lula para o jantar
renda-se, mamãe diria a lua ainda está vazia e eu sou só isso o mundo inteiro e você é só isso o mundo inteiro tudo vai encontrar lugar
lula para o jantar

Deux femmes courant sur la plage (La course). Pablo Picasso, 1922.
renda-se, mamãe diria a lua ainda está vazia e eu sou só isso o mundo inteiro e você é só isso o mundo inteiro tudo vai encontrar lugar
bede, primo treis antonte era minguante só se falava na tribuzana que a balsa ameaçou parar mas hoje clareia, primo hoje clareia e na cheia o tio vai atrás de lula para o jantar
por volta das 15h, levanto os braços a musa serelepe, sereia das coceguinhas sussurra desde a infância do dia surrender, surrender quando as árvores gesticulam ao soprar do vento, você acha que quem fala é o vento, por meio das árvores ou as árvores, por meio do vento? quando você decidir que o real é uma escolha, qual linguagem invisível terá valor no tempo?
longe da areia, sei o que preciso fazer sei quais amigas jamais poderei violar com a confiança cega sei que ainda não esgotei tudo o que podia escrever sobre ela sei que não domino uma única ruga sei que há na minha língua tanto açúcar quanto verossimilhança e eu nunca vou saber se ela me amava e eu nunca vou saber se faria alguma diferença quando ameaço envidraçar os olhos flagram sortes miúdas ele se levanta e cede o lugar a ela ela me sorri e oferece o colo como um cofre eu sei que agora posso dizer não eu digo não
eu sou só isso o mundo inteiro você é só isso o mundo inteiro não sei se ainda vou descobrir o que te faz acorrentar a mandíbula qual textura do arroz te desespera qual dedo seu fura a meia mais depressa se aos domingos você passa o café esbravejando sinatra para da sala o avô gritar toca raul toca raul e se você coloca raul para tocar
renda-se tento fingir que não quero tanto assim renda-se sei o que preciso fazer poderia mentir para mim mas não há nada que me machuque mais do que me sentir covarde eu desconfio quando ele estende a mão nas palmas secas uma chave eu sei que agora posso dizer não eu digo não lambo a tinta da lula quando a mãe desvia os olhos queria que você pudesse escutar
abro mão dos contornos entre os meus castelos e os seus nada não é fantasia rendo-me abro mão dos contornos não quero ser engessada sequer pelo desespero de ser livre em demasia
dos homens eu nunca soube bem o que era gentileza ou condescendência quem quer enxergar amor enxerga amor em qualquer lugar life is such a reciprocal lover então eu assisto você voltar em outros narizes, outros dentes em todos eles eu me desfiguro repetitiva como um menininho mimado poderíamos, juntos enjoar dos nossos pratos favoritos fazer na sexta-feira um amorzinho ralo fusionar como duas massas dobradas de pão perder de vista o sentido do presente não brilhar os olhos quando você se desfazer embaixo de mim mas morrer de medo de um dia você considerar desaparecer em outra pessoa
o último homem em quem confiei tinha olhos de tinta de lula cabelos de tinta de lula vestia-se como pescador arrelá, primo, eu que sou caiçara não vi que era só mais um bandeirante um desses homens sem coragem de acabar com você de uma vez mas inteligentes o bastante para fazer você acabar consigo mesma primeiro e se eu não fosse caiçara, primo se eu não tivesse esses pés de chinelo cascudos de correr nas pedras febris do sino eu teria caído eu teria caído, primo
é preciso urgentemente tirar a urgência das coisas brincar de gato e sapato com outra ninharia que não a certeza é preciso que você se renda eu preciso que você se renda

Ei, gostou do poema? Logo abaixo você pode interagir com nossa equipe de poetas através de claps (que vão de 1 a 50) e comentários. Continue lendo a Fazia Poesia.
메타데이터
- post_id
- a0e7ea9a3b95
- slug
- lula-para-o-jantar-a0e7ea9a3b95
- url
- https://faziapoesia.com.br/lula-para-o-jantar-a0e7ea9a3b95
- canonical_url
- https://faziapoesia.com.br/lula-para-o-jantar-a0e7ea9a3b95
- author_url
- https://medium.com/@iapoes
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-06-23 03:48:11