Se essa rua fosse minha.
A rua lateral do Colégio Estadual Jardim do Ipê é composta por 7 casas, duas na lateral esquerda, e cinco na lateral direita. Escondida no…
Se essa rua fosse minha.
A rua lateral do Colégio Estadual Jardim do Ipê é composta por 7 casas, duas na lateral esquerda, e cinco na lateral direita. Escondida no limite entre os bairros Jardim do Ipê e Vale do Ipê, não tem nenhum atrativo em especial. É mais uma ruela de periferia, onde o mato cresce em meio ao asfalto de péssima qualidade, com um ou dois vazamentos que fazem poças no meio da passagem. Olhando pro início, se vê a enorme cratera que surpreende os passantes em dias de enchente, uma ferida aberta onde todos passam por cima sem notar. Olhando pro outro lado, o lixo se acumula nas margens do rio de esgoto, que a cada dragagem, se aproxima mais e mais das casas da esquina.
A rua com nome de filósofo grego, não aparenta esconder reflexões profundas. Seus moradores são periféricos de todas as idades que parecem ter como único objetivo continuar vivendo, sem grandes passos, sem grandes ideações, apenas um dia após o outro, mas claro, existem exceções. As crianças que veem muito além da precariedade, enxergam lava nas poças, perigo nos buracos e ervas encantadas no mato alto. As pequenas mentes que sonham muito mais alto que uma rua desinteressante.
Mas talvez se tenha algo a se dizer sobre a rua Sócrates, como que os números das casas não seguem nenhuma ordem lógica, se vai do 22 ao 13 com um muro de distância. Ou como é cortada por um beco atrás da escola, na altura da casa 2, onde o tráfico de drogas esconde sua mercadoria no mesmo lugar em que os cavalos se alimentam.
Não é mesmo uma rua muito bonita, ou nem sempre é uma rua bonita. Entre agosto e setembro, por não mais que dez dias, a região faz jus ao seu nome e se colore de roxo, a cor do Ipê. A árvore da rua Sócrates fica dentro do colégio, é frondosa e se ergue muito além do telhado da escola, entretanto, durante a maior parte do ano, passa quase despercebida. Até que no fim do inverno, o Roxo vivo rouba a atenção de tudo que é ruim no chão. O contraste é absoluto, apenas erguendo os olhos a imagem de descuido e da precariedade é substituída pela vivacidade das flores, até os pássaros que constroem ninho no Ipê fazem festa para o fim do frio.

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