Comprar? Sempre! Ler é opcional
A Crise da Narração
Comprar? Sempre! Ler é opcional

A Crise da Narração
Nos últimos 4 anos o Brasil perdeu quase 7 milhões de leitores. Esse fato deveria assustar, mas quem faz parte do meio literário já está acostumado com esse tipo de notícia. A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” apontou que mais da metade dos brasileiros não leram nenhum livro nos últimos anos. Esse número por si só já é alarmante. Piora ao considerarmos o número de pessoas que leram um livro inteiro. Nesse caso, os leitores são apenas 27% da população. Qual o motivo disso estar acontecendo?
Segundo Byung Chul Han: “a crise narrativa da modernidade se deve ao fato de que o mundo está inundado de informações. O espírito da narração está sendo sufocado pela enxurrada de informações”. Han fala sobre o fato de estarmos viciados em internet, em redes sociais, em informações rápidas, sem muito contexto, sem narração, sem arte.
“Cada manhã recebemos notícias de todo o mundo. E, no entanto, somos pobres em histórias surpreendentes. A razão é que os fatos já nos chegam acompanhados de explicações. Em outras palavras: quase nada do que acontece está a serviço da narrativa, e quase tudo está a serviço da informação.”
Mas o que veio primeiro, o ovo ou a galinha? Digo, menos leitores causaram a crise da narração, ou essa tal crise é quem está reduzindo o número de leitores?
A Espiral da Morte dos Livros
Vamos falar do preço dos livros? Assunto polêmico, eu sei. Há quem diga que os livros estão mais caros do que nunca. Há, pelo contrário, quem diga que estão é mais baratos do que nunca. Na minha opinião, ambos os lados estão certos.
Veja: hoje em dia, com Amazon e Estante Virtual, é possível comprar livros bem mais baratos do que antigamente, mas isso normalmente se aplica mais aos clássicos, não aos lançamentos hypados. Aí é outra história. Nesse caso, as coisas são bem mais complicadas. E por motivos lógicos: menos leitores resultam em baixa tiragem. Baixa tiragem resulta em maior custo de produção. E esse custo vai obviamente ser jogado na mão do consumidor final. Ou seja, os livros ficam mais caros. Mas por que só os hypados? Calma, eu explico.
O problema é que isso se torna uma espiral da morte, se retroalimenta. Boa parte da população só lê se tiver muito hype, muito estímulo, muita propaganda. E isso só é feito em cima dos livros que estão ficando cada vez mais caros. Isso faz com que essa enorme parcela da população deixe de comprar livros. Resultados? Menos leitores, tiragens menores, os preços sobem mais ainda. A espiral segue forte.
Percebendo que há uma Crise da Narração, ou seja, que não há um grande interesse em histórias narradas, as editoras entendem que precisam parar de vender histórias e começar a vender produtos. Os livros hypados passam a vir com brindes, capa dura, lombada bonita para decorar a estante, fitilho, verniz localizado. É preciso agregar mais “valor” ao produto, já que ele está ficando mais caro. E esse valor é colocado em tudo, menos no conteúdo interno, na narração em si.
Aqui as editoras já abandonaram o público de classes mais baixas. Pouco importa o pobre. Vamos focar nos colecionadores, nos lombadeiros. Esses sim vão dar qualquer valor por qualquer livro, mesmo que tenha uma tradução cagada, revisão porca, diagramação horrível. Nada disso importa. Vamos entregar uma capa dura e uma lombada aesthetic! Eles vão pagar caro, é óbvio que vão. Daí surge o marketing de hype, de momento, de TikTok.
Nichamos o público cada vez mais. Reduzimos os leitores, aumentamos o preço, perdemos mais leitores, aumentamos ainda mais o preço… e isso segue em espiral ao ponto de apenas 27% do país estar lendo um livro inteiro. Onde isso vai parar?
Preço não é tudo
“A crise existencial da modernidade na forma de uma crise da narração é ocasionada pelo desmantelamento da vida e da narração. A crise é: ‘viver ou narrar’. A vida não parece mais ser narrável. Nos tempos pré-modernos, a vida estava ancorada em narrações. No tempo como narração, não há apenas segunda, terça, quarta…, mas Páscoa, Pentecostes, Natal, como estações narrativas. Até mesmo os dias da semana têm um significado narrativo: quarta-feira é o dia de Wotan, quinta-feira é o dia de Donar etc.”
