No Pé da Montanha
No pé da montanha Com uma viola lilás nas costas Eu toquei o chão e ele se abriu ao meio Da fenda saíram samambaias e palmeiras Das…
No Pé da Montanha
No pé da montanha Com uma viola lilás nas costas Eu toquei o chão e ele se abriu ao meio Da fenda saíram samambaias e palmeiras Das palmeiras caíram macacos amarelos Seus pelos eram de vidro E cortavam tudo aquilo que encostasse neles Um macaco veio e me disse “Tá perdido ou querendo mudar o caminho?” Eu só ri e disse “os dois” Um outro veio e me disse “Você pode querer os dois. Mas as pernas só vão em um” Eu ri de novo e disse “talvez” Mais um outro veio e me disse “Se quiser eu, te acompanho. Mas não vai ser pra te ajudar” Eu ri mais uma vez e disse “Pode ser” Mais ainda outro veio e disse “Deixa comigo que te carrego nas costas pelos dois caminhos” Eu ri uma última vez e disse “Parece legal” E um outro ainda mais veio, um macaco muito velho, e me disse “Se não queria andar com as próprias pernas, por que abriu a montanha?” Eu fiquei sério e respondi “Eu vou andar com as minhas pernas. Mas antes quero ver o que tem sob o caminho.” O macaco velho me encarou um tempo em silêncio e disse “Ninguém ande ou carregue ele. Quem tem língua pra responder, tem perna pra andar” Eu agradeci ao macaco velho, agradeci aos outros macacos. Botei minha viola no saco E desci ao topo da montanha.
E lá o Rei estava morto e ensanguentado. Não mais tinha luta no Rei, juro. Não mais tinha luta no Rei, juro. O Mal que é que se fazia nele. O Mal, com sua cara debochada e olhar agudo. O Mal, com sua tenacidade de alguém justo. O Mal, com sua elegância e malícia de rua. O Rei estava morto. Mas o Mal estava sereno. O Mal sabe do caminho para o topo da montanha. E, antes de ver a paisagem de liberdade e prosperidade, Ele verteu seu sangue para fertilizar o solo. O Rei estava morto e nem seu nobel servia, mais. Já o Mal, o Mal estava no topo da montanha onde eu desci. E só consegui tirar minha viola do saco e deixar de presente. Deixei minha viola do saco e subi ao pé da montanha. Aqui revi os macacos e seus pelos de vidro. Ri e agradeci mais uma vez. Já no pé da montanha Sem minha viola lilás nas costas Eu toquei o chão e ele se fechou ao meio. Comecei a subir a montanha.

Imagem: Montanha de Granito no Memorial Martin Luther King (Washington, DC)
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