← Back to list

Luiz Gonzaga e o custo da falsa liberdade

Assum Preto é uma música do saudoso Luiz Gonzaga que retrata a sina da ave que dá nome à canção. Entre os passarinheiros, acreditava-se que…

Eric Jhon · 2026-06-27 15:42 · 50 claps · 2.1 min read
#luiz-gonzaga #nordeste #literatura #poesia #ensaio
Open on Medium ↗

Luiz Gonzaga e o custo da falsa liberdade

Gerado por IA

Gerado por IA

Assum Preto é uma música do saudoso Luiz Gonzaga que retrata a sina da ave que dá nome à canção. Entre os passarinheiros, acreditava-se que furando os olhos da graúna (outro nome do assum preto) a ave cantaria mais e exibiria por mais tempo seu canto melodioso. Em algumas regiões do Nordeste essa prática ainda é feita.

Essa crueldade permite que a ave prisioneira possa viver fora de uma gaiola, pois, não enxergando nada, não pode ir para outro lugar senão permanecer onde está e cantar de dor:

Assum Preto veve sorto Mas num pode avuá Mil vez a sina de uma gaiola Desde que o céu, ai, pudesse oiá Mil vez a sina de uma gaiola Desde que o céu, ai, pudesse oiá

A liberdade do assum preto, no entanto, é falsa. A pobre ave, privada de enxergar o sol de abril e a mata em fulô, não pode usufruir de tal liberdade e voar para onde quiser, pois não enxerga mais a luz. Por isso, Luiz Gonzaga diz preferir mil vez a sina de uma gaiola desde que o céu, ai, pudesse oiá.

Assim como os passarinheiros furam os olhos do assum preto, o materialismo mundano furou os olhos dos homens para que estes deixassem de olhar para o Céu. A antiga e viva esperança de um dia poder voar para lá deixou de existir. A humanidade agora canta uma incelença para o Deus que o secularismo moderno julga ter morrido.

No entanto, do mesmo modo que a cegueira da graúna distorce sua natureza — pois ela foi feita para o céu — assim também o secularismo materialista desfigura a natureza humana, pois nos tira os olhos do céu e fixa toda a verdade apenas no chão frio em que pisamos. O que nos torna humanos, contudo, é justamente possuir uma esperança pela qual valha a pena viver, pois o anseio pelo transcendental é inerente a todo ser humano. Como disse Fiódor Dostoiévski:

“O mistério da existência humana não é apenas manter-se vivo, mas encontrar algo pelo qual viver.”

Se para o assum preto a vida perde o sentido quando lhe é roubada a beleza da criação e a luz do mundo, para o homem, a cegueira do secularismo lhe esvazia a própria razão de existir. Pois a vida vai muito além dos setenta, oitenta ou cem anos de vida na terra — Tem que haver mais — disse Tarkovsky pela voz de Matilde Campilho. Sim, há mais… e é esse algo mais que, dia após dia, nosso carrasco rouba de nós.

Diante disso, uma vez que estamos inevitavelmente presos na gaiola do mundo, é melhor resistir à falsa liberdade da prisão a céu aberto. Mesmo que isso signifique permanecer preso em uma gaiola, não ceder aos prazeres efêmeros do mundo preservará a humanidade que ainda resta em nós. Assim, entre as grades de uma prisão temporária, ainda poderemos olhar para o Céu e com ele sonhar até que sejamos por fim libertados.


메타데이터
post_id
a18727d5dfdd
slug
luiz-gonzaga-e-o-custo-da-falsa-liberdade-a18727d5dfdd
url
https://medium.com/@escritordeareia/luiz-gonzaga-e-o-custo-da-falsa-liberdade-a18727d5dfdd
canonical_url
https://medium.com/@escritordeareia/luiz-gonzaga-e-o-custo-da-falsa-liberdade-a18727d5dfdd
author_url
https://medium.com/@escritordeareia
status
ok
fetched_at
2026-08-08 13:51:47