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Ponte para o passado?

Entre tantas sequências, remakes, reboots e readaptações no cinema e na televisão, o que está por trás de tanta reciclagem na indústria das…

Georgia Cristina · 2026-03-29 20:22 · 1 claps · 6.3 min read
#cinema #tv-series #marvel #midia
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Wiki topics: CUL · Culture & Media 🎬 · Film & Television

Ponte para o passado?

Entre tantas sequências, remakes, reboots e readaptações no cinema e na televisão, o que está por trás de tanta reciclagem na indústria das grandes produções?

Como a maioria de nós que acompanha com grande frequência o lançamento de novos filmes e seriados, sabemos que nos últimos dias foi exibido o trailer da nova série da saga Harry Potter, que será lançada pela HBO nos… próximos tempos? A data pouco me importa. Sem contar a parte extremamente evidente do objetivo de aumentar as unidades financeiras do novo ícone da extrema-direita do Reino Unido, me pergunto a cada momento: qual o motivo por trás de tantas sequências, remakes e reboots e reciclagens?

Essas readaptações (ou melhor, adaptações de outros filmes) e sequências não param na nova série do menino bruxo, e não são histórias que possuem um planejamento, que desde sua concepção serão apresentadas em capítulos e meios diferentes (como os filmes de Duna do Denis Villeneuve). O Diabo Veste Prada? Sequência saindo do forno daqui uns dias. Toy Story? Talvez vá até o 10, estamos indo para o 5. Vai ter inclusive um filme chamado “A Rede Social 2”. O personagem do Brad Pitt em Era Uma Vez em… Hollywood vai ganhar um spin-off. Os Simpsons talvez tenha mais temporadas do que E.R. e Grey’s Anatomy juntas. As grandes corporações de mídia querem entregar o mais do mesmo?

Se a obra não é refeita, ela ganha uma sequência. Mesmas histórias e personagens de sempre? Às vezes temos os mesmos atores também, pois até o Robert Downey Jr. está voltando para a Marvel.

Quantos personagens podem caber num único pôster? Nem lembrava mais que esse filme tinha o Doutor Estranho | Reprodução: Marvel

Quantos personagens podem caber num único pôster? Nem lembrava mais que esse filme tinha o Doutor Estranho | Reprodução: Marvel

Cresci assistindo, entre muitas outras coisas, aos filmes da Marvel. Aos 10 anos de idade, eu era uma fanática: acompanhava de perto os atores envolvidos nas produções, comprava as revistinhas de histórias em quadrinhos e alguma parte mais barata do merchandising, assistia todos os filmes no cinema, engajava com as comunidades de fãs na internet, muito sonhava com uma ida na Comic Con de San Diego, por aí vai. Com o passar dos anos, a admiração pela franquia foi se transformando em apenas um carinho distante assim que outros interesses culturais foram se adicionando na minha vida. Depois do lançamento de Endgame (Vingadores: Ultimato), cansei de vez, e não por conta da saída de alguns atores ou qualquer coisa parecida, mas a história toda já me parecia saturada, sentimento que foi crescendo lá por 2015 ou 2016.

Quando estreou aquele filme do Homem-Aranha (o No Way Home, ou Sem Volta para Casa), me prestei a assistir. Foi a primeira obra da franquia que assisti depois de muito tempo. Não parei para prestar atenção naquelas séries do Disney+. Para falar a verdade, eu nunca gostei muito desses filmes do Tom Holland, que me pareceram sempre extremamente carentes de carisma, mas sentei para ver o dito filme, que trouxe toda aquela galera do passado.

O filme? O roteiro é construído para que os telespectadores batam palma no meio do cinema quando testemunhassem o retorno dos antigos Homens-Aranhas (é uma palavra, né?) e dos personagens das franquias antigas, que possuem narrativas bem melhor construídas em seus próprios filmes. Até encontrei em meu comentário no Letterboxd sobre o filme uma frase que alega que “o longa se apoia em histórias de maior qualidade, aspecto que a nova franquia não foi capaz de atingir”.

Mesmo se a percepção dessas obras foi construída sob o ponto de vista infantil, tudo se apoia em cima da nostalgia e do brilho que existia nos olhos de quem assistiu esses filmes há 20 ou 10 anos atrás. Embora seja muito emocionante para alguns fãs e telespectadores rever o Willem Dafoe de novo no cinema, essa admiração excessiva por rever personagens (especialmente provenientes de obras da juventude) é acompanhada e acentuada por outra ocorrência.

Vamos fugir baby | Reprodução: Paramount/Malpaso

Vamos fugir baby | Reprodução: Paramount/Malpaso

Em meio às tantas crises, o mundo atualmente parece estar finalmente sucumbindo em tempo real, especialmente por conta do excesso de informação que chega até nós (embora seja inegável a gravidade do conflito entre Irã e Estados Unidos e suas colônias adjacentes). Seria absurdo achar que é a primeira vez em décadas que temos uma guerra no oriente, mas os conflitos dos anos 2020 são as primeiras vezes em que somos capazes de puxar o celular no conforto dos nossos lares e testemunhar (à distância) toda a violência explícita presente em guerras. A pandemia iniciada em 2020, que infligiu ansiedade na população mundial por muito tempo, foi o terrível catalisador que nos tornou muito mais encapsulados por essas pequenas telas.

