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Repensando a avaliação a partir de Negô Bispo

Ler A terra dá, a terra quer, de Antônio Bispo dos Santos (Negô Bispo), além de ser uma experiência inspiradora em muitos sentidos, nos…

Freitas Rayane in PACTO organizações regenerativas · 2026-05-13 16:07 · 3 claps · 1.8 min read
#avaliação #equidade #decolonialidade #impacto-social #antirracismo
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Repensando a avaliação a partir de Negô Bispo

Ler A terra dá, a terra quer, de Antônio Bispo dos Santos (Negô Bispo), além de ser uma experiência inspiradora em muitos sentidos, nos chama atenção para algo fundamental, que é o fato de nomear não ser algo neutro. Quando usamos ‘troca’ ao invés ‘compartilhamento’, não estamos apenas escolhendo palavras diferentes para a mesma coisa. Estamos operando sobre modos distintos de existir, de se relacionar e de produzir mundo. E isso tem implicações diretas para a forma como avaliamos.

Na avaliação, trabalhamos o tempo todo com conceitos. Indicadores, evidências, impacto, resultado, eficiência. São palavras que organizam o olhar e delimitam o que pode ou não ser visto. O problema não está em usar conceitos, mas em naturalizar que eles são universais. Muitas vezes, seguimos nomeando experiências complexas a partir de categorias que nascem de outras realidades, de outras culturas, e que carregam consigo uma lógica de ordenamento que simplifica, hierarquiza, apaga e oprime experiências diversas.

É nesse ponto que o ato de renomear se torna importante. Avaliações decoloniais e antirracistas não apenas ampliam o repertório, mas tensionam o vocabulário que sustenta a própria prática avaliativa. Renomear é reposicionar. É perguntar se “resultado” dá conta ou se estamos diante de processos. Se “beneficiário” faz sentido ou se invisibiliza relações. Se “coleta” é o termo mais adequado ou se seria mais coerente falar em escuta, em construção, em partilha. A nomeação é uma disputa sobre o que conta como conhecimento e reconhecimento.

As culturas importam profundamente nesse movimento. Diferentes formas de vida produzem diferentes formas de nomear, e, portanto, diferentes formas de interpretar o que está acontecendo. Quando a avaliação ignora isso, ela perde nuances, ela corre o risco de impor uma leitura que não corresponde à experiência vivida. Incorporar culturas na avaliação não é adaptar a linguagem ao final do processo. É reconhecer, desde o início, que existem múltiplos sistemas de sentido em jogo e que eles precisam participar da construção do próprio olhar avaliativo.

Assim outras epistemologias entram em cena. Esse movimento permite que a avaliação se desloque de uma lógica de controle para uma lógica de relação e envolvimento. É aceitar que talvez não se trate de medir tudo, mas de compreender e escutar melhor. Não propomos eliminar a necessidade de rigor, mas sim redefinir o que entendemos por rigor. Um rigor que não está apenas na precisão técnica, mas na coerência ética, na escuta qualificada, na compreensão da qualidade do tempo, e na capacidade de sustentar a complexidade das encruzilhadas sociais e culturais nas quais a vida acontece.


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