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O Paraíso Perdido de John Milton —

uma resenha literária.

Coletivo Tangente in ColetivoTangente · 2020-05-26 21:13 · 102 claps · 5.5 min read
#poesia #arte #literatura #tangente #john-milton
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O Paraíso Perdido de John Milton —

uma resenha literária.

por Ana Staut

Gênesis é a história da criação. É a origem do mundo, do homem, da ordem moral que conhecemos. Deus, em seu transbordamento, cria os céus e mares, as aves e peixes e por fim, cria o homem a sua imagem e semelhança. Mas Gênesis também conta a história da tentação e queda da humanidade, e em Paraíso Perdido, somos introduzidas nessa narrativa por um protagonista excêntrico – o próprio satanás.

“Do homem primeiro canta, empírea Musa, A rebeldia – e o fruto, que, vedado, Com seu mortal sabor nos trouxe ao mundo...”

Em versos poéticos, o livro conta a versão do Diabo em seduzir Eva a comer o fruto em troca de ser adorada pelos anjos, de depois de oferecer a Adão. Na história, Satanás decide manipular os moradores do paraíso por um rancor pessoal, após ser expulso do Céu com os outros anjos rebeldes. O Diabo se vê, então, sem glória e confuso, lamentando sua condenação. Aprisionado no Inferno, ele e seu general compartilham suas dores em terem perdido a batalha contra Deus, mas afirmam para os outros soldados ainda haver esperança. Pela primeira vez, eles podem ser mestres do próprio destino.

“[...] Nós ao menos aqui seremos livres, Deus o Inferno não fez para invejá-lo; Não quererá daqui lançar-nos fora: Poderemos aqui reinar seguros. Reinar é o alvo da ambição mais nobre, Inda que seja no profundo Inferno: Reinar no Inferno preferir nos cumpre À vileza de ser no Céu escravos”.

Há uma nova versão da história bíblica e Satanás acusa seu Criador de ser um tirano, tomando sua prisão como novo território para prosperar. A cada trecho que se segue, somos apresentados a um personagem extremamente humano, cheio de raiva, ambição e tristeza, acreditando estar certo ao enfrentar opressões. Desde o início da construção narrativa, Lúcifer expõe que deseja governar, mas suas ações e punições acabam provocando dúvidas. Adiante nos versos, ele decide iniciar um encontro de conselho para decidir se há como dominar o Céu através de uma batalha ou se simplesmente devem buscar um novo lar. A verdade é que há uma antiga profecia entre os anjos de existir um novo mundo. O Conselho decide esperar que Satã encontre o tal “novo mundo”. O protagonista então percorre o Inferno, passa pelos cinco rios do submundo da mitologia grega – Estige, Aqueronte, Cocito, Flegelonte e Lete, até avistar os portões do Abismo, guardados por fantasmas, que na verdade são sua filha e neto– o Pecado e a Morte. O Pecado é descrito como um ser semelhante em porte ao Diabo, um monstro feminino do qual é dito ser desejado, nascida quando a batalha havia começado e destinada a guardar os portões do Inferno com seu filho, a Morte, que segue sua mãe a todo canto. Satanás consegue convencer o Pecado de escapar do Inferno para libertá-los. O Diabo se encontra com Caos, a Noite, e sua corte formada por divindades, como a Discórdia e a Confusão. Com as entidades ao seu lado, Satanás enfim consegue ter um vislumbre de sua antiga casa, o céu, a lua e a Terra. Em prol de sua vingança, Lúcifer resolve invadir o nosso mundo. A partir do capítulo III, que são divididos como “cantos”, o autor exibe a visão de Deus sobre o que está acontecendo. Temos um novo personagem, do qual desconhecemos o caráter e até então, tínhamos detalhes narrados por seu inimigo.

“[...] Antes que o Sol e os Céus fossem formados, Já existias tu; e à voz do Eterno Cobriste, como de um solene manto, O Mundo, assim que apareceu erguido”.

A história recomeça sob nova perspectiva. Deus criou um mundo além do Céu, e fez dele morada para novas criaturas. Apesar da perfeição do que criou, Ele avista o Diabo invadindo seu Jardim, e comunica ao filho a probabilidade de seu inimigo corromper os “pais da humanidade”, e desta, de ser seduzida por falsas promessas.

“[...] Conseguirá Satã a queda do homem, Que, a suas vãs lisonjas dando ouvidos, Transgredirá com prontidão ruinosa O só preceito que lhe impus benigno, O só penhor da submissão humana”.