Para Byung Chul Han, estamos trocando as narrativas pelas informações da internet. Não mais filmes, agora são shorts, reels, stories. Tudo é rápido, superficial, propaganda. Ficamos tão entretidos com isso que não nos sobra tempo, ou mesmo vontade, de nos demorarmos em um livro.
Ou seja, nem tudo é por causa dos preços altos. Há sim livros bem baratos à nossa disposição. Ebooks gratuitos, inclusive. Já ouviu falar do “Exploda seu KU”? Mas há também uma falta de vontade de lê-los. Afinal, considerando o acesso massivo à internet hoje em dia, vídeos no YouTube são teoricamente de graça. Instagram, Twitter, TikTok, tudo isso é de graça. E considerando a enorme quantidade de assinantes da Netflix, lá também tem conteúdo de sobra. Há conteúdo para ser consumido em todo lugar ao mesmo tempo.
Repito: conteúdo para ser consumido. Não falei em arte, sequer usei o verbo apreciar. É consumir mesmo. Consumo. Para Byung Chul Han, a narração foi sequestrada pelo capitalismo e transformada em Storytelling, ou como ele prefere chamar, Storyselling. Práticas de marketing em forma de histórias para te vender produtos. Agora reveja quantos Blockbusters Hollywoodianos são feitos para vender camisa, bonecos e mochilas temáticas.
Enquanto somos inundados de conteúdo consumista, nos falta tempo para narrar e ouvir narrações.
“Narrar exige ócio. Em uma comunicação acelerada, não temos tempo nem paciência para narrar. Apenas informações são trocadas. Onde existe ócio, tudo se torna uma ocasião para narrar.”

E o Sucesso da Bienal, hein?
Mesmo com tudo isso que falei anteriormente, a Bienal do Rio de 2025 teve recorde de público. 740 mil visitantes compraram 6,8 milhões de livros. Um sucesso mercadológico. Não só isso, mas todo o mercado livreiro em 2025 tem tido alta nas vendas ao longo do ano. Isso aqui deveria desmentir absolutamente tudo o que eu disse. Veja, se a Bienal é a grande festa da literatura, celebrando o ato de narrar e ler narrações, então estamos indo bem, não é?
Entenda: vender não significa narrar, assim como comprar não significa ler.
Dando uma olhada superficial na lista de livros mais vendidos de 2025 você vai dar de cara com livros para colorir seguidos por auto-ajuda cristã ou livros de coach. Quando falamos em livros, estamos nos referindo à tudo que seja o formato livro. Se você espera abrir uma lista dessas e encontrar bastante livros de ficção… sinto muito.
Arte é inútil. E vivemos em um mundo onde tudo precisa ter utilidade. Você precisa ler, não para se divertir ou expandir seu horizonte, mas para aprender algo prático na sua vida. Livros de coach, portanto, servem para aprimorar seu desempenho nas mais diversas áreas da vida. Caso você precise de auto-ajuda, há uma infinidade de livros cristãos que vão te servir de guru, guia espiritual. Caso você só esteja estressado e precisando relaxar, livros de colorir para adultos. Há também uma outra categoria: livros de decoração.
Recentemente a ex-bbb Rafa Kalimann revelou que gastou mais de dez mil reais comprando livros de decoração para sua casa. Vou repetir, caso você não tenha entendido. DEZ MIL REAIS com livros que não serão lidos. São comprados por metro, não pelo que está escrito. Estão na casa apenas para enfeitar, decorar, performar uma pseudo-intelectualidade. Pouco importa o conteúdo. Até livros ocos são vendidos hoje em dia para pura decoração.
Livros são meros enfeites. As palavras em seu interior não são o foco, mas sim sua utilidade estética superficial. Daí surgem os lombadeiros que tanto fomentam esse mercado.
Mas quero deixar claro aqui que parte desse problema é também dos influenciadores. Youtubers, instagramers, tiktokers e seja lá mais onde se publica vídeos sobre livros. E me perdoem os bons criadores de conteúdo perdidos aí no meio, mas… boa parte dessa galera mais fomenta o consumismo do que o apreço pela arte.
