As interpretações da realidade a partir de conflitos ideológicos e seus impactos na democracia…
Júlia Carvalho
As interpretações da realidade a partir de conflitos ideológicos e seus impactos na democracia brasileira
Júlia Carvalho
Resumo
Mudanças são inerentes à história do ser humano. À medida que as sociedades produzem conhecimento e interação, novas formas de ser e agir passam a atuar nas diversas áreas da vida em sociedade. O campo político, além de experienciar suas próprias transformações, também se adapta conforme outras áreas se alteram ou se inter-relacionam ao longo da história. Apesar disso, o fato de as mudanças serem naturais não torna os indivíduos necessariamente receptivos ou adaptáveis a elas, o que desencadeia resistências e conflitos diante de uma mesma realidade interpretada de maneiras distintas. O presente artigo buscou refletir sobre a resistência à mudança e ao diferente na sociedade brasileira, bem como explicitar, por meio de pesquisas e conceitos teóricos, como esse fenômeno impacta diretamente na formação de polarizações e, consequentemente, na instabilidade de um Estado democrático. Ao final, concluiu-se que o temor diante das diferenças não é apenas consequência da polarização, mas também seu motor, estruturando-se em conflitos morais em detrimento de questões econômicas e promovendo divisões ideológicas na sociedade, especialmente por meio do uso da religião e da disseminação de fake news.
Palavras-chave: Democracia, pluralidade, verdade, diferenças, identidade.
1. Uma análise do conceito de democracia
Em uma tentativa de inverter a máxima lançada por Clausewitz, Michel Foucault declarou: “A política é a guerra continuada por outros meios”, assegurando que, se Clausewitz entendia a guerra como um meio político, Foucault, por sua vez, julgava o exercício da estrutura jurídica como um novo método de se continuar guerras, o qual garantiria que a sociedade disputasse poder por meio de outros instrumentos.
À luz dessa ideia, torna-se indispensável atribuir a interpretação de Norberto Bobbio e Raymond Aron a esse raciocínio, uma vez que eles compreendiam a democracia como um método a ser utilizado no campo político, aderindo ao uso da palavra “jogo” para expressar sua concepção. Na visão de Bobbio e Aron, em uma “guerra” política declarada, a democracia seria a forma de estabelecer controle e limites, pois, à medida que existam regras definidas e conhecidas por todos os participantes desse jogo, estes saberão suas limitações, o tempo estabelecido e suas obrigações enquanto parte vencedora ou vencida.
Embora seja uma concepção muito técnica de democracia, não explorando o lado crítico de quem participa nem as interferências sociais e econômicas sofridas, a lógica apresentada pelos autores relembra uma particularidade do democratismo que muitas vezes se perde em meio aos embates rígidos construídos na política brasileira: o pluralismo como condição incontestável para a existência de um Estado democrático.
Ainda considerando a comparação de Bobbio e Aron entre democracia e jogo, é correto declarar que, para a continuidade do “jogo”, o respeito ao time adversário, bem como o reconhecimento e a legitimidade de sua existência e das regras, são indispensáveis, isto é, constitucionalmente necessários. Na sociedade brasileira, entretanto, por viver em uma realidade com oposições políticas tão bem definidas há tanto tempo, a alegação de que “os fins justificam os meios” tem se constituído como defesa para ações antidemocráticas e para a desmoralização dos opositores. Assim, em uma busca por aquilo que é entendido como objetivos nobres e o melhor para a população, as eleições no Brasil passam a se assemelhar à concepção da política como continuação da guerra, não mais como um simples retrato, mas como uma prática, na medida em que se torna mais fácil tratar adversários como inimigos.
A partir disso, em vez de a pluralidade ser vista como um privilégio de se viver em um Estado democrático, ela passa a ser entendida como um desafio a ser superado, como forma de garantir a vitória, e, por conseguinte, as regras que não favorecem a conquista de um determinado grupo são vistas como obstáculos, e não como limites legítimos. Nessa direção, a democracia, mais do que invalidada por narrativas de confronto declarado entre partidos políticos, é reduzida à vontade de uma maioria, cessando sua capacidade de atender à necessidade, à voz e à existência de uma minoria. A noção de governar a favor de todos, independentemente de distinção de qualquer natureza ou diferença de opinião, passa a ocupar um segundo plano, já perdida entre a necessidade de tornar o outro seu semelhante ou seu opositor fadado à derrota.
2. A construção de realidades e identidades por meio da polarização
Em seu texto “Verdade e Política”, Hannah Arendt estabelece um antagonismo entre política e verdade, compreendendo que, enquanto a política é composta por opiniões, debates e conflitos, no campo da verdade não há espaço para discussões: ela é aquilo que se apresenta e permanece. Entretanto, ao reconhecer a distinção entre a verdade filosófica e aquilo que a autora denomina de verdade factual, Hannah Arendt estabelece uma linha tênue entre a política e esse novo tipo de verdade, uma vez que o compreende como algo advindo da sociedade, mas que permanece como palco de disputas pelas raízes que constituem a política: a necessidade de controle e de poder.
Compreender que a busca por narrativas que interpretem, neguem ou alterem a realidade faz parte de um “fazer político” é indispensável para assimilar o tipo de polarização em que a sociedade brasileira está, de fato, inserida. Uma análise realizada por Ortellado, Ribeiro e Zeine (2022) evidenciou que a divisão, tão bem estabelecida no país, entre “esquerda” e “direita” estruturou-se a partir de diferenças morais, apoiando-se em temas relacionados aos direitos de grupos minoritários, por exemplo, em vez de projetos econômicos para o país, e mantendo-se por meio de identidades construídas a partir dessas diferenças.
