← Back to list

Treze Minutos

Após desistir de tomar um táxi, Joe já havia se acomodado no banco do ônibus há uns trezes minutos mal percebidos. Distraído pela falsa…

Igor Baima · 2017-11-04 22:43 · 1 claps · 3.6 min read
#treze #taxi #cronicas #jantar #amante
Open on Medium ↗

Treze Minutos

Após desistir de tomar um táxi, Joe já havia se acomodado no banco do ônibus há uns trezes minutos mal percebidos. Distraído pela falsa ruiva simpática de pé à sua frente, não sabia mais o que fantasiar extasiado por aquela bunda perfeita. Fitava os ponteiros enferrujados do relógio; aqueles treze minutos se tornara um recorde pessoal. Entretanto seus olhos estavam no lugar certo.

“Ora. Há quanto tempo não te vejo, Joe?!” a voz arranhada de Angela voltara à sua cabeça e não apenas a voz, as coxas e o rosto apareceram como se fossem de casa. Enquanto arrastava a cadeira da mesa, ele respondeu “até parece que foi ontem” — algo que se diz a alguém cuja ausência não se nota e ele sabia disso, foi sua intenção, mas certamente não o que queria dizer.

— Meu deus, Joe. Você tá ótimo! — Dante o cumprimentou.

— Boa noite. Vocês já vão pedir? — perguntou um dos magrelos elegantemente vestidos.

— Ah… Ainda não… Que tal o prato do dia? — Dante perguntou aos dois.

— Sempre achei que o prato do dia foi criado pros indecisos. — Joe brincou — Eu quero um hambúrguer mal passado e uma porção de arroz branco, por favor.

O magrelo se retirou com maestria depois de anotar tudo. Um calor dissimulado começou a percorrer o pescoço de Joe ao ouvir as histórias de Dante sobre sua temporada viajando por todo o país a trabalho e que agora retornara com uma baita promoção na companhia financeira.

O botão cinza da gola de sua camisa não resistiu aos dedos desesperados de Joe, que também obrigaram o guardanapo de seu colo a enxugar as palmas das mãos várias e várias vezes. Angela parecia interessada o suficiente para fazer perguntas desinteressantes a Dante, quase gotejando dissimulação na taça de vinho.

Então os pratos chegaram no meio de uma social super divertida, onde Dante conheceu um cara legal e se tornaram amigos a distância. Mastigando o hambúrguer como um velho temendo um possível deslize da dentadura, ele sabia que tinha nas mãos — e boca — uma ferramenta potencial para aliviar sua frustração. “Eu realmente quero estar aqui?” se perguntava em silêncio, até que os pratos se foram.

— Mas e você, Joe? Como vão os negócios? — Dante queria saber.

Angela pediu licença para se retirar, mas não antes de alimentar a conversa com “sim, como vão? Soube que você foi contratado por um jornal famoso.”

— Por um jornal? — Dante estava confuso, mais do que era normalmente.

— Não é tão famoso. Me deram algumas linhas na sétima página, e uma merda de comissão. — o aroma da sopa de legumes da mesa ao lado o incomodava de forma boa.

— Mas isso é ótimo! Diga, é uma coluna de esportes ou… Negócios…

— Na verdade, eles querem que eu escreva poesia. Eles ignoraram meu certificado de entendedor de ping pong.

Dante sorri.

— E meus negócios vão bem. Acabamos de inaugurar duas novas filiais aqui na cidade.

— Bom pra você. Sabe, estou procurando um novo apartamento, já que Angela e eu estamos juntos de novo, e bem… Espero que você me faça um preço camarada nos móveis.

— Claro que sim. Você tem o desconto de amigos. — dois goles do vinho caro e um pouco de ar nos pulmões. — An… Vocês estão noivos ou algo do tipo?

— Ainda não, eu quero ir com calma, sabe…

— Eu sei… — a taça secou e inundou-se novamente.

— Haha. Olha, eu sei que você não gosta dela. Até entendo o porquê.

— Deve ser por conta do meu jeito crítico. — ele riu num tom amarelo sustenido.

Dante gargalha.

— Você devia estar na pagina de humor do jornal. — ele se inclina com os cotovelos sobre a mesa — Eu estou apaixonado, cara. Sei que já cometi esse erro com ela antes e pode até achar que sou um otário… Essas coisas…

Dante suspira.

— Quero dizer… Olha pra ela. — desvia o olhar para Angela conversando com o concierge na entrada — Ela é linda, inteligente e cheia de defeitos.

— É uma mulher… E é terrível por isso. — diz com os olhos postos no lugar certo.

— Uma mulher terrível, com certeza, que só precisa ser amada. É humana como nós.

Ela vinha desfilando por entre as mesas, dando vida ao tecido vermelho que abraçava delicadamente seu corpo, entortando vários olhares enquanto passava.

— Então… — Dante disse, ao puxar a cadeira para ela — Amanhã farei minha última viagem, quase como uma despedida da vida entre aeroportos. Até convidei a dama aqui para ir comigo, mas…

— Mas você sabe que ela gostaria muito de ir. — Angela retrucou.

Ela sorri.

— Você não vai? — Joe perguntou.

— Infelizmente, não. Tenho que resolver um ou outro assunto antes da mudança, mas ele consegue se divertir sem mim. — Ela mostra os dentes, não como quem come — E eu posso me divertir também.

Joe suspira.

Acabaram o jantar depois de alguns minutos de sorrisos gratuitos e insinuações românticas. Joe não se lembrava do valor da conta, pois perdera a discussão com Dante que implorou para paga-la. Na avenida movimentada, os três designavam suas preces aos taxis livres, os mais raros da noite.

— Esse é de vocês. — Joe fez sinal ao motorista.

— Tem certeza? — Dante perguntou.

Joe assentiu.

— Tudo bem. Vejo você quando voltar, meu velho. — Dante entrou pela porta de trás.

— Foi ótimo ver você. — disse Ângela, forçando um abraço e um sussurro — Vejo você amanhã.

O ônibus parou numa esquina qualquer. E Joe despediu-se silenciosamente da ruiva.


메타데이터
post_id
a249544bb643
slug
treze-minutos-a249544bb643
url
https://medium.com/@igorbaima/treze-minutos-a249544bb643
canonical_url
https://medium.com/@igorbaima/treze-minutos-a249544bb643
author_url
https://medium.com/@igorbaima
status
ok
fetched_at
2026-07-30 09:01:02