Cabeça vazia é oficina da deusa
“Quando o rio e o ar estiverem sujos, quando o ser humano houver se perdido completamente da linha da vida, quando os animais estiverem…
Cabeça vazia é oficina da deusa

“Quando o rio e o ar estiverem sujos, quando o ser humano houver se perdido completamente da linha da vida, quando os animais estiverem ameaçados e as ancestrais árvores cruelmente abatidas, quando a doença e a tristeza estiverem dizimando o povo vermelho, virá uma nova nação, uma nova tribo. Serão em grande número, surgirão de onde não se espera. Virão em muitas montarias, com sua magia diferente, terão artes que desafiarão a compreensão. Serão de muitas cores, por isto essa tribo será conhecida como Tribo do Arco-Íris. Eles virão quando o fim parecer certo, eles virão e curarão a Terra.” (Profecia indígena)
Estava se aproximando o profético ano de 2012 quando acessei, pela primeira vez, uma teoria que funcionou para mim como a pílula vermelha de Matrix. Ou melhor, como o “programa de desconexão” de La Belle Verte (um clássico do cinema francês que só consegui encontrar o trailer para compartilhar aqui, já viu?). Foi uma tomada de consciência sobre a nossa relação com o tempo, uma caída de ficha que seguiu transformando, em efeito cascata, todas as áreas da minha vida. Depois daquele despertar não era mais possível, para mim, seguir uma vida “normal”.
“Seja dono do seu tempo e será dono da sua mente”, dizia o pesquisador José Argüelles, o homem que se debruçou no estudo dos calendários maias e apresentou suas mensagens para a nossa época. Após ter vivido por anos contando seus dias sob a influência da cultura maia, ao visitar o Museu do Tempo, em Genebra, ele teve um insight: percebeu que aquela não era a história do tempo, mas da sua mecanização, e da consequente mecanização do pensamento humano.
Tempo x Energia = Arte
Desde o que ele veio a chamar de “roubo do tempo” — quando passamos a usar contagens irregulares que desconsideram ciclos importantíssimos da natureza — a humanidade passou a “andar em círculos”, como um cachorro que corre atrás do próprio rabo. Por vibrarmos em uma frequência artificial, orientada pelas batidas do relógio e pelo calendário gregoriano, nos sentimos desconectados de todas as outras espécies, o que tem trazido sérias consequências para a vida no planeta.
Veja aqui um vídeo que criamos em 2012 para explicar essa relação.
Segundo Argüelles, o lema da contagem artificial é “tempo é dinheiro”, pois a lógica da exploração esteve presente desde a sua instituição. Já no ritmo natural, “tempo é arte”. Arte como estado natural da manifestação da mente de Deus(a). Somos feitos da mesma substância que o pôr-do-sol, os oceanos e o canto dos pássaros. No que ele chamou de “era da materialização do espírito”, fomos levados a esquecer de nossa natureza criativa e da nossa conexão com o todo. Aprendemos que “cabeça vazia é oficina do diabo”, que devemos viver sempre ocupados, senão algo vai dar muito errado. Argüelles veio nos dizer o contrário, que tempo é a saúde da mente.
Eu ouso afirmar, ancorada no que já aprendi sobre a ciência do tempo e na minha própria experiência, comigo mesma e com as pessoas que acompanho em minha profissão, que ter uma mente livre requer tempo livre. Quando criamos tempo para apenas ser, relaxar e sentir o que brota aqui agora, paramos de repetir e algo novo se cria. Passado, presente e futuro sincronizam-se numa sublime cooperação. E essa criação, que nasce do “dar natural” de cada ser, costuma trazer muitos benefícios, atendendo necessidades intrapessoais, interpessoais e sistêmicas.
No meu próprio ritmo
Somos treinadas para sermos super produtivas, recebemos todo tipo de estímulo para isso. Como se pudéssemos existir plenamente, em um eterno Verão, em uma constante Lua Cheia, sempre em época de colheita. Mas tudo na natureza pulsa em um ritmo binário de expansão e recolhimento. Na dança da vida, tem tempo de dar, tempo de receber. De limpar o solo, de escolher as sementes, de plantar, de regar, de colher, de podar. De agir e de só esperar, de produzir e de nada fazer. Sinta sua respiração. Escute as batidas do seu coração. Como está a sua pulsação?
Ninguém vai nos devolver o tempo roubado, teremos de fazer isso por nós mesmas. Observar nosso ritmo natural, perceber que a energia se movimenta em ondas com picos e declínios, renovando-se de forma cíclica, pode ser uma ferramenta de saúde mental muito importante. Como estudiosa das emoções e da nossa relação com o tempo, como alguém que oferece escuta profunda diariamente para várias pessoas, é inevitável confirmar a natureza do tempo e o que ele é em sua essência: um fator de sincronização. A frequência que sincroniza tudo. Nossos processos pessoais estão ciclicamente conectados com processos coletivos.
