Temporada final de Succession banha súditos com sangue do rei morto
Série da HBO derruba o império Roy em tragicomédia shakespeariana
Temporada final de Succession banha súditos com sangue do rei morto

No último episódio, os irmãos enxergam Logan por outros olhos, vendo-o cantar e se divertir ao lado dos mais próximos em um vídeo caseiro, provando que conheciam e conviviam com seu lado magnata e não paterno (Foto: HBO)
Vitor Evangelista
Não faltam palavras ou eufemismos para descrever Logan Roy (Brian Cox) no dia de seu funeral. A maioria deles, entretanto, não seriam ditos na presença do manda-chuva quando ainda era vivo, seja por medo ou receio de aparentar fraqueza. Um pequeno acidente no avião foi o bastante para destronar o rei supremo, abrindo espaço para que, ao longo da semana seguinte à parada cardíaca, os súditos fiéis da Waystar Royco corressem como loucos na tentativa de não apenas tomar o espaço vago deixado pelo homem, mas fazê-lo à partir de uma posição de irreverência e segurança.
É claro que nada saiu como o planejado. Afinal, Logan escolheu a pior semana possível para bater as botas. No dia da tragédia, Connor e Willa se uniam em matrimônio. No dia seguinte, uma votação do conselho determinaria o futuro da empresa, visada pela companhia de um asqueroso Lukas Matsson (Alexander Skarsgård). Pouco depois, a Waystar promoveria o evento anual que recebe os investidores e, ainda, os Estados Unidos decidiriam o futuro da nação em uma disputa eleitoral de extremos.
Faltou espaço na agenda dos ricos e bilionários para respiro ou descanso, como bem aponta Tom Wambsgans (Matthew Macfadyen), atrasado para o funeral após o escândalo que transformou a ATN em ninho de ratos em apuros. Fato é que os irmãos Roy e os mais chegados da família viveram o inferno na Terra, em constante estado de provação e privação, ao passo em que a criação de Jesse Armstrong cavava as brechas para extrair deles o ouro dramático.

Na divulgação do ano final, a equipe de marketing escondeu o avião no pôster e fotografou o topo do prédio como a proa de um iate, local onde os filhos recebem a notícia da morte de Logan (Foto: HBO)
Para Shiv (Sarah Snook), a temporada final começa no ultimato do casamento com Tom, para depois despejar sobre ela a descoberta de uma gravidez e colocar em cheque sua posição como sucessora e como mulher de negócios, subjugada por não participar do Clube de Bolinha e agora, pior ainda, carregar visivelmente no corpo a marca maior do que eles consideram sua maior fraqueza. Tudo termina, porém, na amarga nota cíclica de que, depois de anos, ela passa de filha do chefe, para irmã dele e, então, esposa.
Roman (Kieran Culkin) recebe uma suculenta parcela dos holofotes e, na ausência de Logan, assume a persona carnívora e inescrupulosa do pai, adotando até o cavanhaque do velho no funeral, quando, responsável por entregar a eulogia familiar, ele se despedaça frente à igreja enlutada e aos irmãos, famintos por uma fresta de vulnerabilidade e fraqueza um do outro. Kendall (Jeremy Strong) assume a posição de piloto na situação, renovando o diabólico contrato com a América do 1% e provando, de maneira definitiva, que Succession sempre foi a história deste problemático (e nunca vitorioso) Number One Boy.
Ele discursa sobre a acidez e a dureza de Logan, injetando no improviso funerário a dose letal de autoconfiança e um resquício de euforia. Já que, enfim, o rei está prestes a ser trancado no jazigo mais luxuoso do país — pelo qual pagou cinco milhões e os filhos salivam pela possibilidade de compartilhar a vizinhança -, chegou a vez do amanhã e de Kendall sugar para si todo o terror e a má influência que passou anos tentando exorcizar. Fato curioso sobre o nono capítulo, *Church and State, é a constante tentativa dos irmãos em canonizar e canalizar o pai: Ken veste como luva a aparente postura de matador, Shiv emula um ‘silêncio’ que reverbera o salão e Rome imita o físico goatee *característico de Logan.

