Emicida Racional Vol. 2
E AÍ, VAMO TROCAR UMA IDEIA SOBRE O DISCO DO EMICIDA?
Emicida Racional Vol. 2
E AÍ, VAMO TROCAR UMA IDEIA SOBRE O DISCO DO EMICIDA?
Há algumas semanas Emicida lançou um novo álbum chamado Emicida Racional Volume 2 — Mesmas Cores e Mesmos Valores, uma homenagem direta ao último disco dos Racionais: Cores e Valores.
Foi nessa ocasião que eu recomecei o canal ***Rapeat***, e fiz react de cada faixa do disco. E nos reacts eu disse que ali seria uma primeira impressão de cada música e depois eu voltaria com um texto onde eu pudesse elaborar um pouco melhor o que eu achei de cada faixa e do albúm como um todo. Mas pra isso eu precisava de um tempo para absorver melhor as ideias, os sentimentos, a obra como um tudo.
E foi justamente o que eu fiz nesse período: ouvi o disco varias vezes, voltei pra ouvir o disco dos Racionais também, e revisitei alguns trampos mais antigos do Emicida. E essa análise acabou demorando mais do que eu pretendia, porque quanto mais eu mergulho nessa obra mais eu vou descobrindo, pegando novas referências… mas eu precisava logo parar e escrever meus pensamentos, porque um obra de arte como essa, leva muito tempo até conseguir absorver tudo, se é que isso é realmente possível.
Porque o daora das artes é justamente isso, sempre te desperta algo novo, uma associação que você não tinha feito de primeira, uma referência que você só entende depois de se aprofundar numa outra, é um ciclo sem fim.
Mas vamos falar do disco. Emicida — Mesmas Cores & Mesmos Valores foi lançado em dezembro de 2025, o disco tem 10 faixas, onde metade delas são interlúdios, e talvez essa seja a grande novidade desse disco.
Intelúdios são faixas que não são exatamente músicas. Embora possa ter melodia de fundo, embora possa ser uma poesia, ela não é um rap como a gente tá acostumado. E pode ter várias funções dentro de uma obra: pra complementar outra faixa, pra ajudar criar a atmosfera do disco, etc. Aqui, entre outras coisas, eu vejo como sendo uma separação entre Emicida e Leandro. Mas vou explicar isso melhor mais pra frente.
Outros pontos gerais sobre o disco, antes da gente entrar em cada faixa é que no vídeo que eu fiz 1 dia antes do lançamento do disco, com as expectativas para o disco, eu estava me baseando numa expectativa pessoal, com a análise que eu fazia da carreira do Emicida da cena como um todo, e principalmente dos comentários de outros criadores que já tinham ouvido o disco e estavam divulgando algumas informações. E ali eu fiquei muito com a ideia (que alguns deles disseram) que era o Emicida das antigas que estava de volta. Ou seja, o Emicida das 2 primeiras mixtapes.
E agora analisando o disco eu vejo que isso não aconteceu. Pelo menos não da forma que eu estava imaginando. E isso não é uma crítica. Mas eu vejo ali mais do Emicida atual mesmo. O Emicida do disco Amarelo e do Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa… E eu disse isso também naquele vídeo de expectaticas. Embora esperassem o “Emicida do velho testamento”, ali eu também disse que isso seria impossível de acontecer porque o conhecimento musical, a riqueza na produção, e tudo que gira em torno de produzir uma obra, agora são diferentes. Emicida é um artista muito mais completo, e mais refinado. E é exatamente isso que eu vejo nesse disco.
Ao invés de soar como “Pra quem já poder um cachorro por comida” e “Emicídio”, esse disco é uma mistura de “Cores e Valores” com “Amarelo”, em alguns aspectos eu acho até que “Cores e Valores” com “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa…”, como por exemplos nos interlúdios que citei anteriormente, que aparecem mais nesse penúltimo disco. Em “Amarelo” eles até existem, mas dentro da própria faixa, como um poema no final da música, em 2 ou 3 faixas. Já no disco anterior, ali sim temos umas 3 faixas que são usadas só pra reforçar a ideia do disco, ou da faixa seguinte.
Então os principais pontos do disco são: 1: a clara homenagem ao disco dos Racionais, e a carreira do grupo como um todo.* *2: O uso de interlúdios em metade do álbum para criar a narrativa desse trabalho. 3: Produções impecáveis, não só pelos samples que aparecem, referenciando os Racionais e as referências dos Racionais (como Cassiano e Tim Maia), mas misturando com músicos de orquestra. 4:* e o último ponto extretamente notável, já entrando no quesito das letras, é Emicida rimando quase que o tempo todo com palavras proparoxítonas. Uma escolha técnica bastante elaborada, como se ele tivesse realmente se desafiado a trazer uma rima “mais difícil”, mas que musicalmente também essas palavras impõe uma cadencia diferente. E o Emicida falou disso na entrevista pro Bial, que ele percebeu ouvindo Finado Neguim***, do disco dos Racionais, onde a ritmica do Mano Brown parece que as frases estão desabando — e acho que esse também tem um dos conceitos que ele quis colocar nesse disco. Onde o Emicida precisa equilibrar os problemas pessoais que viveu nos meses anteriores ao disco, a sua carreira musical, e a homenagem aos seus ídolos.
