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‘’Renascer’’, Uma Obra-Prima Sobre Devoção.

Renascer é a obra definitiva do Benedito Ruy Barbosa, o realismo fantástico mais bem executado da tv brasileira, desenvolvendo com êxito…

StuartX · 2024-09-07 04:13 · 0 claps · 3.5 min read
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‘’Renascer’’, Uma Obra-Prima Sobre Devoção.

Renascer é a obra definitiva do Benedito Ruy Barbosa, o realismo fantástico mais bem executado da tv brasileira, desenvolvendo com êxito todo o arquétipo místico entorno do misterioso viajante solitário e sem posses José Inocêncio, cujo qual carrega nas costas apenas uma mochila, onde guarda um diabinho na garrafa, sua promessa de prosperidade. A saga desse protagonista incomum se inicia quando ele invade as terras usurpadas por um grileiro e é capturado e subjugado por jagunços, que o ‘’depelam’’ vivo como punição, ou seja, tudo começa a partir do seu brutal assassinato. Todavia, minutos antes, ele havia fincado um facão aos pés do Jequitibá-Rei da Bahia, selando assim um pacto com a natureza, que lhe devolve à vida. Quando retorna ao mundo dos vivos, o viajante decide conquistar aquela terra com seu suor e trabalho e se estabelece aos pés daquela árvore, construindo um verdadeiro império rural, tornando-se o rei do cacau. Ocorre que esta não é uma história sobre as glórias, e sim sobre a inevitável decadência de um homem cuja vida desafia os próprios ciclos da natureza, é sobre, parafraseando o texto original, a ‘’peleja da vida contra a morte’’, pois, ao fincar o facão e derrotá-la, José Inocêncio sentenciou-se ao maior dos males: à vida eterna. Quando os caminhos de Inocêncio se cruzam com os de sua antítese espiritual, Maria Santa, devota de Nossa Senhora, por quem se apaixona, ela leva para sua casa uma imagem da santa, da qual passa a dividir o mesmo altar com o diabinho na garrafa. Inocêncio se casa não apenas com a mulher, mas com suas crenças e valores, estabelecendo a força motriz que rege o conflito interno do protagonista: um homem dividido entre o sacro e o profano, entre deus e o diabo. As duas imagens começam um cabo de guerra pelo destino de Inocêncio e daqueles que ele ama, e, principalmente, pela sua devoção. Após o casamento com Maria Santa, o diabinho, ressentido por ter sido abandonado por Inocêncio e trancafiado num armário ao lado do altar da santa, decide se vingar, tentando se livrar da devota que lhe tomou o devoto, durante o parto de João Pedro, o caçula do casal, sendo este um teste de fé para o coronel, no qual ele falha. Inocêncio afronta e desafia a santa por ela não interceder pela sua fiel. A morte de Maria Santa pode parecer uma aparente vitória do diabinho, porém é uma derrota agridoce. Maria fez um pacto com a santa, trocando sua vida pela do filho. Já Inocêncio, tomado pelo rancor, renega a criança, e só continua acendendo as velas do altar em respeito à memória da esposa, demonstrando a fragilidade e o utilitarismo de sua fé, algo que cobrará um preço alto. Após 30 anos de reclusão e depressão, Inocêncio retorna à ativa após uma nova e engenhosa incursão do diabinho pela sua fé: a chegada de Mariana, neta de um dos seus maiores inimigos, um presente de grego do cramulhão, cujo qual agora não quer somente a devoção, mas sua vida, e Mariana veio tomá-la. Ocorre então o casamento de Inocêncio com o profano, resultando em um matrimônio frustrado e desprovido de amor. Os planos do diabinho, entretanto, são frustrados quando Mariana desiste de matá-lo. O cramulhão compreende que o destino de Inocêncio é protegido pelo pacto com o Jequitibá-Rei, e que a fé, a vida e a alma de Inocêncio pertencem à árvore. Então, encontra novas maneiras de atingi-lo, ceifando a vida de um dos filhos, José Venâncio. A tragédia marca o confronto entre Inocêncio e o diabinho, e a eventual ruptura do pacto de prosperidade. O coronel não tarda a passá-lo adiante, entregando-o a Tião Galinha, um catador de caranguejo que sonha em ter seu pedaço de chão. Entretanto, sua esposa, Joaninha, ao ver a obsessão do marido, destrói a garrafa. Agora sem deus nem o diabo, Inocêncio está entregue à própria sorte, e vulnerável à tocaia promovida por Egídio, que o alveja com cinco tiros. Inocêncio sobrevive, mas fica paraplégico. Sem Maria Santa, a glória de outrora e agora o movimento das pernas, o último coronel do cacau constata que viver pode ser uma maldição. Quando cai da cadeira de rodas e contrai pneumonia, ele agoniza no leito de morte, porém não conseguir partir e unir-se à Maria Santa, porque o facão ainda está cravado aos pés do Jequitibá: a sua única e verdadeira crença é no pacto que fez com aquela árvore, e a imortalidade foi a recompensa pela fé empenhada. Enquanto todos os familiares e amigos rezam pela alma de Inocêncio no altar da santa, João Pedro, aos pés da árvore, pede à Maria Santa que interceda pelo sofrimento do pai, e ela lhe revela o facão. Em um ato de misericórdia, João, devoto do mais profundo amor pelo pai que tanto o rejeitou, o arranca da terra, libertando a alma ali plantada de Inocêncio, pondo um fim ao último pacto que o prendia ao mundo terreno, possibilitando seu descanso eterno. A reconciliação não é apenas entre pai e filho, mas entre entre santo e devoto, entre José Inocêncio e Nossa Senhora.


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