Quando o Inferno Tem Cor: a Demonização das Religiões Afro-Brasileiras e a Persistência da Lógica…
Recentemente, uma situação em meu ambiente de trabalho despertou uma reflexão que me acompanha desde a graduação. Durante uma conversa…
Quando o Inferno Tem Cor: a Demonização das Religiões Afro-Brasileiras e a Persistência da Lógica Colonial

Recentemente, uma situação em meu ambiente de trabalho despertou uma reflexão que me acompanha desde a graduação. Durante uma conversa comum, uma colega associou as religiões afro-brasileiras ao inferno.
Diante da afirmação, manifestei meu posicionamento e compartilhei algumas reflexões construídas a partir de meus estudos sobre religiões afro-brasileiras e racismo religioso. O diálogo se prolongou e, depois, fui tomado por uma inquietação. Não pelos argumentos apresentados, mas pela sensação de ter transformado uma conversa cotidiana em um debate aparentemente maior do que a situação exigia.
Com o passar das horas, compreendi que esse incômodo dizia mais sobre a sociedade do que sobre mim. Há uma estranha naturalização das violências simbólicas dirigidas às religiões afro-brasileiras, enquanto sua contestação costuma ser recebida como exagero. O preconceito passa despercebido; o enfrentamento dele, por sua vez, gera desconforto.
Essa dinâmica não é acidental. Ela resulta de uma herança colonial que, durante séculos, demonizou tradições africanas para justificar a dominação de povos negros e a imposição de valores europeus. Os africanos trazidos à força para o Brasil carregavam sistemas religiosos complexos, baseados na ancestralidade, na natureza e no equilíbrio das forças da vida. Contudo, suas espiritualidades foram reinterpretadas por categorias cristãs que lhes eram estranhas.
Nesse contexto, entidades como Exu passaram a ser associadas ao mal e ao inferno, embora tais conceitos não façam parte das cosmologias africanas da forma como foram construídos pelo imaginário ocidental. Essa leitura distorcida atravessou gerações, alimentando perseguições, estigmas e diferentes formas de racismo religioso.
Foi justamente essa herança que se manifestou naquela conversa de trabalho. A associação automática entre religiões afro-brasileiras e o inferno não nasce do conhecimento sobre essas tradições, mas da permanência de uma lógica colonial ainda presente em nossa sociedade.
Ao final, percebi que minha inquietação não estava em ter respondido. Ela estava na constatação de que ainda causa estranhamento questionar um preconceito tão profundamente enraizado. E talvez seja justamente por isso que o silêncio já não possa ser uma opção.
Ao final do mês dedicado a Xangô, fica o ensinamento de que a justiça exige coragem para enfrentar a mentira e o preconceito. Kaô Kabecilê!
메타데이터
- post_id
- a1aef2ff7bc3
- slug
- quando-o-inferno-tem-cor-a-demonização-das-religiões-afro-brasileiras-e-a-persistência-da-lógica-a1aef2ff7bc3
- url
- https://medium.com/@joaouriaslima/quando-o-inferno-tem-cor-a-demoniza%C3%A7%C3%A3o-das-religi%C3%B5es-afro-brasileiras-e-a-persist%C3%AAncia-da-l%C3%B3gica-a1aef2ff7bc3
- canonical_url
- https://medium.com/@joaouriaslima/quando-o-inferno-tem-cor-a-demoniza%C3%A7%C3%A3o-das-religi%C3%B5es-afro-brasileiras-e-a-persist%C3%AAncia-da-l%C3%B3gica-a1aef2ff7bc3
- author_url
- https://medium.com/@joaouriaslima
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-21 18:32:37