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O videoclipe: ontem, hoje e sempre

Um breve panorama da história do videoclipe e algumas mulheres que fazem parte da evolução dessa técnica; de Rita Lee a Beyoncé.

Damy Coelho in ENTRE LP · 2020-09-08 19:30 · 100 claps · 8.1 min read
#videoclipe #música-popular #mtv #audiovisual #mtv-brasil
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História do videoclipe: ontem, hoje e sempre

Um breve panorama da história do videoclipe e algumas mulheres que fazem parte da evolução dessa técnica; de Rita Lee a Beyoncé.

Algumas narrativas musicais:

  1. Greta Garbo, primeira pop star dos clipes?

Muita gente associa o videoclipe à juventude e ao vanguardismo, talvez por causa da MTV. Mas a verdade é que, desde o início do século passado, as pessoas já vinham tentando experimentar juntar vídeo e música pra ver se dava liga. E até que deu, viu?

Podemos dizer que isso começou lá em 1902 (!) com o chronophone, um aparelho criado por Léon Gaumont que basicamente sincronizava cinematógrafo e fonógrafo, numa clara tentativa de acoplar som e imagem em uma única parafernália.

Outro primórdio do videoclipe pode ser o cinema mudo. Isso porque os filmes eram exibidos nos cinemas acompanhados de um músico. Aquele som ditava o ritmo e o clima da narrativa: a melodia podia acelerar ou diminuir de acordo com as cenas, que iam de uma fuga cheia de adrenalina ou um suspiro lento e profundo da Greta Garbo.

Alguns pesquisadores também atribuem à canção ilustrada um pioneirismo ao videoclipe. Contemporânea ao cinema mudo e popular nos Estados Unidos, essa arte performática consistia em um músico tocando enquanto imagens eram transmitidas em projeção.

Essas canções ilustradas acabam representando uma espécie de proposta primordial do videoclipe: enquanto no cinema mudo as canções serviam como uma trilha sonora da narrativa cinematográfica, nas performances de canção ilustrada, a narrativa se pautava na própria música.

Ainda assim, mesmo com toda essa bagagem histórica, não dá pra dissociar a história do videoclipe da televisão. Mesmo que já existisse a tentativa de criar uma narrativa que embutisse imagem e canção ainda no início do século XX, é com as possibilidades trazidas pela televisão que o videoclipe ganha espaço para se formar como potente divulgador do trabalho de músicos, produtores e, claro, gravadoras.

2. Antes de haver o clipe; havia o musical no cinema e na TV

A televisão chega por aqui em 1950, mas só começa a se popularizar mesmo na década seguinte por conta do seu alto custo. Coincidência ou não, nessa mesma época o mercado também estava de olho na produção cultural direcionada à juventude. Ao contrário do que acontecia antes, os jovens passaram a ser considerados consumidores em potencial porque tinham voz ativa, muito influenciadas pelo movimento hippie e pelo rock’n’roll. É só lembrar de figuras como Elvis e Beatles, lá fora, e a Jovem Guarda aqui no BR — os artistas que dominavam os meios de comunicação eram jovens e conversavam com jovens.

E a TV potencializa esse mercado, porque mostra como esses artistas se portam também visualmente — a roupa, o corte de cabelo, o corpo e a performance. O público passaria a conhecer mais do que somente a voz dessas figuras — antes popularizadas pelo rádio — e a ver mais do que viam nas mesmas fotos de revistas: com os programas de TV, o conceito em torno desses artistas fica ainda mais claro.

É a partir do trabalho desses jovens na televisão que nasce um formato mais semelhante ao que hoje conhecemos como videoclipes: os filmes musicais e os video promo. Os filmes musicais você já deve conhecer. Enquanto o Brasil começava a viver uma ditadura militar que impunha conservadorismo a despeito de uma cultura libertária que começava a engatinhar, na Inglaterra, os Beatles lançam Hard Days Night (1964), talvez o mais conhecido trabalho nesse formato. Analisando atualmente, o filme apresenta semelhanças com o que conhecemos hoje dos videoclipes.

