[treze s.b]
Me apaixonei no dia 13, sexta-feira, quando você me abriu as portas do hospício, revelando o caos de um edifício sem paredes. Grafado em…
[treze s.b]
Me apaixonei no dia 13, sexta-feira, quando você me abriu as portas do hospício, revelando o caos de um edifício sem paredes. Grafado em pontiagudas letras pretas, vibrava na entrada um sonoro cartaz dizendo não haver garantias. A promessa de longa estadia, embora não tenha sido firmada em contrato, dava conta dumas tais mudanças intransigentes; de piso em piso, a fim de compreender o que é o amor comum.
Acordei nos primeiros dias como se desperta quando se está apaixonado: nutrindo uma aberrante vontade de pôr tudo a perder. Você sorria pouco e falava menos ainda. Passávamos a maior parte do tempo no porão, aninhados numa pedra, olhando para a lua de um mundo que estava de cabeça pra baixo. Décadas depois ainda não lhe descobri todas as fases.
Precisamos de algumas semanas até descobrir o paradeiro das escadas, objeto supérfluo no prédio, mas necessário para fazer-me compreender.
Caminhávamos de mãos dadas pelo 10º andar, quando uma estátua que ficava por lá ganhou vida própria e saiu perambulando pelos corredores, bradando coisa qualquer acerca do alinhamento de meia dúzia de planetas noutra galáxia, da qual até hoje não tomei conhecimento. Enquanto você intercalava tragos e risadas com a calma de quem havia projetado cada canto da morada, os olhos arregalados denunciavam minha condição de iniciante. Fiz questão de não perguntar nada.
Comecei a perder a conta mesmo foi no 29º piso. Sentados à mesa com uma senhora e seu cachorro, conversamos toda a noite sobre assuntos complexos, desconexos e corriqueiros. Comemoraria 40 anos de morta dentro de poucos dias, ela dizia; segundo palavras escolhidas a dedo, pronunciadas num sotaque aparentemente estrangeiro, ainda levaria outras vidas para compreender quem viera primeiro: o ovo ou a galinha (?) Apesar de também não saber responder, os verbos desencontrados me deixaram maravilhado.
Ainda não havíamos nos beijado e eu estava começando a me acostumar.
Umas semanas depois finalmente fincamos as garras quase no topo do arranha-céu. Numa noite enfeitada de jazz, inundada de gatos, todos despertos, todos adormecidos, bailando no convés, onde trocavam farpas amigas um albino e uma gigante de pouco mais de metro e meio: ele no piano, ela ao microfone. Envolta numa nuvem de timidez, você não largava o copo; os olhos espremidos entre bochechas e sobrancelhas, transbordando felicidade. Trocávamos os sorrisos mais inocentes quando te perguntei qual música você gostaria de dançar. Silêncio.
Derrubamos juntos a porta do sótão. Não havia mais nada sob meus pés. Corpos contra o parapeito, desfrutei por alguns segundos dum abraço ligeiro tal qual areia escorrendo duma ampulheta. Meus dedos cravados nos teus cabelos. Pela primeira vez, você sussurrava no meu ouvido: “é necessário despir-se. Aqui, homem nenhum pode pôr os pés, senão quando devém mulher. O presente é tempo de amar com os olhos. ”
Ainda não achamos o térreo quando escrevo essa carta. Por um instante, me faço, com meio riso dissimulado, capaz de cobrir qualquer aposta. Que comece a inquisição dos amores impossíveis: hoje acordei com vontade de botar tudo a perder.
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