MARVEL COMICS #1: Namor, O Príncipe Submarino
História publicada em outubro de 1939. De Bill Everett (roteiro e arte).
MARVEL COMICS #1: Namor, O Príncipe Submarino
História publicada em outubro de 1939. De Bill Everett (roteiro e arte).
Este é o segundo comentário de uma série acerca dos principais super-heróis da Era de Ouro das histórias em quadrinhos da Marvel Comics (ou Timely Comics).
Em 1939, o artista Bill Everett produziu uma curta história em quadrinhos em preto e branco para ser incluída na revista “Motion Pictures Funnies Weekly”, a qual seria distribuída de graça às crianças que fossem aos cinemas nos Estados Unidos. Mas essa revista jamais saiu da gráfica, bem como não se tratava do título ideal para a primeira publicação da história de Everett.
Como se sabe, Martin Goodman, editor da Timely Comics Group, solicitou para Lloyd Jacquet, o chefe da "loja" produtora de gibis Funnies, Inc., a produção de um conteúdo completo de histórias em quadrinhos com um ou dois super-heróis. Entre os criadores que trabalhavam para Jacquet, estava Everett, um artista muito criativo com uma história pronta para ser publicada – ou quase, pois restavam algumas páginas e a colorização a serem feitas.
Foi dito algumas vezes que Everett teve a ideia para o seu personagem a partir de um seriado não produzido, o qual tratava Atlântida como uma civilização submersa, bem como do seriado intitulado Império Submarino, de 1936. No entanto, em entrevista para Roy Thomas, por volta dos anos 1970, o próprio Bill disse que sempre se interessou por qualquer assunto náutico e que era fascinado por qualquer coisa relacionada à Atlântida. Disse também que poderia ter continuado as lendárias expedições do Almirante Richard Byrd, americano especialista em explorações do início do século XX, a um dos polos se quisesse. Mas o que Bill realmente precisava fazer era ganhar a vida. Então, ele inventou uma história sobre um indivíduo meio-homem e meio-peixe da Antártida, e escreveu a palavra "roman" de trás para frente para batizá-lo. Porém, o quadrinista nunca chamou o continente submerso de sua história de "Atlântida" porque, para ele, Atlântida era outro mundo que, de fato, existia em algum lugar.
Assim, a estreia de Namor, O Príncipe Submarino deu-se na nova antologia e primeira revista em quadrinhos da Timely, "Marvel Comics" #1, de outubro de 1939.

Capa alternativa e não publicada de "Marvel Comics" (1939) #2, por Bill Everett.
(A arte da capa acima não corresponde à primeira edição de “Marvel Comics”. Trata-se de arte não publicada para a segunda edição da revista. Utilizada aqui para mostrar o talento de Bill Everett e porque o foco neste texto é o Namor.)
O curto conto em 12 páginas divide-se em três momentos, quais sejam: o violento encontro de Namor com marinheiros americanos; a revelação da origem do Príncipe Submarino e de seu propósito; e o início da cruzada de Namor contra o homem branco.

A descrição de Namor, O Príncipe Submarino! E a questão: qual é a missão dele? Desenho de Bill Everett. Cores de Wesley Wong.
Em comparação com a história anterior — “O Tocha Humana” de Carl Burgos — é possível apontar algumas diferenças que tornam “Namor, O Príncipe Submarino” de Bill Everett uma história mais distinta nesta antologia. De um ponto de vista técnico, a narrativa flui muito melhor porque os quadros estão melhor distribuídos nas páginas, assim como os balões e recordatórios estão dispostos de maneira que não se comprometem os desenhos. Além disso, percebe-se uma divisão mais clara dos atos do enredo, os quais são abordados com muita atenção aos detalhes, em texto e em arte, mesmo que para um número pequeno de páginas.
É evidente a proposta de Everett: lançar um personagem com um pano de fundo forte o suficiente que justificasse inúmeras aventuras a serem publicadas por muitas edições de quaisquer quais fossem as revistas. A premissa de seu Príncipe Submarino não era nada como o que comumente se fazia em outros gibis de super-heróis. A começar pelo fato de que Namor não era um super-herói, mas sim um anti-herói, o qual mergulhava profundamente numa violenta jornada em busca por justiça facilmente confundida com busca por vingança. Um personagem complexo, cercado por ambiguidades, diferente do inerentemente bom Tocha Humana, por exemplo.
A introdução dessa história se dá em alto-mar. Há este navio de salvamento e sua tripulação de mergulhadores exploradores das profundezas, composta por Rod Nelson, Carley, entre outros. Eles investigam uma embarcação naufragada, à procura de itens de valor, certamente. O que encontram, no entanto, é um cenário intrigante. Sinais de que há mais alguém com eles naquelas águas e entre aquelas estruturas. Um mistério, algo que alimenta em muito as melhores e as mais insanas histórias contadas por marinheiros. Um mistério que se mostrará aterrorizante. O que se destaca neste começo é o conhecimento de Everett sobre as estruturas, a mecânica e os termos que envolvem os trabalhos marítimos, garantindo seriedade e respaldo na realidade em sua arte e em seu texto antes de mergulhar de vez na terrível fantasia.