Os video promos não eram muito diferentes desse tipo de filme musical. Os próprios Beatles, o Elvis Presley e também o Queen utilizaram essa técnica com sucesso. Esses vídeos, que mostravam o artista interpretando a canção, foram criados como uma alternativa para esses músicos não precisarem se apresentar em programas de TV a cada vez que lançassem uma nova música e, assim, poderem se dedicar às turnês e outras formas de divulgação. Aquele vídeo clássico de Bohemian Rhapsody, do Queen, é considerado um video promo — mas muitos também o tomam como o primeiro videoclipe lançado, em 1975. O vídeo foi enviado para as emissoras, logo o formato acabou fazendo sucesso nas TVs— e inspirando outros nomes. Em 1979, o Blondie já estava produzindo seu primeiro álbum visual, o Eat To The Beat.

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No Brasil, a técnica dos video promos chegou quase simultaneamente, e influenciaria artistas como Ney Matogrosso (o América do Sul, 1975, é tido como o nosso primeiro videoclipe), Raul Seixas e Rita Lee.

3. Sound & vision: Sônia, Rita, Marina e outras precursoras do videoclipe brasileiro

É verdade que a Globo sempre foi um conglomerado com mais recursos e o que surge de inovador em relação à técnica e estética na TV brasileira vem de suas produções mais vanguardistas. O Fantástico é um exemplo. Filho da editoria de shows da emissora, o programa sempre teve uma parte de sua programação composta por música, muito por sua proposta de revista eletrônica que tentava aglomerar assuntos mais variados, de política à cultura.

O que alguns não sabem é que pertence a uma mulher o primeiro musical colorido, formato espécie de precursor do videoclipe na TV brasileira: o mérito é de Sônia Santos, com Boi Tempo. (Não achei essa versão no Youtube — c̶o̶m̶o̶ ̶é̶ ̶n̶e̶c̶e̶s̶s̶á̶r̶i̶o̶ ̶p̶r̶e̶s̶e̶r̶v̶a̶r̶ ̶a̶ ̶n̶o̶s̶s̶a̶ ̶m̶e̶m̶ó̶r̶i̶a̶ ̶a̶u̶d̶i̶o̶v̶i̶s̶u̶a̶l̶,̶ ̶n̶ã̶o̶ ̶é̶ ̶m̶e̶s̶m̶o̶?̶?̶ — mas não ia deixar a maravilhosa Sônia Santos passar despercebido por aqui. Segue um outro clipe dela para o Fantástico, de Speed, exibido em 1978)

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Apesar de terem uma cenografia bem produzida, esses vídeos não tinham variação no cenário, como dá pra perceber aí. Isso muda a partir dos anos 80, quando observamos mais cenas externas nesses videoclipes, que já compõem uma estética semelhante com aquela que começava a ser feita na MTV EUA de 1981 em diante. Mas eu falo disso daqui a pouco.

A diversidade musical marcava a produção desse formato. De Clara Nunes a Maysa, muitas compositoras e intérpretes ganhariam versões do Fantástico-infelizmente nem todas elas estão disponíveis no YouTube. Mas nesses anos 1970, acho que não tinha pra mais ninguém: Rita Lee, que já era uma performer marcante no palco, transpôs toda essa autenticidade para seus videos musicais. Registros como Caso Sério e Lança Perfume comprovam muito bem isso. E em 1980, ela já estava fazendo clipes em externas, descoladinhos, pra Debbie Harry nenhuma botar defeito. Olha só:

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Tem também esse participação dela num especial da Elis Regina na Manchete. Sério… coisa linda demais.

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Além de Rita, Elis, Gal, Sônia e outras mulheres, vale destacar também a Marina Lima, cantora que dominou a rádio e a TV nos anos 80 e soube se colocar muito bem nessas duas mídias.

A cantora flertava com o underground e com o que tinha de mais descolado por aí. Ela conseguiu se apropriar muito bem do videoclipe para se compor como artista presente nos mais variáveis formatos, com identidade marcante tanto na música quanto no visual e na performance—fora que suas produções pareciam sempre à frente do que era feito na época.

Inclusive, esse vanguardismo da Marina Lima com o videoclipe fez com que ela fosse a escolha perfeita para estrear a MTV no Brasil, quase dez anos depois, em outubro de 1990. O vídeo de Garota de Ipanema foi produzido pela própria MTV, numa tentativa de variar a programação de clipes internacionais com opções locais — vale considerar que muitos dos vídeos de artistas nacionais pertenciam à Rede Globo e ao seu Fantástico.

