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TEM DE SER NAVEGANDO A LONGA NOITE de M. JOÃO CANTINHO

“Temos o trilho, falta-nos o mapa”

editor caliban in Revista Caliban issn_0000311 · 2024-07-02 09:36 · 52 claps · 9.6 min read
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TEM DE SER NAVEGANDO A LONGA NOITE de M. JOÃO CANTINHO

Temos o trilho, falta-nos o mapa

Um Livro de 3 livros é este que Maria João Cantinho apresenta, furtando-se, no entanto, à mera junção de obras anteriores. Uma antologia será, de poemas quase todos retirados de obras publicadas num espaço temporal de uma década: Síladas de Água (2006), O Traço do Anjo (2011), Do Ínfimo (2016).

Da costura destes livros até à peça única muito haveria a dizer, mas aquilo que releva das opções dessa junção é o seu resultado numa obra coesa, de cuja leitura ressalta a unidade, a coerência e um percurso poético-existencial e ontológico muito seguro que é, ao mesmo tempo, espelho do percurso humano com as contingências da nossa condição.

Partilho a ideia de que a leitura da poesia é intervalo no curso banal do quotidiano, paragem, lentidão. Por isso, raramente leio um livro de poesia em contínuo, quando muito, leio pequenos conjuntos de poemas, dependendo da organização e da extensão, porque cada poema é uma peça completa que impõe o seu tempo, convidando a ler devagar.

Não foi assim a minha primeira leitura de Tem de Ser Navegando a Longa Noite pela razão simples de se tratar de um livro que eu sabia destinado à partilha com outros leitores, em apresentação pública e, por isso, precisava de lhe tomar o pulso numa primeira leitura corrida. Na verdade, uma para cada andamento, por se tratar de um Livro de 3 Livros.

Porque falo disto que, em boa verdade só a mim, leitora, interessará? Porque, à medida que fui lendo, um após outro, os 35 poemas do primeiro livro, uma imagem que gostaria de vos mostrar se me impôs, teimosamente, e nunca mais me abandonou na leitura dos seguintes: um fragmento de um quadro de Álvaro Lapa, onde, numa superfície negra sobre uma outra horizontal, de azul profundo, brilha sobre uma tira de luz branca, clara, a frase “Temos o trilho, falta-nos o mapa”.

O curioso é que esta dupla afirmação do pintor se me impôs, numa associação involuntária entre leitura e imagem, desde os primeiros versos do primeiro poema de Sílabas de Água:

“De todas as formas

este é o meu modo de ser

improvável lugar entre as dunas

e a perfeição do céu

o meu modo de ser estilhaçado

perdido num mapa

*que trago oculto sob a língua” *p.15

Encontrar o mapa oculto cedo percebemos que é esforço vão, já que é da sua natureza a substância informe e subterrânea, uma linguagem adormecida à espera do beijo-sopro criador do sujeito poético a quem cabe povoar a paisagem deserta, colhidos os estilhados necessários à recomposição do desenho da sua respiração humana/poética. A nós, leitores, cabe-nos escutar os sinais dessa voz que cresce na nossa direcção (“Leitor, escrevo-te desta margem / Onde nascem flores / *Que atravessam a noite” p.33) e aceitar acompanhar o trilho sobre as pegadas de quem “Escreve, contra a lividez da noite*” p. 29.

Tem de ser Navegando a Longa Noite”, o título, é um aviso, uma advertência imperativa para a entrada nas páginas que teremos de percorrer em estado de voluntária decifração, sabendo tratar-se de uma viagem, longa travessia da noite, como todos os grandes livros que lemos, na esperança do reencontro com o nosso rosto obscurecido num mundo às escuras. Acompanhar o sujeito poético é, pois, saber irmaná-lo na sua incessante demanda de iluminação, nesse longo túnel vital que todos percorremos.

Maria João Cantinho, a poeta que transfere a voz para este sujeito que nos convida (“Leitor, dá-me a tua mão/e caminhemos ambos p.52) despoja-se do biografismo explícito e dos referenciais que poderiam excluir o leitor, e escolhe ir ao fundo da mina existencial de onde só poderá extrair os materiais de uma poesia interrogativa, de feição filosófica, a única de que poderemos apropriar-nos também, inteiramente.

Esta é, então, uma poesia desapegada de uma realidade reconhecível e quotidiana sobre a qual poderíamos sentar-nos em distraído descanso. É uma poesia que nos obriga a caminhar, filosófica, construída sobre um húmus de pensamento que a autora assume e que poderemos — ou não — considerar, porque não é uma poesia hermética, no sentido vulgar da impenetrabilidade, que careça de chaves iniciáticas para ser lida e apreciada. Talvez seja mesmo neste facto que reside parte da grande mestria da escrita de Maria João, poeta que sendo também filósofa, tem a capacidade de criar uma poética de diálogo permanente com a filosofia — sobretudo com os seus filósofos de eleição — sem, no entanto, exigir do leitor o conhecimento dessa filosofia. Não tenho dúvida de que é possível ler com prazer estes poemas, desconhecendo em absoluto a rede de pensamento filosófico que lhes subjaz, porque esta é uma poesia pura, feita da matéria essencial da poesia que é a palavra, a sua potência e a sua música.