Tantas vezes sub representado por uma linha reta, o tempo mais se parece com uma espiral. Nos possibilita passar várias vezes pelo mesmo ponto, cada vez uma dimensão acima. Não é um recurso limitado e finito, mas renovável, cíclico e radial. Dispara em todas as direções a partir do presente. Se caminhamos pelo tempo de forma consciente, podemos aprender com os padrões que se repetem, e passar a considerá-los na hora de planejar nossas vidas ou tomar decisões.
Um pouco de história
Calendários são instrumentos de organização dos dias, deveriam nos auxiliar a organizar a vida na Terra. O calendário cristão que é tido por muitos como o “calendário oficial da humanidade” — o gregoriano — foi instituído pelo Papa Gregório XIII em 1582, em plena inquisição, num período pré revolução industrial, com o objetivo de recuperar à Igreja Católica o poder que ela havia perdido em seus fracassados investimentos em ataques à rainha da Inglaterra. Tem ciclos irregulares (28, 30,31…) e nomes que confundem (dezembro é o mês 12, novembro é o mês 11, por exemplo). Como a frequência do tempo é percebida pela mente, esses padrões ou a falta deles tornaram nossos pensamentos irregulares e confusos.
Calendae era o nome dado ao livro de cobrança de impostos romano. Desde cerca de 5000 a.C. consideramos o ano formado por 12 meses de mais ou menos 30 dias. Antes disso, muitos povos contavam os dias através de calendários solares-lunares, levando em conta a influência dos ciclos naturais e o aspecto espiritual do tempo. Desde a década de 1930, existe um movimento mundial pela mudança a um sincronário de 13 luas de 28 dias (ao longo de um ano solar a lua completa 13 vezes o seu giro), como forma de reconectar a humanidade à frequência natural.
O feminino e as emoções
Não sei se é possível instituir globalmente outra forma de contar o tempo, por isso aposto num caminho mais pessoal. O que posso dizer, depois de 8 anos imersa na observação da natureza do tempo e da mente, é que somos muito menos lineares do que acreditamos. Eu comecei meu mergulho nesse tema estudando e vivenciando intensamente o *Tzolkin*, que era considerado o calendário espiritual dos sacerdotes maias. É como se eu tivesse ganhado uma bússola para navegar melhor pelas ondas da existência, compreendendo a diversidade e a unidade que se revelam quando fazemos do tempo um veículo de consciência.
Hoje, o que ficou de mais relevante desta prática na minha vida, é compreender o movimento da energia dentro e fora, me sincronizar e entregar à medicina de cada fase. O que ocorre na maioria das vezes através da intenção clara de respeitar e fluir pelos ciclos do Sol, da Lua, dos astros e do meu corpo de mulher. A cultura patriarcal nos ensina a ter medo do escuro e das oscilações, a desprezar o feminino e as emoções, a evitar a pausa, temer o caos e o vazio, ignorar instinto e intuição.
Acontece que não temos mais nada a aprender deste modelo de civilização. Se quisermos que exista no futuro alguma harmonia possível, precisamos de atitudes urgentes de reparação. Um mundo minimamente saudável passa pela inclusão, pela integração dos aspectos anteriormente negligenciados, por libertar o que esteve aprisionado, pelo fomento de uma cultura genuína de cuidado.
Pausa entre ciclos
Tudo isso para dizer que hoje é o último dia do ano para muitas tradições, como maias e egípcios, por exemplo. E amanhã, 25 de julho, é considerado um dia de pausa entre ciclos. Em diversas culturas, é em 26 de julho, com a ascensão máxima da estrela Sírius em relação ao nosso Sol, que se celebra um novo ano solar (em 1º de janeiro não acontece simplesmente nada no céu, daí o uso de fogos de artifício na data).
O Dia-Fora-do-Tempo é um movimento de celebração da vida e de reflexão sobre o período que passou, para que possamos ingressar mais sábias e sábios em um novo giro. É ainda um convite para experimentamos um dia mais distantes do relógio e mais perto das batidas dos nossos corações, deixando fluir a arte que nasce quando estamos presentes. Afinal, “cabeça vazia é oficina da deusa”.
Minha arte
Compartilho nesse canal um pouco da minha expressão artística, manifestações que brotam quando dou tempo e energia para que a arte da vida se manifeste através do meu ser. Em constante desconstrução e recriação.
Quero deixar registrado aqui meu agradecimento às professoras e professores que me transmitiram, ao longo desses anos, os ensinamentos que compartilho acima. Em especial à Gisele de Menezes, que me ofereceu a pílula vermelha no início desse caminho, ao André Steahler e à Tiele Vasconcelos, que semeiam esse conhecimento com amor em nosso país, e aos meus colegas do movimento Acordar, onde aprofundamos nossa pesquisa no tema, de 2012 a 2014.
메타데이터
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