Ainda que pareça sutil ou inofensivo estabelecer opiniões sobre determinados temas ou acontecimentos históricos, perde-se o controle ao transformar essas crenças em lados políticos e identidades. Hannah Arendt, ao falar sobre verdade e política, explicita a ideia de que o ser humano tem responsabilidade legítima com a preservação da realidade, uma vez que, sem o seu testemunho sobre ela, restarão apenas narrativas e opiniões que fragilizam a existência do mundo como ele é.
Nessa ótica, torna-se inevitável pensar como meras opiniões podem formar identidades fortes, capazes de sustentar debates tão longos e assíduos. O embate político, não mais estruturado em diferenças de projetos futuros para o país, mas sim no entendimento da realidade, apoia-se no valor que determinada opinião possui e no horror à sua oposição, assim, constrói-se a perspectiva de que existe uma maneira correta de viver e de compreender as coisas, e tudo o que foge dela é marginalizado. Chega-se ao ponto em que defender uma perspectiva é também defender uma identidade, pois, se o outro é visto como errado, ninguém deseja se assemelhar a ele.
Perde-se, portanto, o valor do debate e o aprendizado implícito na pluralidade da democracia, permitindo que diferentes esferas da vida social adentrem na política e sirvam como consolidação de determinadas teses. Como exemplo, não é descabido afirmar que, ainda que o Estado brasileiro permaneça laico, a religiosidade é um dos âmbitos sociais que mais interferem no cenário democrático.
O gatilho para essa dinâmica não se refere à fé individual das pessoas ou ao crescimento de uma ou outra religião no país, mas sim à forma como a religião é utilizada para reforçar identidades e realidades construídas a partir de opiniões políticas. Segundo James K. A. Smith, “existe algo de político em jogo em nosso culto e algo de religioso em jogo em nossa política” (2022). Isto é, à medida que o ser humano encontra dificuldade em separar sua crença da vida política, ele transforma o candidato em uma extensão de sua fé e o seu voto em uma validação de seu compromisso espiritual.
É evidente que, ao longo da história humana, religião e política sempre associaram seus interesses, de modo que uma pudesse reforçar a outra. Entretanto, após a superação de crenças segundo as quais governantes eram escolhidos por entidades divinas, esperava-se que a população se afastasse de discursos semelhantes na atualidade. No entanto, a fé continua a atuar como um estímulo à identidade construída a partir do temor às mudanças ou às diferenças, tornando o discurso de “bom cristão” equivalente a expressões conservadoras e em oposição a pessoas vistas como ameaças aos bons costumes e ao progresso da sociedade.
Não obstante, a disputa por diferentes imposições sobre a realidade, a fim de vencer uma guerra ideológica, encontra também apoio no fenômeno das fake news, já amplamente reconhecido, mas que adquiriu uma nova roupagem nos últimos anos. Um dos adventos da tecnologia foi possibilitar a geração facilitada de notícias e conteúdos adaptados às preferências dos usuários a todo momento. Entretanto, quando se trata da verdade factual, conforme apresentada por Hannah Arendt, o algoritmo atua para que a realidade importe cada vez menos, enquanto ganham espaço as diferentes interpretações sobre ela. Ou seja, se o problema imposto por notícias fraudulentas era o medo de não saber sua veracidade, agora a adversidade reside no conforto de permanecer sem saber, uma vez que sua função passa a ser apenas sustentar narrativas pré-estabelecidas e fortalecer a identidade de grupos.
3. Conclusão
Portanto, os pontos analisados sobre a política brasileira e o seu dano à democracia não buscam fazer da alienação, da polarização política e do fundamentalismo sinônimos da atual sociedade brasileira, mas fomentar uma crítica à forma como percepções são construídas e defendidas a todo custo, e como isso impacta diretamente o Estado democrático brasileiro. Afinal, se há algo a se aprender com regimes totalitários, o valor da democracia e o conceito dela em sua maior amplitude certamente são alguns desses aprendizados. A criticidade está imposta na política tal qual a política está imposta ao homem, entretanto, reconhecer a legitimidade da diferença não impõe neutralidade a ninguém, apenas assegura que a democracia experiencie a permanência da pluralidade e forneça ao homem a vantagem de aprender com as diferenças.
REFERÊNCIAS:
ORTELLADO, Pablo; RIBEIRO, Marcio Moretto; ZEINE, Leonardo. Existe polarização política no Brasil? Análise das evidências em duas séries de pesquisas de opinião. Opinião Pública, Campinas, v. 28, n. 1, p. 62–91, jan./mar. 2022. DOI: https://doi.org/10.1590/1807-0191202228162
SILVA, Samuel Antonio da. Religião e política: a influência da política no voto do religioso. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, ano 8, ed. 3, v. 2, p. 120–133, mar. 2023. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/ciencia-da-religiao/religiao-e-politica. Acesso em: 20 de abril de 2026.
CAMPOS, Natália Tavares. “Que não pereça o mundo”: verdade, memória e política em Hannah Arendt. Cadernos de Ética e Filosofia Política, São Paulo, v. 40, n. 1, p. 219–232, 1º sem. 2022.
AMANTINO, Antônio Kurtz. Democracia: a concepção de Schumpeter. Teoria e Evidência Econômica, Passo Fundo, v. 5, n. 10, p. 127–140, maio 1998.
ALVES, Marco Antônio Sousa. A política do nós contra eles: a democracia em risco na contemporaneidade. In: ROUANET, Luiz Paulo; ALVES, Marco Antônio Sousa; ALMEIDA, Maria Cecília Pedreira de (orgs.). Democracia e representação: limites e horizontes. Belo Horizonte: Expert Editora, 2021.
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