É com esta certeza que faço a mediação de leitura deste livro que me proporcionou, justamente, o prazer leitor que me permitiu deixar-me guiar pelo trilho, os olhos e o coração atentos às pegadas desenhadas ou invisíveis, acompanhando a poeta, no movimento entre a arqueologia da memória e a dança inaugural dos corpos e da voz. Dois signos brilham, sempre presentes na caminhada, poema a poema — luz e palavra — esta desdobrada em equivalentes como sílaba, nome, canto, voz, poesia — signos que traduzem, afinal, a essência desta poesia do ser que atravessa a escuridão pelo resgate ao “naufrágio da luz”, na ânsia da iluminação reveladora do rosto opaco, na sua incompletude. Acontece que, desde o início, sabe que essa opacidade apenas será restaurada pela palavra que é poesia, pois só ela ilumina

Escrever é iluminar”, diz

e

Escrevo para que as coisas nasçam e floresçam nos nomes que escrevo”.

Caminhar ao encontro da luz e encontrar a palavra equivalem-se no tempo da escrita, mas é preciso interrogar para o saber

“Para quê as palavras

se o poema é tempo

a desenhar-nos a vida

no assombro deste espelho

que nos reflecte?

Para quê as palavras

se o poema é o círculo de fogo

assinando a vertigem

o exílio deste canto?

Morresses agora e não ouvirias nada.

Não ouvirias a voz que relampeja no vento.

Todavia, existe uma praia do tempo

Onde a noite fulgura

E o poema silaba a tua voz.” p.35

O Tempo, impiedoso caminhante que exibe o espelho da irremediável finitude, é visita constante desta poesia que contra ele se ergue, ao erguer-se contra a escuridão, a tristeza, a morte, no desenho aquático e libertário de uma luz que é asa, pássaro, anjo. O Traço do Anjo.

Dizer poesia instauradora da realidade e nunca a sua ilusória representação faz parecer dura e solitária a caminhada, os olhos postos numa luz sempre em ameaça de escurecimento e numa linguagem informe a moldar como barro. Assim seria, não fossem os recursos a que a poeta sabe poder deitar mão no confronto com a solidão da página em branco, fulgurações fertilizadoras da palavra: o amor, a memória, a escuta das vozes dos antepassados, traços inscritos na pele do corpo e do espírito.

O amor, presente desde o poema inaugural, é também ele, assombro, revelação, luz, potência instauradora de uma fruição nova, de completude e de memória. Na sua nomeação, a música e a dança são frequentemente convocadas para dizer do corpo os gestos, numa relação discursiva eu-tu, por vezes na fusão nós. O amor é desejo, fecunda a escrita, vence a solidão e a morte:

*Olha-me com a ternura da primeira vez *p.15

a mão que deseja o corpo p.24

*“um braço sobre o meu ventre”* p.24

A princípio, esta vertigem é um sol que

“explode no teu olhar…” p.26

é quando escrevo

*que apareces no limiar do mundo* p.32

“como dois amantes

*entrando na vertigem da unidade”* p.43

“E tudo era mais que nós

o canto, o instante, o desejo

e só a nossa dança permanecia

nessa glória prometida

*da indecifrada noite”.* p.71

Ninguém me ensinou como tu

um modo de entrar na eternidade p.27

Despertar a voz, seguir o traço”, o poema inaugural do livro 2 — O Traço do Anjo — é um precioso auxiliar na decifração da cartografia que as palavras desenham. Nele sabemos da descida “à sombra, ao sem-fundo da linguagem/ para ouvir o canto”, “que um outro alfabeto nos é revelado / anterior ao hálito da palavra, /como se as sombras dos nossos antepassados/ percorressem os nossos sonhos”, que “cantam em nós, mas as suas vozes são de rio/e tempo, de outros tempos, /em que também fomos outros”. p.57.

Na caminhada sobre o tempo em direcção à luz, escolhendo e colhendo pequenas e grandes cintilações, sabemos que o magma que a elas se junta para a substância das palavras a vir é feito de memória e escuta. Breves sinais biográficos, que não apenas os da vivência do amor vão sendo convocados — uma geografia distante, de flamingos, savanas, cheiro a terra antiga, o rio do pai, o tempo em que “as casas eram habitadas” (“escrevo um país de penumbra e esquecimentop.36, “Há um país antigo que se abriga em mimp.96 ou “Um rio, um nome”)p.97 e às vozes dos antepassados familiares e civilizacionais, aos arquétipos, juntam-se nomes reconhecíveis, numa assunção de inspiração/influência que me parece muito interessante: nomes dos autores das epígrafes, dedicatórias, citações e referências explícitas no interior dos poemas, como Daniel Faria, Ruy Belo, Ramos Rosa, Sylvia Plath, Valéry, Kafka, Rumi, Juan de la Cruz (e todos os famintos de luz e salvação”) p. 93, Maria Zambrano e Walter Benjamin.