Seja falando sobre livros ou mesmo quadrinhos, costumam ser sempre vídeos refazendo a sinopse da obra, avaliando a capa dura, dizendo que a lombada é bonita e deixando o link de associado da Amazon na descrição. Dificilmente há uma análise da obra, uma discussão profunda, uma crítica verdadeira. O conteúdo se mantém em repetir a sinopse com outras palavras e fomentar apenas a venda do produto. Tem até vídeo onde a influencer “analisou” o livro repetindo a sinopse do filme (kkkkkk). Ou seja, o “influenciador” cria conteúdo para colecionadores de livros, não para leitores. E isso não cria público novo, não renova os leitores, não atinge quem realmente aprecia a arte. Isso não gera interesse genuíno, apenas hype.
E não deixo o público de fora não, hein! Ninguém aqui é ingênuo de achar que esses influenciadores fazem parte de algum esquema conspiratório e bla bla bla. Os bookstokkers fazem vídeos assim porque o público não está interessado em análises profundas. Quem o faz, flopa. Não é fácil a vida de criar conteúdo para apenas 27% do país.
Fico feliz de ver aqui no Substack a quantidade de pessoas que estão produzindo conteúdo de qualidade sobre livros. No YouTube também tem uma galera boa e eu indico aqui a Wlange Keindé e seu canal Ficçõmos.
E a bienal? Bom… caso você seja como eu, vai para a Bienal para celebrar a literatura, entenda… você não vai pela arte, você vai APESAR da celebração ao consumo. É isso que é a bienal. Uma grande celebração do consumo.

De Volta À Espiral da Morte
Após tanto tempo reforçando uma lógica capitalista dentro da arte, parece bastante complicado tentar sair dela agora. Quem é do underground, ou como chamamos, os independentes, tentamos fazer arte apesar das circunstâncias, e é comum um certo grau de desespero e desesperança.
Imagine que você publica apenas ebook. Não há o apelo da decoração do livro físico, não há o fator aesthetic da capa dura e da lombada, não fica bonito no vídeo do TikTok/YouTube. Se você não é um autor famoso, hypado no tiktok, não vale a pena ler seu livro. Se eu julgo isso? Não. Trabalho em escala 6x1, não tenho tempo para ler qualquer coisa de qualquer autor que não conheço. Não julgo, só estou constatando fatos dos quais eu mesmo faço parte.
Mas essa lógica capitalista deve ser enfrentada. Como? Livros acessíveis, até gratuitos, se for o caso. Fomentar boas discussões sobre esses mesmos livros, debates sobre literatura. E são muitos os que estão fazendo isso nesse momento. E lutando contra a maré, já que, no final, quase não há reconhecimento e muito menos resultado financeiro.
Mas você sabe quem está lucrando? O autor que lança vinte livros por ano como se fosse uma lanchonete de fastfood preparando a próxima comida de baixo valor nutricional. Entretém, pô, claro. Eu adoro comer hambúrguer podrão, não vou julgar. Mas se acho correto e saudável? Aí é outros quinhentos. Sabe quem mais está lucrando? O influencer que repete sinopse e fala da capa dura da tal editora superestimada da vez, nunca o influencer que de fato faz análises e críticas literárias.
No final, as pessoas não estão mais procurando uma boa narração, estão atrás de conteúdo para maratonar e passar o tempo. Fazem isso com Netflix, fomentando essa lógica de grande quantidade de séries de baixa qualidade, afinal pouco importa o conteúdo, o importante é ter algo passando na TV. O mesmo vale para a literatura, na qual pouco importa a narração, mas tudo ao redor tem seu valor comercial exagerado.
E enquanto você lia esse texto, neste exato momento, alguém acabou de gerar um livro usando o ChatGPT. É o oitavo livro que essa pessoa vai publicar na Amazon só esse ano, e se depender das IAs, virão mais outros. E acredite em mim, a conta bancária dessa pessoa está bem melhor que a sua.
Viva a arte!
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메타데이터
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- 2026-07-18 03:40:46