Dá até pra fazer uma evolução do videoclipe entre as décadas de 1980 e 1990 só com exemplos da Marina Lima, do Fantástico à MTV:

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E por falar em MTV, como não lembrar do clássico Segue o Seco, da Marisa Monte, campeão do primeiro troféu dedicado ao melhor videoclipe brasileiro, no VMB 1995?

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O termo videoclipe só começou a ser utilizado mesmo na década de 1980. Deriva de clipping, ou seja, “ recorte”, que possivelmente se refere à técnica midiática de recortar imagens e fazer colagens em forma de narrativa, dessa vez, em vídeo.

Menos de 30 anos depois, esse formato evoluiria sempre em diálogo com outras artes. O cinema influencia diretamente na narrativa e na edição. Inclusive, grandes cineastas tiveram destaque em suas carreiras com videoclipes, como Sofia Coppola (como Playground Love, do Air e I Just Don’t Know What To Do With Myself, do White Stripes, com participação da Kate Moss)e Spike Jonze (como It’s Oh So Quiet, da Björk; 100%, do Sonic Youth e Y Control, do Yeah Yeah Yeahs)

O futuro-presente do videoclipe

Eu lembro que lá no início dos anos 2010 — quando ainda existia MTV e não havia pandemia, ou seja, há anos luz — falava-se que o videoclipe estava fadado ao esquecimento. Parecia mesmo que esse tipo de mídia estava perdendo espaço, afinal, durante as últimas décadas do século XX, a MTV existiu como vitrine para o audiovisual na música, tornando o videoclipe algo realmente vantajoso para artistas e gravadoras; até que a própria “music television” resolveu deixar o “music” de lado e focar na (até) boa (mas também) velha televisão.

Parecia um caminho sem volta. Afinal, até a MTV trocou os videoclipes por programas de auditório em formato bem tradicional, como o Fica Comigo ou o Quizz MTVconfesso que ri quando o Thunderbird contou em sua autobiografia que a MTV virou um “SBT de piercing”.

Parecia que o videoclipe…

Enfim.

Com ou sem MTV, a verdade é que os videoclipes sobreviveram no YouTube, a despeito de qualquer teoria da conspiração que indicava que as pessoas não teriam mais “paciência” para assistir ao vídeo de uma música diante da tela do computador e de suas infinitas possibilidades.

Além disso, a sobrevivência do videoclipe parece morar justamente na possibilidade de ser um material audiovisual além-música e na elasticidade de seu formato, que agora não depende tanto de “se encaixar” na programação da TV. Basta pensar nos clipes da Lana Del Rey (que mais parecem curta-metragens indie do que necessariamente um videoclipe tradicional), ou até mesmo nos magníficos álbuns visuais da Beyoncé.

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Algumas artistas exploraram o videoclipe de maneira inovadora no século XXI: exemplos que vão de Ivete Sangalo a Björk, precursoras nos clipes rodados em 360º.

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Com a internet, o potencial do videoclipe se expande em tempo e forma — muitas possibilidades estéticas surgem, muitos formatos aparecem, todos eles disponíveis mundialmente no YouTube. Músicos por vezes dirigem, gravam, roteirizam e editam os próprios videoclipes com muita qualidade e equipamentos acessíveis, em contraste com grandes produções de artistas pop cujo orçamento se equipara ao de um filme mediano de Hollywood.

A pandemia de 2020 e a impossibilidade de se gravar em estúdio fez surgir novos formatos no audiovisual, com um toque charmoso de caseiro: é o caso do filme Host e o do clipe Phenom, do Thao e Get Down Stay Down, ambos criados a partir do Zoom.

Na esteira do mainstream, tem ainda o clipe da Marília Mendonça gravado em casa, que mostra a banda em uma divisão de telas semelhante a uma sala de videochamada. A necessidade é a mesma: manter o artista conectado com o seu público e com o contexto atual.

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O videoclipe, assim como a arte em si, é contemporâneo, ativo e mutante. Parece impossível pensar no mercado fonográfico sem esse formato, que permanece relevante justamente por sua capacidade de reinvenção e de se conectar com o o público. Dos cromaquis nos clipes oitentistas de Rita Lee ao uso do Facetime no vídeo recém-lançado de Nude, da Lia Clark, assistimos, impressionados, à rápida evolução do videoclipe. E ao que tudo indica, continuaremos ligados neste formato durante muito tempo (ainda bem).


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