Luiz Gonzaga e o custo da falsa liberdade
Assum Preto é uma música do saudoso Luiz Gonzaga que retrata a sina da ave que dá nome à canção. Entre os passarinheiros, acreditava-se que…
Luiz Gonzaga e o custo da falsa liberdade

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Assum Preto é uma música do saudoso Luiz Gonzaga que retrata a sina da ave que dá nome à canção. Entre os passarinheiros, acreditava-se que furando os olhos da graúna (outro nome do assum preto) a ave cantaria mais e exibiria por mais tempo seu canto melodioso. Em algumas regiões do Nordeste essa prática ainda é feita.
Essa crueldade permite que a ave prisioneira possa viver fora de uma gaiola, pois, não enxergando nada, não pode ir para outro lugar senão permanecer onde está e cantar de dor:
Assum Preto veve sorto Mas num pode avuá Mil vez a sina de uma gaiola Desde que o céu, ai, pudesse oiá Mil vez a sina de uma gaiola Desde que o céu, ai, pudesse oiá
A liberdade do assum preto, no entanto, é falsa. A pobre ave, privada de enxergar o sol de abril e a mata em fulô, não pode usufruir de tal liberdade e voar para onde quiser, pois não enxerga mais a luz. Por isso, Luiz Gonzaga diz preferir mil vez a sina de uma gaiola desde que o céu, ai, pudesse oiá.
Assim como os passarinheiros furam os olhos do assum preto, o materialismo mundano furou os olhos dos homens para que estes deixassem de olhar para o Céu. A antiga e viva esperança de um dia poder voar para lá deixou de existir. A humanidade agora canta uma incelença para o Deus que o secularismo moderno julga ter morrido.
No entanto, do mesmo modo que a cegueira da graúna distorce sua natureza — pois ela foi feita para o céu — assim também o secularismo materialista desfigura a natureza humana, pois nos tira os olhos do céu e fixa toda a verdade apenas no chão frio em que pisamos. O que nos torna humanos, contudo, é justamente possuir uma esperança pela qual valha a pena viver, pois o anseio pelo transcendental é inerente a todo ser humano. Como disse Fiódor Dostoiévski:
“O mistério da existência humana não é apenas manter-se vivo, mas encontrar algo pelo qual viver.”
Se para o assum preto a vida perde o sentido quando lhe é roubada a beleza da criação e a luz do mundo, para o homem, a cegueira do secularismo lhe esvazia a própria razão de existir. Pois a vida vai muito além dos setenta, oitenta ou cem anos de vida na terra — Tem que haver mais — disse Tarkovsky pela voz de Matilde Campilho. Sim, há mais… e é esse algo mais que, dia após dia, nosso carrasco rouba de nós.
Diante disso, uma vez que estamos inevitavelmente presos na gaiola do mundo, é melhor resistir à falsa liberdade da prisão a céu aberto. Mesmo que isso signifique permanecer preso em uma gaiola, não ceder aos prazeres efêmeros do mundo preservará a humanidade que ainda resta em nós. Assim, entre as grades de uma prisão temporária, ainda poderemos olhar para o Céu e com ele sonhar até que sejamos por fim libertados.
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