Digna de menção na categoria de Atriz Coadjuvante em Drama, a performance de Justine Lupe como Willa pode passar despercebida, mas merece destaque especial na temporada final, confessando a Connor o estado da relação dos dois e devolvendo o veneno de Marcia (Foto: HBO)
Nada surte efeito, porém. O caos está instaurado desde que na estreia, os filhos se voltaram contra o pai, na guerra de preços com Nan Pierce (Cherry Jones). O clima piorou na noite do karaokê, demonstrando todo o arrependimento que Logan carrega no peito e como ele enxerga, em frações de borrão e falta de nitidez, as pessoas que ele ama, mas tem ciência de que não são “sérias”. Cox despeja sutileza e amargura no discurso final, banhado pela luz néon do estabelecimento, mas é um pouco antes, quando divide uma refeição com o faz-tudo Colin (Scott Nicholson), que o ator escocês se despede do papel em clima de contrariedade e comoção.
Os bilhões na conta e as inúmeras guerras que começou e acabou não preencheram com sucesso imaculado a vida de Logan. Brian Cox pintou uma miscelânea de emoções desde o piloto em 2018, quando deu um susto na família e cogitou a ideia de encontrar a pessoa certa para sucedê-lo no reinado de horror e cifrões. Entre as explosões raivosas e a sátira amarga que destilou em momentos decisivos (a busca pelo traidor, o sorriso vendo o discurso de Ken no navio, a crise no meio do deserto e, por fim, o último cara a cara com os filhos), Logan foi interpretado com muita potência e poucas oportunidades de baixa adrenalina.
Para sua carta de adeus, Cox abaixa o tom, quando Logan confessa ao funcionário fiel que ele é seu único, e último, amigo. A ternura em um restaurante qualquer, com um homem qualquer, nunca foi direcionada aos quatro filhos que ele trouxe ao mundo, mas não se certificou de preparar para os desafios e os ‘nãos’ da vida. Com Caroline (Harriet Walter) e Marcia (Hiam Abbass), Logan usou a distância, ainda molhada nas gotas do carinho. Com Con, Ken, Shiv e Rome, o pai servia apenas o que lhe era oportuno, brincando com a cabeça e o coração de cada prole, jogando a isca e, à primeira mordida, içando a linha, sem minhoca ou recompensa.

O ótimo Peter Friedman, junto da já elogiada Justine Lupe, faz jogo duplo em 2023, trabalhando com demasiada qualidade nas temporadas finais de Succession e The Marvelous Mrs. Maisel (Foto: HBO)
O legado do magnata se resume a um trio de crianções indefesos e intocáveis, mimados e brigões. E, pior ainda, um filho mais velho esquecido, que brinca de poder com a mesma garra que briga com o futuro presidente, em busca de um país para supervisionar, checando com a esposa o local ideal para passarem os anos infelizes que virão. Connor (Alan Ruck) ganha mais tempo de tela no capítulo que ganha seu nome, Connor’s Wedding, momento de virada para a série.
No terceiro domingo do que seriam os dez de exibição da quarta temporada, o roteiro de Armstrong e a direção de Mark Mylod esconderam uma morte em um casamento. A celebração da nova vida se tornou invólucro do fim de outra. Antes da marca dos quinze minutos, Tom telefona para os irmãos e dá a meia-notícia. Logan caiu no banheiro e está recebendo massagem cardíaca. O velho não aparece colapsado ou recebe uma tomada final, mandando uma mensagem do além. Quando a câmera vai a seu encontro, Mylod o faz sem cerimônias, capturando o corpo inerte no chão da aeronave, abarrotado de gente ao redor, buscando colocar ar de volta aos pulmões de aço.
O medo dos irmãos é o mesmo de quem assiste. O susto pela notícia, o luto repentino sem chance de repensar ou processar tudo que acabou e, mais ainda, o que está por vir. Quando mata Logan sem mais nem menos no começo da temporada de encerramento, Succession muda o jogo e arremessa o manual pela janela. Uma série de TV com esse calibre e o pedigree marca seu nome nos anais da História dramatúrgica, demonstrando total controle e precisão na hora de contar a história que se propõe da maneira mais efetiva e duradoura possível.