Mas vamos falar de cada uma das faixas, e as particularidades de cada uma.
Logo na faixa 01 podemos ver Emicida se despindo do artista, e deixando a mostra a alma do Leandro. Quem passa 2 minutos chorando no final da faixa é o Leandro, após perder sua mãe. Os áudios da Dona Jacira que formam essa música foram enviados para o filho Leandro, não para o rapper Emicida. Emicida apenas abriu a cortina e deixou a gente ver os bastidores.
E no exercício dessa dualidade podemos dizer que os interlúdios do disco são o Leandro, e as faixas com rap são o Emicida. Se relacionando também com a questão do equilíbrio que comentei.
E nessa brincadeira de tentar separar o CPF do CNPJ, foi o Leandro que teve a ideia do disco. Ele que chegou pro Emicida e disse “faz um disco pros caras!” Porque o Emicida é fã dos Racionais, óbvio. Não existiria Emicida se não existe Mano Brown ou Edi Rock. Mas também não existiria Emicida se em algum momento o Leandro deixasse de existir. O Emicida os Racionais inspira. Mas o Leandro os Racionais salvou. Muitos anos antes de existir o Emicida. E arrisco dizer que muitas vezes.
Passando para a faixa 02, depois do Leandro abrir o disco, Emicida chega com um verso relativamente curto, mas mostrando toda a sofisticação que eu falei anteriormente, no melhor estilo Emicida de verdade. Rimas improváveis, dezenas de referências de futebol, filme, livros, heróis. Esse verso me lembra o que ele fez em Pantera Negra.
Faixa 03 (O que nois faz com essa dor): Outro interlúdio, Leandro aparece de novo, e volta no assunto da perda da sua mãe. Pelo menos é o que o título sugere. Essa faixa não tem nada sendo dito, totalmente instrumental, e aqui a gente observa duas coisas: O piano começa tocando a base da música Boa Esperança, e de repente começa a se misturar com o toquinho da faixa Capítulo 4 Versículo 3, dos Racionais. Num primeiro momento quando ouvi não vi uma relação clara entre as duas músicas, mas se parar pra analisar as duas letras tem as mesmas questões sendo ditas de maneiras diferentes (racismo, violência policial, revolta, etc…).
Faixa 04 (Finado Neguim memo): Emicida aqui MALTRATA as proparoxítonas, num verso extremamente complexo, que precisa ouvir várias vezes acompanhando a letra pra começar a entender a ideia. A princípio parece uma música de braggadocio, ou seja, ele dizendo o quanto ele é foda, mas de uma forma mais difícil. Mas pode ser que haja um duplo sentido maior nessa faixa, que ele possa estar falando de algo totalmente diferente, e começaram surgir algumas teorias. Talvez futuramente eu fale só dessa música e os (possíveis) significados ocultos.
Faixa 05 (A coisa mais esperançosa e mais dilacerante são a mesma): Outro interlúdio, (repara que ele praticamente intercala uma música/um interlúdio, e somente nas faixas 6 e 7 que ele emenda dois raps em sequência), Leandro volta, e novamente pelo título podemos relacionar com a perda da mãe. Ele começa falando a data, hora, e local, igual Mano Brown faz em Diário de um Detento, e a melodia começa com o sample de tamborzinho dessa mesma música. Junto começa a melodia da música Ela Partiu, do Tim Maia (que os Racionais também usam na faixa Homem na estrada). O tambor segue, mas no meio da música a melodia muda para a música Levanta e Anda, do Emicida com Rael. Outra faixa que ele brinca com a mistura de músicas, e a mensagem é: ELA PARTIU, mas LEVANTA E ANDA.