Armados apenas com um maçarico de acetileno e protegidos somente por seus escafandros, os mergulhadores transitam pelo escuro fundo do mar e pelo navio afundado, deparando-se com o inesperado. Um nadador, mas não só isso. Como descrito por Everett, Namor, O Príncipe Submarino é um superser com a força de mil homens, que vive na terra e no mar, além de voar no ar; um jovem de personalidade dinâmica, de pensamento rápido e ação ágil. Entre linhas tortuosas e bolinhas rabiscadas que definem a ambientação aquática, encara-se o inesperado em ambos os lados e as reações em casos como esse não são amigáveis. Apresenta-se um nível de violência que impressiona.
Sem nunca ter visto todos aqueles equipamentos dos mergulhadores antes, o Submarino sente-se ameaçado. Mais uma vez, teme-se o que não se conhece, naturalmente. No entanto, para um indivíduo de pensamento rápido e ação ágil, não há tempo para conhecer qualquer coisa. A fim de garantir a própria segurança, apenas com sua faca e com suas mãos, Namor corta as passagens de ar, os cabos de telefone e o duto de acetileno do maçarico, para desespero de Rod e Carley. Vulneráveis, a dupla não tem como se defender de punhaladas no peito e de esmagamento de capacete — e de cabeça. É nítida a crueldade prática do protagonista.
Um terceiro mergulhador, Anderson, desce ao fundo do mar e depara-se com a cena trágica e, ao retornar ao deque dizendo o que viu, o desespero instaura-se entre a tripulação. A âncora é levantada e o navio zarpa… Mas não rápido o suficiente para escapar das ações do Submarino, o qual dá uma demonstração inacreditável de força ao prender o leme e ao parar as pás de propulsão com as próprias mãos. Isso além de chocar o navio contra um recife, destruindo-o e eliminando toda a tripulação.
Mesmo que sua reação tenha por finalidade se proteger de potenciais ameaças, Namor mata com muita facilidade e indiscriminadamente. Embora não haja no texto uma repreensão explícita aos atos dele, a narração destaca a cena de horror. Como foi dito, o mistério assombroso é a tônica das histórias de marinheiros. Se existe um medo irracional acerca das coisas do fundo do mar, o Príncipe Submarino de Everett o racionaliza e justifica. Não há nada de super-heróico neste conto até então, mas a construção e a apresentação de uma instigante força submarina destrutiva. Resta conhecer sua origem e seu propósito.

Namor, o filho vingador, está pronto para o combate mortal contra os homens da superfície. Desenho de Bill Everett. Cores de Wesley Wong.
Diabolicamente satisfeito pelos assassinatos e destruição que causou, impulsionado por seus pés alados e levando consigo os corpos dos mergulhadores mortos, Namor nada até uma gruta reclusa nas grandes profundidades do oceano. Trata-se do reino submerso que Everett se recusava a chamar de Atlântida; portanto, é um lugar sem nome. Nota-se alguns detalhes deste novo ambiente. Há este grande salão com um trono, no qual está assentada uma criatura coroada chamada de Sagrado, uma espécie de rei ou imperador. Parece haver uma organização palaciana, realmente – pudera, Namor é um príncipe, afinal. São detalhes muito mais evidentes no texto que na arte. Enquanto que Everett empenha-se em detalhar os desenhos de objetos, de mecanismos e de cenários reais, não se observa o mesmo cuidado nos ambientes imaginativos, exceto pelas fisionomias dos indivíduos do fundo do mar, com olhos esbugalhados, barbatanas e tons de pele azul e verde piscina.
Os corpos mortos dos mergulhadores são oferecidos como prêmios para o Sagrado. Para Namor, seu feito não significou muito mais que uma bela demonstração de sua força. Porém, para a mãe dele, a linda deusa das marés Fen, aquilo marcou uma boa iniciação na guerra de vingança de seu povo contra o homem branco da superfície. Deve-se esclarecer os motivos dessa guerra para o próprio Príncipe Submarino, que os desconhece e não os compreende, pois o pai dele era um homem da superfície. Um bom homem entre uma gente cruel. Para isso, interrompe-se a história principal para a apresentação de um importante e bem contado retrospecto.
O ano era 1920 e o lugar era o polo sul. Sob o comando do Capitão Leonard Mckenzie, comandante do navio Oracle, uma expedição científica americana bombardeava o gelo sobre a cidade ancestral do povo submarino. Castelos foram destruídos e vidas foram tiradas; motivos o suficiente para uma retaliação organizada. Fen, de quem a aparência era próxima das fêmeas da raça humana, foi enviada como espiã para se infiltrar na tripulação e coletar informações, a fim de garantir o sucesso da investida submarina. Nisso, ela se envolveu e se casou com Mckenzie. E, desse amor, nasceu Namor. Por outro lado, o contra-ataque do exército submarino não foi bem-sucedido.