É então especificado por Deus a enorme mancha do pecado em sua criação, e a necessidade da execução de justiça para que o resgate da humanidade seja feito através de sua Graça. John Milton ainda explora a eleição em seus versos, e enquanto o filho de Deus e o Pai conversam, o filho se oferece para livrar a humanidade da própria culpa, dando sua própria vida em favor dos homens.

“[...] O homem, perdido e morto no pecado, Falido devedor, nada possui Que em sacrifício de expiação ofereça. Eis-me a mim, pois: - e, pela dele, toma A minha vida; em mim teu furor ceva; Vinga-te em mim, como o fizeras no homem. Por amor dele, e de meu livre impulso, Deixa teu grêmio, desta glória saio, E até por fim me sacrifico à Morte”.

Pois só o “amor divino” é capaz de vencer a “raiva infernal”. A narrativa continua e é explorado o que há de acontecer após a morte do Filho e o julgamento de Deus, em que tudo será renovado e feito novo mais uma vez. Satanás retorno ao foco, e em sua viagem, ele observa a história de Gênesis e os patriarcas se desenrolando, até parar no Sol e se disfarçar de querubim para entrar no Éden, enganando um anjo chamado Uriel. Ele acaba tentando Eva através de um sonho, mas é encontrado pelos guardas do jardim e expulso do Paraíso. A história passa por Adão, Eva e os anjos Gabriel, Miguel e Rafael. O autor faz um belo trabalho descrevendo a batalha contra Satanás e sua expulsão do Céu. A troca de personagens é fluída, bem discreta, e acrescenta bastante a narrativa. Para retornar ao Paraíso, Satanás toma a forma de uma serpente e encontra Eva sozinha. O diálogo que se segue é delicado, e depois de convencê-la, o mundo passa por uma transformação, como se alguma estrutura natural tivesse sido rompida.

“[...] A terra estremeceu com tal ferida; Desde o cimento seus a Natureza, Pela extensão das maravilhas suas, Aflita suspirou, sinais mostrando Da ampla desgraça e perdição de tudo”.

Adão escolhe partilhar do destino de Eva, não pelo desejo de poder, mas por amor. E enquanto acreditavam que algo belo e divino se tornariam, foram tomados por lascívia e arrogância.

“[...] E ambos se observam com espanto mútuo; Acham seus olhos nimiamente abertos, Suas ideias nimiamente obscuras: A inocência – que, igual véu tapado, O mal lhes ocultara -havia-se ido, E com ela a retidão, a fé, a honra, Deixando-os de vergonha só cobertos, Cujo manto mais nus inda os mostrava”.

Os anjos abandonam o Paraíso, e o Pecado e a Morte decidem abandonar as portas do Inferno e seguir o Diabo. Apesar disso, Satanás não encontra vitória no que fez. Deus profetiza o ato final de seu Filho e a renovação do Mundo. Mas para o primeiro homem, para Adão e Eva e os outros que se seguem, até que a promessa seja concluída, o Paraíso está perdido. John Milton, com um vocabulário erudito, trazendo exemplos contextualizados e ilustrações mitológicas, propõe uma reflexão do bem e do mal sob novas perspectivas. E mesmo conhecendo o lado do Diabo, suas emoções humanas, desejos e verdadeira crença de estar certo, não há um convite de empatia pelo autor. Ele é motivado por vingança, raiva e sede de poder. Em alguns trechos, tem-se a impressão da tentativa de afixar a figura de Deus, um autoritarismo tirânico, quando até mesmo um dos anjos que habitam o Paraíso revela a obrigação em permanecer obediente mediante punições severas, mas que é revelado até o fim do livro, ser uma necessidade de submissão diante da totalidade de compreensão que o divino possui. Para compreender bem o poema, é importante ter a história de Gênesis em mente, apenas para acompanhar melhor os versos. O objetivo de Milton era defender a Providência Divina e justificar, por meio da literatura, as ações de Deus perante a humanidade.

Ana Staut é estudante de jornalismo, cristã, leitora assídua dos clássicos literários e apreciadora do Surrealismo. Acredita em um Credo Integral, que se mantêm constantemente transcendente, moralmente universal através da história e cultura. Tem se dedicado as artes plásticas, com seu próprio ateliê, que pode ser conhecido aqui: **Ana Staut Atelier e **http://www.pictaramphotos.com/u/atelierstaut


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