Faixa 06 (A mema praça): Aqui temos praticamente um fanservice. Emicida, Rashid e Projota juntos novamente, depois de tantos anos. Mas ao invés de fazerem por exemplo um Nova Ordem parte 2 — o que seria realmente um fanservice, eles voltam num conceito muito interessante e que eu gostei bastante que é o de continuar uma música dos Racionais, ou, contar o mesmo acontecimento por outra perspectiva. Na música dos Racionais, A Praça, eles contam o acontecimento 2007 na Virada Cultural, quando faziam o show na Praça da Sé e um tumultu e “conflito” entre o público e a polícia encerrou o show mais cedo, deixando muitos feridos e destruição por toda região da praça. O rap mais uma vez foi criminalizado, houve um boicote à artistas de rap nos eventos culturais da cidade por um tempo, principalmente aos Racionais. A gente tinha então a perspectiva dos Racionais, e os 3 temores trouxeram a versão de quem estava lá no dia como fã pra ver o show e teve que fugir de tiro de borracha de bomba de gás. Um dos momentos mais traumáticos da história do Rap Nacional
Faixa 07 (Quanto vale o show memo?): Homenagem à música Quanto vale o show, do disco Cores e Valores, que é minha faixa favorita desse disco. Aqui Emicida faz de novo algo parecido com o que fez na faixa anterior, que é continuar a história da música original. Em sua faixa, Mano Brown descreve coisas da sua infância e juventude, e relaciona isso com acontecimentos do Brasil e de São Paulo. Ele começa do ano de 1983, falando que tinha 13 anos e estava na 7ª serie, e vai narrando várias situações até o ano de 1987, praticamente na última linha da música. Então Emicida, na primeira linha, começa em 1988, quando tinha 3 anos. Emicida cita a morte do pai em 91, o tetra em 94, e termina a música em 2003, com a morte de Sabotage. Essa música foi a que mais me emocionou, desde a primeira vez que ouvi, e a dobradinha com a faixa anterior marca o ponto alto do disco.
Na faixa 08 (Compreender tudo, é perdoar tudo) temos mais um interlúdio. Nessa música a filha mais velha do Emicida, Estela, declama um texto que é praticamente uma tradução direta da música Whats going on, do Marvin Gaye.
Faixa 09 (Us memo preto zica) : Rerefencia a música Preto Zica dos Racionais, que inclusive o refrão aparece aqui numa versão meio sambinha, na voz de uma criança, o que ficou sensacional e muito gostosinho de ouvir. Na brincadeira entre Emicida e Leandro, tecnicamente essa seria uma música do Emicida, já que é um rap, mas eu considerei como sendo um feat de Emicida e Leandro, porque a música são diversas frases dos Racionais que foram misturadas pra formar uma nova música. Então o Leandro entra na ideia de fã, no lugar de quem ouviu todas essas músicas e foi salvo, como eu falei no início. E o Emicida, rapper, reorganizou de uma forma que rimasse e fizesse sentido. Sendo assim, a combinação de todas essas frases são o que os pretos zicas já disseram. Assim como diz o refrão da música original (“preto zica, truta meu, disse assim…”).
Faixa 10 (A próxima mensagem que você precisa está exatamente onde você está agora): Última faixa, último interlúdio. Leandro abriu o disco, Leandro fecha o disco. Uma faixa de 10 minutos que não tem verso nenhum, nem melodia de fundo. É uma gravação de um evento de família, um aniversário provavelmente, onde é possível ouvir algumas pessoas conversando e rindo bem ao fundo.
Uma reflexão que fiz nessa faixa é a ideia da “pequenas alegrias da vida adulta” (nome da música que o Emicida trouxe no último disco). Essa faixa, que também tem a ver com o lance de equilibrar as coisas difíceis da vida, inclusive a primeira linha ele diz “deve-se ter cuidado ao passar no trapézio”, que poderia ser uma frase presente nesse disco, dado todo o contexto dessa obra. Mas além disso, essa gravação de um momento feliz em família é a pequena alegria da vida depois de começar o disco com a perda da mãe, e flertar o tempo todo com essa dor. É o “levanta e anda” que tem mais gente com você. O nome da faixa diz: “A próxima mensagem que você precisa está exatamente onde você está agora”, e aqui ele está lá com a família, cantando parabéns e se divertindo. Até o lance da gravação ser distante dá essa impressão, que ele deixou nós, os ouvintes, lá no estúdio dele, enquanto ele se distancia pra poder viver esse momento em família.
Emicida entregou um dos melhores discos de 2025, as é difícil dizer que é um dos melhores da carreira dele, já que sua discografia é impecável. Mas enquanto obra de arte, é impossível negar que ele entregou um trabalho extremamente coeso, muito maduro, rico em referências, que talvez leve anos pra gente absorver totalmente tudo que ele fez aqui.
Emicida entrou dentro de Cores e Valores, bebeu da fonte, das referências, dos samples, e mesmo assim conseguiu fazer um disco com estética do Emicida, não do Racionais. Isso porque, além de Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay, Emicida também trouxe nesse trabalho, sua mãe Jacira, suas filhas, sua esposa, sua família e amigos, e claro, o Leandro e toda sua vivencia de fã, antes mesmo de ser artista. Mas isso tudo só foi possível porque esse artista é um dos maiores de todos os tempos.
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- 2026-07-11 14:18:26