Gog, de Giovanni Papini
Meu primeiro contato com a obra de Papini é também o livro escolhido para representar a Itália. Começamos bem — como o país, também o…
Gog, de Giovanni Papini

Meu primeiro contato com a obra de Papini é também o livro escolhido para representar a Itália. Começamos bem — como o país, também o livro não decepciona. Trata-se de um diário mantido por Mr. Goggins (apelidado Gog), um bilionário de ideias modernas que, pela condição financeira que possui, é capaz de usufruir de todas as possibilidades que a vida do século XX é capaz de oferecer (imagine então Gog no século XXI!).
A passagem dos dias nos apresenta o panorama vasto e ao mesmo tempo caótico que a sociedade industrial produziu, e os personagens que Gog vai encontrando — muitos deles loucos convictos de suas ideias — não fazem mais do que levar ao extremo certas concepções sobre qualquer assunto posto em questionamento nos princípios do século. Encontramos personagens com ideias próprias sobre a justiça, sobre a medicina, a religião, a política etc. A variedade de temas é tanta que nos faz caracterizar a personalidade de Papini como um homem sobretudo curioso. Por absurdos que sejam os relatos, muitos deles nos permitem um link bastante atual. Quem não veria os homens do nosso tempo vivendo a religião de auto-adoração exposta em “A Egolatria”? Quem não veria o peso achatador da mentalidade utilitarista — da qual sofremos todos! — posta ironicamente em “A indústria da poesia”?
Enquanto Gog ouve propostas, inventa coleções, realiza viagens e dialoga com ilustres do seu tempo (figuram aí Gandhi, Freud, Lênin e outros), ficamos com a sensação de que cada encontro termina, de certo modo, em uma decepção. Gog abarca ideias, mundos, vidas, mortes, absurdos, filosofias e religiões. Experimenta de tudo: até mesmo nadar fisicamente em ouro, para testar a verdade por trás da expressão. Ao que parece, porém, acaba por apoderar-se dele não o tedium vitae que tomou Dorian Gray depois de gozar de tudo o que podia comprar e experimentar, mas o desespero de perceber que tudo é pequeno para o coração humano (esse coração de afeto que Gog tanto despreza, ao ponto de colecionar corações artificialmente pulsantes como ofensa à vida).
Apesar de perceptível em algumas das primeiras estórias, como em “Nada é meu” e em “Tudo pequeno”, é apenas na última folha do diário que vislumbramos o despertar de sua consciência a uma luz nova, graças a um outro — finalmente um outro totalmente vulgar, totalmente normal — que lhe estende a mão e lhe abre os olhos.
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