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O Sentido Que Não Queria Ter

Quando eu era mais novo… pera. Não tão novo assim. Eu tinha uns 18. E tinha um amigo chamado Ricardo. Naquela época morava em Cascais, o…

Thiago Manzo · 2019-03-02 19:49 · 5 claps · 2.3 min read
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O Sentido Que Não Queria Ter

Quando eu era mais novo… pera. Não tão novo assim. Eu tinha uns 18. E tinha um amigo chamado Ricardo. Naquela época morava em Cascais, o Ricardo foi um dos poucos amigos que sinto falta de lá, ele estudava filosofia e não tinha olfato. Sério. Sem olfato. Não era rinite. Não era nariz entupido constantemente. Coriza. Nada disso. O cara nasceu sem o olfato. Não conseguia sentir o gosto da comida tão bem como a maioria de nós. Mas dizia que sentia o gosto sim. Em dias quentes, ele perguntava se ele tava fedendo. Era engraçado. A gente zuava falando que quando ele chegava na escola vinha uma nuvem verde tóxica no céu. Quando ele entrava no bar, a gente falava que tudo ficava com um cheiro acre e que se ele fosse um Ursinhos Carinhosos, em vez de ter o coração, seria o podridão. Na verdade, ele era bem cheiroso. Com essa coisa de não sentir o cheiro de nada, ele tinha o hábito de tomar uns três banhos por dia, lavar as mãos com frequência e lidar com perfumes como se fosse água. O efeito era o oposto. A gente fechava a cara porque ele tomava banho com aquela merda. Aí, por cheiros fantasmas, ele indicava que “tinha colocado só um pouquinho”. Aliás, cheiros fantasmas era comum. Quando uma comida tava pronta ele sentia cheiro de “queimado”. De vez em quando, ele sentia cheiro de “menta” quando batia o vento. Ele era mulherengo. Falava que todas as mulheres tinham o mesmo cheiro: Flor de rosas. Nunca entendi. Ele dizia também que não conseguia se apegar. Observando ele e lembrando dele enquanto procurava algo para escrever esses dias, me toquei. Ele era um afortunado. A benção maior dele era não sentir cheiros. Era o que o afastava das mulheres. Ele se apaixonava muito rápido. Mas não conseguia criar elos. Eu via. Ele ficava com uma moça, essa moça curtia ele, eles iam pra casa e ficavam juntos alguns dias. Nos próximos, ele deixava para lá. Ele… esquecia. Um belo dia lembrei à ele da moça que tinha conhecido no baixo chiado, uma mulher linda, angolana, negra, de longos cabelos negros e olhos verdes. “Meu Deus!” Ele gritou no meio do shopping. “Esqueci-me de levar ela ao cinema.” Ligou para ela. Ela não entendeu. Ao tentar explicar, ele disse, “é que não te sinto.” Ela desligou na cara dele. Ele, com uma cara muito séria, sentou-se. Eu me peguei remoendo aquela frase com uma poesia incerta. É que não te sinto. Sinto, no sentido de saber, como quem sabe o sabor de algo e não sabe a sabedoria. Sinto essa água gelada. Sinto o gosto deste chocolate amargo. Sinto seu cheiro. O cheiro a ele causava Alzheimer. Ou a ausência dele. E hoje, anos depois, lavei a porra do travesseiro tantas vezes e ainda sinto teu cheiro. Outro dia encontrei fios do teu cabelo enrolados entre os dedos nos lençóis e puxei fundo para sentir teu cheiro. Não é que ande contando, mas faz 337 dias que você foi embora e eu sinto um cheiro fantasma absurdo do teu perfume. Esses dias, peguei o livro que você me deu do Bandeira, e tinha sua dedicatória. Pela dedicatória, lembrei do cheiro das suas coxas, da sua pele, da porra da sua barriga. Do cheiro que pingava da minha barba. O Ricardo era feliz. Porque prisão de verdade é sentir o cheiro do outro. O cheiro do outro é que traz você pra mim. É que eu te sinto. Eu só queria não sentir mais nada.


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