É curioso reparar o seguinte: documentadamente, a primeira expedição ao polo sul ocorreu entre os anos 1910 e 1912. Muito pouco se sabia sobre aquela região na primeira metade do século XX. O que se sabia era que as condições à vida humana no polo sul eram desfavoráveis por conta do frio extremo. Era o local ideal para o povo submarino viver e prosperar isoladamente, pois jamais seria incomodado pelas pessoas da superfície… Até o início das destrutivas expedições e das investigações científicas. Uma contextualização inteligente de Everett.
De volta ao presente ano de 1939, a raça submarina está preparada para se vingar dos danos brutais causados pelo homem da superfície. Isso por meio do envio do filho vingador de natureza híbrida, que pode viver na água e na terra, aos domínios do povo branco. Tomando conhecimento de sua origem, Namor também encontra o seu justo propósito (a depender do ponto de vista) na busca por vingança em um combate mortal. E o jovem Príncipe Submarino não tem tempo a perder.

Namor salta contra um guarda do farol para salvar Dorma. Desenho de Bill Everett. Cores de Wesley Wong.
Originalmente, o conto de Bill Everett, o qual seria publicado em “Motion Pictures Funnies Weekly”, terminava com o desenho de corpo inteiro de um Namor armado de um punhal e iluminado por um clarão fulgurante, prometendo partir em sua jornada de vingança contra o mundo da superfície. No entanto, o autor teve de estender a história para que ela fosse publicada em “Marvel Comics” #1. Então, ele adicionou quatro páginas de ação, as quais deram início à cruzada do Príncipe Submarino.
Nisso, apresenta-se uma nova personagem, a prima de Namor, a jovem Dorma. Uma garota deslumbrada e curiosa que também possui os pés alados, mas que parece ser incapaz de voar. Dorma parece ser muito como o Submarino, mas essas semelhanças não são exploradas aqui. Ela acompanha o seu primo a nado durante dois dias até chegarem ao primeiro sinal de civilização na superfície: o Farol do Cabo Anna.
Trata-se de um farol fictício, mas que, se infere, faz referência ao marco histórico Estação de Luz de Cape Ann, em Rockport, Massachusetts. Construída no ano de 1861, é a primeira estação dos Estados Unidos a marcar um perigo de navegação em vez de uma entrada do porto. Namor pode saber disso ou não, mas, em todo o caso, ele decide por demolir o farol para colocar os navios em perigo e aumentar as chances das embarcações afundarem. O Príncipe Submarino detalha sua ação em balões de preencher quase que quadros inteiros (o sujeito é falador) e pede o silêncio de Dorma para não comprometer o seu ataque.
A arte de Everett é bastante objetiva nessa parte, focando principalmente no impacto dos golpes de Namor contra maquinários, guardas e faroleiros. Evidenciam-se a força e a habilidade de voo do anti-herói, ao que ele arremessa a grandes distâncias e alcança no alto os homens da superfície. A agilidade do Príncipe Submarino é notável, bem como a falta de sutileza dele. A ação rápida, destrutiva e furtiva não passa despercebida, o que força uma saída abrupta da dupla do reino submerso. Dorma retorna para casa no fundo do mar, onde é seguro; enquanto que Namor mergulha no oceano, seguindo a trilha de novas aventuras em sua cruzada de vingança contra os homens brancos.
"Namor, O Príncipe Submarino" é a mais bem conduzida história em quadrinhos da antologia que é "Marvel Comics" #1. Isso tanto em técnica, o que envolve a arte e o texto, quanto em decisões narrativas de Bill Everett. Apresenta um controverso e brutal protagonista, de quem as ações terríveis e sinistras são mostradas em detalhes, sem serem defendidas pelo autor como corretas. Esclarecem-se o mundo submerso e a motivação vingativa de Namor com muito cuidado e muita ênfase. Lançou-se uma leitura profunda de ambiguidade moral para crianças do final da década de 1930, o que foi um ato ousado de Everett, demonstrando o respeito e o cuidado que ele tinha por sua história e por seu público leitor. Entre uma inconsistência e outra, este é um conto que se sobressai pela atenção ao realismo na abordagem das atividades marítimas e dos conceitos científicos, equilibrando-os com a fantasia das construções de um intrigante ambiente subaquático e de um anti-herói imprevisível. Não há como ler isso e não ansiar por saber como se darão os demais ataques de Namor ao mundo da superfície. O sucesso instantâneo e promissor de Bill Everett.
Até a próxima leitura aqui no Palanque do Marvete! Excelsior!
Ícaro Rodrigues
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