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[treze s.b]

Me apaixonei no dia 13, sexta-feira, quando você me abriu as portas do hospício, revelando o caos de um edifício sem paredes. Grafado em…

Caio Peçanha · 2017-12-21 23:47 · 21 claps · 1.9 min read
#treze #contos #amor #desamparo
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[treze s.b]

Me apaixonei no dia 13, sexta-feira, quando você me abriu as portas do hospício, revelando o caos de um edifício sem paredes. Grafado em pontiagudas letras pretas, vibrava na entrada um sonoro cartaz dizendo não haver garantias. A promessa de longa estadia, embora não tenha sido firmada em contrato, dava conta dumas tais mudanças intransigentes; de piso em piso, a fim de compreender o que é o amor comum.

Acordei nos primeiros dias como se desperta quando se está apaixonado: nutrindo uma aberrante vontade de pôr tudo a perder. Você sorria pouco e falava menos ainda. Passávamos a maior parte do tempo no porão, aninhados numa pedra, olhando para a lua de um mundo que estava de cabeça pra baixo. Décadas depois ainda não lhe descobri todas as fases.

Precisamos de algumas semanas até descobrir o paradeiro das escadas, objeto supérfluo no prédio, mas necessário para fazer-me compreender.

Caminhávamos de mãos dadas pelo 10º andar, quando uma estátua que ficava por lá ganhou vida própria e saiu perambulando pelos corredores, bradando coisa qualquer acerca do alinhamento de meia dúzia de planetas noutra galáxia, da qual até hoje não tomei conhecimento. Enquanto você intercalava tragos e risadas com a calma de quem havia projetado cada canto da morada, os olhos arregalados denunciavam minha condição de iniciante. Fiz questão de não perguntar nada.

Comecei a perder a conta mesmo foi no 29º piso. Sentados à mesa com uma senhora e seu cachorro, conversamos toda a noite sobre assuntos complexos, desconexos e corriqueiros. Comemoraria 40 anos de morta dentro de poucos dias, ela dizia; segundo palavras escolhidas a dedo, pronunciadas num sotaque aparentemente estrangeiro, ainda levaria outras vidas para compreender quem viera primeiro: o ovo ou a galinha (?) Apesar de também não saber responder, os verbos desencontrados me deixaram maravilhado.

Ainda não havíamos nos beijado e eu estava começando a me acostumar.

Umas semanas depois finalmente fincamos as garras quase no topo do arranha-céu. Numa noite enfeitada de jazz, inundada de gatos, todos despertos, todos adormecidos, bailando no convés, onde trocavam farpas amigas um albino e uma gigante de pouco mais de metro e meio: ele no piano, ela ao microfone. Envolta numa nuvem de timidez, você não largava o copo; os olhos espremidos entre bochechas e sobrancelhas, transbordando felicidade. Trocávamos os sorrisos mais inocentes quando te perguntei qual música você gostaria de dançar. Silêncio.

Derrubamos juntos a porta do sótão. Não havia mais nada sob meus pés. Corpos contra o parapeito, desfrutei por alguns segundos dum abraço ligeiro tal qual areia escorrendo duma ampulheta. Meus dedos cravados nos teus cabelos. Pela primeira vez, você sussurrava no meu ouvido: “é necessário despir-se. Aqui, homem nenhum pode pôr os pés, senão quando devém mulher. O presente é tempo de amar com os olhos. ”

Ainda não achamos o térreo quando escrevo essa carta. Por um instante, me faço, com meio riso dissimulado, capaz de cobrir qualquer aposta. Que comece a inquisição dos amores impossíveis: hoje acordei com vontade de botar tudo a perder.


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