o niilismo sempre esteve certo
Qual é a lógica disso tudo? Por que a gente cruza justamente com certas pessoas, cria laços absurdos, sente que a vida finalmente encontrou…
o niilismo sempre esteve certo
Qual é a lógica disso tudo? Por que a gente cruza justamente com certas pessoas, cria laços absurdos, sente que a vida finalmente encontrou algum sentido, e depois vê tudo virar poeira de novo? Precisa existir algum motivo. Porque, se não existir, se for tudo só acaso cego, então a vida não passa de uma sucessão de coincidências cruéis. E cruéis de verdade, daquelas que ferem sem remorso e não dão nenhuma explicação.
Quando eu era mais novo, lia muita filosofia tentando encontrar alguma resposta que aliviasse esse peso na cabeça. Gostava de dizer, com toda convicção do mundo, que acreditava num niilismo absoluto. Lia Epicteto e repetia aquelas ideias de que a dor estaria mais na nossa interpretação do que no fato em si, de que o sofrimento dependeria da forma como a gente enxerga o que acontece. No papel, isso tudo é bonito. Parece até elegante pensar que a mente pode se blindar e que a consciência, sozinha, seria capaz de dar conta de qualquer desastre.
O problema é que o niilismo teórico bate de frente com a nossa natureza. Com o corpo, com a carência, com essa necessidade profundamente humana de vínculo, de sentido, de presença. Entender racionalmente que nada tem um propósito pré-definido não faz a dor diminuir. Não preenche o vazio de um quarto num domingo à noite. A gente até aprende a controlar a reação, a disfarçar melhor, a fingir indiferença. Mas, no fim, a verdade é que a gente sempre escolhe se importar. A gente ama, se apega, cria expectativa, torce para que as coisas melhorem. E é justamente aí que tudo desanda: na tentativa desesperada de dar algum significado ao caos.
Eu achei que entender o niilismo fosse me libertar. Achei que, se aceitasse de vez que o universo é indiferente, eu pararia de me frustrar com as pessoas, com as perdas, com a minha falta de sorte. Mas o que ninguém conta é que o vazio também pesa. E pesa muito. Quando você percebe que não existe plano maior, justiça cósmica, karma equilibrando a balança ou qualquer recompensa prometida a quem insiste em continuar, o que sobra é um cansaço enorme. Parece que você está correndo numa esteira sem sair do lugar, gastando tudo o que tem para não chegar a lugar nenhum.
Eu já passei por tanta coisa pesada, já engoli tanto choro, já segurei tanta coisa sozinho, que às vezes viver parece um teste de resistência que nunca termina. Todo dia eu acordo com a sensação de que ainda preciso provar alguma coisa ao mundo. Como se eu tivesse que merecer paz, merecer amor, merecer um mínimo de descanso. E a pergunta que fica é: até quando? Qual é o critério? Que prova é essa que nunca acaba? Por que, para algumas pessoas, a vida parece simplesmente seguir, enquanto para outras tudo vira luta, desgaste, trincheira?
Hoje eu já estou cansado dessas teorias bonitas que prometem liberdade, mas não seguram ninguém em pé quando a realidade pesa de verdade. O que sobrou em mim foi um niilismo passivo, sem brilho, sem rebeldia, sem energia. Antes eu ainda acreditava que, se nada vinha pronto, então eu poderia construir o meu próprio sentido. Agora nem isso. Falta vontade, falta força, falta impulso. Até a revolta se desgastou. O que sobrou foi uma apatia funda, esse “tanto faz” silencioso que vai tomando conta de tudo.
E não é por falta de esforço. Tem horas em que parece que a própria vida falhou comigo. Não porque me devesse grandeza ou glória, mas porque nunca me deu sequer um chão minimamente firme para continuar. Nenhum sinal de justiça. Nenhuma recompensa que tornasse a insistência mais suportável. Então eu acordo cedo, cumpro o que preciso cumprir, sigo vivendo por inércia, mas no fundo me pergunto: acreditar em quê? Continuar por qual motivo, se tanta coisa parece depender de um acaso bruto e impessoal?
Também já não tenho paciência para essas frases prontas que tentam maquiar o absurdo. Essa conversa de que “todo mundo tem sua hora”, de que “o que é seu está guardado”, de que “no fim tudo dá certo”. Não dá. Para muita gente, não dá. A vida não tem compromisso nenhum com finais felizes. Às vezes ela só entrega silêncio, ausência e a prova dura de que o mundo não está nem aí para o que a gente sente.
Quando a gente percebe que não controla quase nada, nem quem fica, nem quem vai, nem o que se passa dentro de quem ama, nem as tragédias, nem os rompimentos, nem o rumo das coisas, o que sobra é uma sensação brutal de impotência. Talvez seja justamente aí que nasça a pergunta mais difícil de todas: o que ainda depende de nós? Talvez, no meio desse caos sem sentido, a única liberdade real que reste seja decidir como atravessar o que ficou. Como continuar, ou não se abandonar por completo, mesmo sem resposta, mesmo sem garantia, mesmo sem consolo.
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