A peste: um horror humano
Texto de Michel Silva, professor, historiador e aspirante a psicanalista
A peste: um horror humano
Texto de Michel Silva, professor, historiador e aspirante a psicanalista

“A chegada da peste”, Frederick Simpson Coburn, 1909.
O objetivo desta resenha é uma Psicanálise Aplicada da pintura nomeada “A chegada da peste (1909)”, do artista canadense Frederick S. Coburn (1871–1960). Material este que faz parte integrante da Formação em Psicanálise.
O estilo de pintura de F. S. Coburn é geralmente classificada entre o realismo[1] e ao naturalismo[2], e se destaca por suas paisagens rurais, especialmente as cenas de inverno canadense com trenós puxados por cavalos. Ele capturava com precisão as texturas, as luzes e as sombras da neve, transmitindo o ambiente frio e tranquilo das paisagens. Sua paleta de cores privilegiava tons frios, como branco, azul e cinza. Embora influenciado pelo academicismo europeu, sua obra também reflete uma celebração da identidade cultural canadense.
O contexto histórico do pintor
Frederick S.Cobrun, nasceu em Melbourne, aos arredores de Quebec, no Canadá, ano de 1871. Muito novo já se interessava por arte e seus pais o enviara a Europa, para estudar nas melhores escolas. Coburn estudou em renomadas academias de arte europeias, o que moldou profundamente o seu estilo e técnica, uma influência marcante do Velho Mundo. Ele viajou por países como: Alemanha, Inglaterra, França, Bélgica e Holanda.
O referido quadro que é o motivo deste texto, “A chegada da peste” de Coburn, retrata o pânico em uma comunidade, em voltas com o início de uma praga. A crise psíquica que se instaura nas pessoas é imediata, buscando se recolher em seus aposentos, evitando ao máximo o contato com estranhos e esvaziando os estoques das casas farmacêuticas.
A inspiração para a pintura deste quadro, podemos perceber a influência das histórias das pestes que assolaram a Europa na Idade Média. A Peste negra (também conhecida como Peste Bubônica), que dizimou perto de 75 milhões de pessoas entre os anos de 1347 à 1351, causando uma das maiores baixas humanas na História.
No quadro, podemos observar as pessoas correndo, querendo fugir da figura alada esquelética, que simboliza a morte, em seu cavalo preto (não seria este quadro uma inspiração para os criadores do desenho animado “Caverna do Dragão”, o personagem ‘Vingador’, que era transmitido pela televisão na década de 80? Fica aqui esta pergunta.
O cavaleiro também simboliza um dos quatro cavaleiros do Apocalipse, último livro da Bíblia, os quais trazem consigo: destruição, fome e morte por onde quer que passem.
Essas narrativas apresentam a doença como um agente de destruição física e moral, que desestabiliza a sociedade. Coburn pode ter buscado traduzir essas ideias para a linguagem visual. Esta palavra “desestabilizar” é o que ocorre com as pessoas e com a sociedade num todo, quando estamos diante de um perigo real e imediato. Somos confrontados com a nossa fragilidade e somos colocados de frente com forças visíveis e invisíveis, que estão além do nosso controle.
Podemos também fazer uma correlação deste quadro com as guerras entre as nações. “A chegada da Praga” pode simbolizar o início de um conflito bélico, aonde os mais prejudicados são a população civil.
No texto que Freud escreve em resposta a Albert Einstein, intitulado “Por que a Guerra?”, do ano de 1932, o médico vienense argumenta que “Partindo de nossa mitológica teoria dos instintos, é fácil chegar a uma fórmula para os meios indiretos de combater a guerra. Se a disposição para a guerra é uma decorrência do instinto de destruição, então será natural recorrer, contra ela, ao antagonista desse instinto, a Eros. Tudo o que produz laços emocionais entre as pessoas tem efeito contrário à guerra. (…)Tudo o que promove a evolução cultural também trabalha contra a guerra.”
Sabemos que Sigmund Freud desenvolveu dois conceitos retirados da mitologia grega e os incorporou a Psicanálise. São eles “Eros e Thanatos”. Como no mito grego, Eros simboliza, na Psicanálise, a pulsão de vida, enquanto Thanatos, simboliza a pulsão de morte. Eros na mitologia é o deus do amor, do desejo e da atração sexual. Thanatos é a personificação da morte, retratado como uma figura sombria que levava as almas dos mortos.
Freud identificou nesta mitologia e adaptando para a Psicanálise, duas forças antagônicas que brigam dentro de cada psique no inconsciente. Eros, uma força que nos impulsiona ao prazer, amor e preservação e Thanatos, uma força que nos leva para a autodestruição, à agressividade. Um retorno ao estado inorgânico.
Contextualizando para a teoria psicanalítica, estas são as duas pulsões que travam uma batalha na vida psíquica do sujeito, no qual, somente uma sairá vencedora. E você, irá dar voz para Eros ou Thanatos?
**[1] **O Realismo foi um movimento artístico que surgiu na França na década de 1840, por volta da Revolução de 1848. Os realistas rejeitaram o romantismo, que dominou a literatura e a arte francesas desde o início do século XIX. O movimento visava focar em assuntos e eventos não idealizados que antes eram rejeitados na obra de arte. As obras realistas retratavam pessoas de todas as classes sociais em situações que surgem na vida cotidiana e muitas vezes refletiam as mudanças trazidas pelas Revoluções Industrial e Comercial.
**[2]** O Naturalismo foi um movimento cultural relacionada principalmente com as artes plásticas, a literatura e o teatro, esta corrente artística era conhecida por ser uma variação radical e uma extensão do Realismo e prevaleceu em toda a Europa na segunda metade do século XIX. Sua característica mais marcante é a representação de objetos realistas numa cena natural. Baseava-se na observação fiel da realidade e na experiência apreendida ao longo do tempo transmitindo ao espectador a verdadeira situação do que está a ser representado, mostrando que o indivíduo era condicionado às suas características biológicas é determinado pelo ambiente que o rodeia.
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