavivaram minha fé de que as imagens tem um destino. Apesar de toda a monocultura capitalista e o monopólio das grandes corporações midiáticas, parece que tem algo que, às vezes — seja por sorte ou insistência — não impede que as imagens cheguem ao seu destino e provoquem esses olhares vivos que se erguem e respondem, justo porque estão precisamente à altura delas.
Talvez, por pensar que a crítica se faz no movimento circular de quem se senta ao redor de uma mesa, ou nesse circuito de olhares e respostas, o Vórtex seja a imagem da Mostra de Tiradentes que mais representa essa experiência para mim. Deixo aqui um registro feito pelo meu grande amigo João Paulo Campos, sem o qual não sei se participaria dessa tal roda.
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