O ser caminhante que parte de um mundo primordial, em demanda da iluminação do rosto, da luz, que o mesmo é dizer do conhecimento, sabe crescentemente que carrega o peso e a levedura do passado, na memória, ao mesmo tempo que olhando o presente e antevendo o futuro, se faz parte, cada vez mais consciente da Humanidade que a marcha da História move e varre.

O poema inicial de “Do Ínfimo” (“Arqueologia de um Rosto p.83), o livro 3, é, mais uma vez uma pedra construtora do mapa, o momento em que sabemos da determinação de prosseguir com todos os despojos, mesmo os ínfimos, mesmo os que doem. As marcas da morte, as vozes em eco do vivido, o sonho, o assombro, o sujo, a sombra, o silêncio. p.83.

O simbólico “pássaro morto” dá entrada a referentes menos abstractizados e o rosto demandado e confrontado é agora mais plural, rostos da Humanidade absurdamente manietados e esvaziados por juízes de processos esmagadores, como o de Joseph K (“Monólogo improvável p. 89) que tornam impossível o sentido da linguagem, apenas permitem o acesso ao Ínfimo “o murmúrio das pequenas coisas,/as que não chegam à palavra / como a sombra ou o vento / desenhando-se sob os álamos, / em quieta reverberaçãop. 87 e agudizando a certeza, quase sarcástica da finitude (“Gestos” p. 88), os instantes de plenitude apenas clareiras efémeras, ecos de “sonho breve” (“E nada nos era vedado p. 89) a estabelecer um arco com a epígrafe de Maria Zambrano, da teimosa reinvenção pela palavra, porque “Somos irmãos da escuridão / olhamo-nos como espelhos / de uma luz íntima / sonhante, na dobra da língua p. 88.”

E diz a poeta no magnífico “O lento passo dos Nómadas”, p. 93.

[Apetece dizer que o nómada cujos passos aqui ressoam é Paul Celan que chega como “hóspede”] sonho penosamente prosseguido em “Os Peregrinos” e “Rachmaninov”. Refúgio ainda no passado, quase apelo à inspiração tutelar de Walter Benjamin, antes da paragem dolorosa no presente (“Diante de mim estás tu, sem espelhos . p. 99.

As interrogações agora são outras: “De que tempo somos, agora / que a tempestade sopra de novo / e ao céu sobe este monte de ruínas / devastação anoitecendo o mundo” e a resposta: do tempo da “Besta” p. 104.

Em “Das cidades, das vozes p. 102, o reconhecimento pungente de que

Já não é o da língua, este estranhamento

Onde reconhecemos o bárbaro, o invasor,

Mas o de uma indigência outra,

A de uma fúria assassina que se abate

Sobre as cidades antigas do deserto”. (eco de Celan)

Agora, os referentes são claríssimos: a destruição impiedosa do passado na guerra da Síria, o cortejo dos náufragos do Mediterrâneo, a horrenda idolatria capitalista do deus dinheiro, o embate desigual entre o norte e o sul, a Europa, essa esperança de “um certo azul com vagas estrelas numa bandeira” a reduzir os cidadãos a corpos dobrados p. 101. A modernidade embriagada de desencanto a afundar-se num grotesco baile de ratazanas expressionistas que James Ensor saberia/soube retratar. Withman, Pessoa, Eliot, as crenças da Modernidade reduzidas a uma Eurídice que ficou para trás a acenar com um trapo, talvez figuração do passado olhado pelo Anjo Novo” de WB.

Pode um homem sonhar, ainda,/Enquanto as asas do mal o assaltam? p.109 É a pergunta que a poeta faz perto do final. Não virá de nenhum deus a resposta, já o sabemos, nem da poesia, parece, agora que os poetas colaram no rosto uma metafórica obesidade. De onde, então?

Há ainda o mar, e a sua fulguração chega pela mão de um poeta, curiosamente, anterior ao Modernismo. Num derradeiro monólogo (ou será diálogo a uma só voz?), a poeta revisita o poema “Le cemitière marin”, de Paul Valéry, o fulgor do mar olhado do cemitério de “Sète”, a sua mediterrânica cidade natal, luz que arrebata o coração e se faz poema, voz que desperta do passado, “no infinito recomeço do canto”.

E eu aqui, o teu olhar pousado em mim, / eu aqui, no limiar do poema” versos que talvez sejam a resposta ao apelo do poema primeiro:

“Olha-me com a ternura da primeira vez

vê e evoca: o vento dança na areia, cantando,

vê e recorda esses milhões de grãos de luz

que navegam no longe do mar”…

A circularidade cartográfica e temporal restabelecida entre o primeiro e o último poema, como num sonho em que, como nos ensina Maria Zambrano na epígrafe 81, o tempo não existe.

Afinal a luz não se extinguiu e o mesmo mar onde se abisma a Humanidade em queda guarda ainda a voz antiga da poesia. Basta escutá-la “La mer, la mer, toujours recommencée”.

ELISA COSTA PINTO


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