Mesmo que o terrível fenômeno que consiste na circulação livre de vídeos e fotos explícitas nos meios digitais não seja novidade no século XXI, o advento do crescimento das redes de scroll infinito e o aumento do acesso aos smartphones permitem um novo uso dessas ferramentas. A informação circula cada vez mais rápido, nos tornando mais suscetíveis às ansiedades (e simultaneamente, ao comportamento apático, pois não há nada a fazer), às raivas geradas pelos filtros-bolha, algoritmos que nos entregam conteúdos que têm como objetivo nos deixar irritados, engajando mesmo se for de maneira negativa. Especialmente para quem cresceu com os computadores: se antes a internet era uma via de escape do mundo, agora o trio “filmes, músicas e séries” são as rotas de fuga.

É aí que entra o resgate pelo passado. Se o tal do passado era realmente melhor e mais seguro? Depende do contexto político e social de seu país, mas pelo menos não tinha nenhuma notificação de minuto a minuto em celulares, buzinando em nossos ouvidos que não estávamos mais seguros.

Acima de tudo: a memória é um narrador nada confiável, pois mesmo se habitamos ambientes nada amigáveis no passado, nosso cérebro dará um jeito de institucionalizar a saudade de alguma parte deste passado. Também há contextos geracionais interessantes: éramos mais jovens, crianças ou pré-adolescentes, imersos em nossos mundos, e com exceção de quem cresceu em contextos desafiadores, uma considerável parte da humanidade deixou a bolha segura da juventude e se deparou com uma outra atmosfera na idade adulta.

Essa mesma “parte da humanidade” tem um padrão de consumo muito interessante para os conglomerados de mídia. Em tempos de medo, quem entrega conforto? E como essas indústrias, esses grandiosos estúdios entregam experiências confortáveis de fáceis digestão? Como confirmar que não há perigo, pelo menos nos filmes? A resposta é fácil e nem precisaria escrever ela aqui.

Reprodução: NBC

Reprodução: NBC

As sequências, remakes, reboots e readaptações são simples reafirmações constantes de histórias que já conhecemos. O que os estúdios nos dizem é o seguinte: o que iremos testemunhar a seguir nesta tela (da sua televisão, do celular ou no cinema) é seguro e previsível, e está tudo bem. Mesmo se novos personagens surgirem no meio do roteiro, sabemos que nada irá fugir de um padrão, ainda mais que sequências que tentaram se aventurar um pouco além de seus limites sofreram com as críticas árduas do público, como quando Harrison Ford realizou um dos seus maiores sonhos (o de assassinar de vez o personagem de Han Solo e nunca mais ter que atuar em Star Wars na vida). É difícil que roteiros levemente desafiadores tenham algum sucesso no mundo dos blockbusters, do que prevalece no geral.

Até o modo que adotamos para acessar aos filmes mudaram. Antes da pandemia, era habitual sair do conforto do lar para ver filmes na grande tela do cinema, e agora os assistimos em casa. O filme, o roteiro, os personagens, o ambiente em que assistimos ao filme: tudo isso tem como intenção remeter ao que é seguro e confortável.

O pior é que a discussão não se encerra por aqui.

Por trás disso tudo, testemunhamos um crescente combate ao intelectualismo, outros mecanismos sociais (como o que tem popularizado, a tal da performance), mercados, monopólios, elitismo e, como diria um publicitário de quinta categoria, muito mais.

Esse filme é do mal? Ou essa mídia é boazinha? Eu consumo mídia ou somos consumidos por ela? Posso chamar mídia de mídia? O que é mídia? Esse serviço de streaming é meu amigo?

Alguém explica o filme pra mim?

Um adendo antes do fim do texto.

Claro que as adaptações, milhões de sequências e remakes não são novidades do novo século. E claro que nem todos os filmes são adaptações e remakes, a lógica é falar da indústria dos estúdios trilionários. E nem tudo é ruim, e não é que eu não assista nada disso também: só acredito que chegamos num patamar excessivo de histórias sendo recontadas mais de uma vez, ou de chegar ao ponto em que não desapegamos de certos atores, histórias ou personagens. Volte e meia é interessante comer fast-food ou gastar neurônios com as redes sociais, então não necessariamente seria tão diferente assistir blockbusters e suas sequências infidáveis. São expressões moldadas por grandes corporações ao mesmo tempo que promovem comportamentos comunitários muito interessantes. É um longo caminho.

Inclusive, acredito que vou dar o meu dinheiro para a Disney para assistir o Robert Downey Jr. como Doutor Destino, até porque quando o filme for exibido provavelmente vai ser a única opção para assistir no cinema.

Publicado originalmente em https://giariamente.substack.com.


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