A melancolia toma conta da série quando Connor confessa que, depois de uma vida sem amor da família, ele aprendeu a ser autossuficiente (Foto: HBO)
Brian Cox faz falta nas sete semanas que sua ausência é mais ouvida do que sua presença jamais foi. Quando rasga a garganta real, Armstrong usa do sangue divino para expurgar cada um de seus peões. O efeito imediato é sentido em Kendall, Roman e Shiv, besuntados no líquido vermelho sem saber da cor de morte que lambe suas peles. Porém, a magnitude da série também empapa seus súditos adjacentes, mostrando o efeito de não ter Logan presente no cotidiano de Frank, Karl, Hugo (Fisher Stevens), Gerri, Karolina (Dagmara Dominczyk), Kerry, Greg e até o talvez futuro presidente Jerryd Mencken (Justin Kirk).
Se ainda estivesse vivo, Logan Roy assombraria seus próximos com promessas e ações já conhecidas de seu arsenal. Trapaça, chantagem, manipulação emocional, agressão moral e medo de sua desaprovação. Morto, o personagem de Cox gruda nas paredes e no teto dos carros, gotejando sem pressa a promessa de um futuro nebuloso e nunca antes desbravado. Matá-lo foi a chance de cumprir a promessa de nascença do seriado, e, no percurso, posicionar a trama frente a todas as piores experiências possíveis: uma gravidez, um casamento, um dia de investidores, uma eleição presidencial, a decisão do comando da empresa e uma última traição, tudo isso sem o rei eterno e com a ameaça sueca respirando com força e impaciência no pescoço.
Metamórfico em cena, Matsson é construído como o estrangeiro à mercê de um ambiente inerentemente americano. Suas rápidas investidas e golpes verbais são armadilhas para os inseguros como Greg, mas trampolim para os ouvidos atentos de Shiv. Escanteada dos CE-Bros, a irmã desenha um alvo nas costas, mas não sem antes assegurar uma posição de controle no mundo ideal que o europeu esquisitão poderá chamar de seu. Armstrong alimenta Skarsgård com suficiente material em implosão, causando angústia nos silêncios e nos olhares discretos em salas lotadas.

O sobrenome de Tom, embora incomum, pode ter tirado inspiração em Bill Wambsgans, figura histórica conhecida por vencer três adversários de uma só vez no baseball (Foto: HBO)
E dissecar os pormenores de uma produção grandiosa como Succession é trabalho hercúleo e ineficiente, já que boa parte de sua finesse reside justamente no campo do não-dito. Constantemente relatado em entrevistas, materiais extras e em próprias linhas de diálogo, a criação de Jesse Armstrong é um mundo de coisas e fatos, focando no hoje e no agora. Por isso, cobrar explicações do passado de Logan, como no vislumbre de suas costas marcadas por cicatrizes escarlates, ou na fala de Ewan (James Cromwell) que resgata a memória da irmã menor falecida, é um esforço inválido.
Shiv resume bem a relação do pai com as mulheres de sua vida, ressaltando a dificuldade em lidar com qualquer figura feminina. Se o motivo é rastreado na culpa pela perda da irmã, ou na constante e evolutiva vida amorosa que reúne as viúvas e amantes na primeira fileira do funeral, não cabe à série colocar na lousa e riscar sem pudor. A sequência que reúne Caroline, Marcia, Kerry (Zoe Winters) e Sally-Anne, vale notar, é a melhor e mais surpreendente de todos os trinta e nove episódios de Succession.
Primeiro, pelo fator surpresa. Pela maneira como Marcia tratou Kerry dias atrás (“vamos chamar um táxi para levá-la ao metrô e ao seu pequeno apartamento”), a série implica uma espécie de reação da esposa a amante; porém, como define a mãe dos filhos de Logan, tudo já passou, e Succession, amparada no texto brilhante de seu criador, se diverte com a frieza e o alento que as quatro unidas em luto expressam, ao lado do caixão. “Pelo menos ele não vai ranger os dentes essa noite”, comunica Marcia, para o que as três confidentes sorriem. As esposas falam, as amantes concordam e assentem, sem relação de poder, sem subjugo, capturando a essência mundana de uma pessoa, seja ela quem for.

Sally-Anne, a “Kerry” de Caroline, foi interpretada por Nicole Ansari-Cox, esposa de Brian Cox na vida real (Foto: HBO)
Para a série nascida da sátira desse mundo de riquezas extravagantes, Succession chega ao pico do penhasco depenando suas alegorias morais na tela, mudando personagens de lados ideológicos, criando momentos de tensão e temor frente ao medo da morte e a força do luto. Shiv cai nas lágrimas quando tem o telefone alocado na orelha do pai, implorando para que ele não parta nesse momento. Episódios depois, ela esbraveja com Tom, acusando-o de roubar o pai dela, visto a Guerra Fria instaurada no fim da temporada anterior.
Tom não se aguenta e rebate as piores virtudes de Siobhan. Ela matou o pai, ela não serve para ser mãe. Em Tailgate Party, a discussão na varanda de uma casa preenchida por vespas famintas por dinheiro é o impulso que rebate a onda de bom humor que o casal vivia. A desarmonia bate à porta, combinando com a performance da dupla, em caldo de marra, má vontade e uma inexplicável necessidade de incendiar o ambiente. Os nervos ultrapassam a barreira da pele e se expelem para cada canto do cenário. E o fim da série, com o frágil enlace de mãos, aponta para um futuro onde a batalha do episódio 7 se repete sem parar.
As relações de poder se reiniciam a cada nova guinada do motor que se tornou a família e a empresa. Gerri (J-Smith Cameron) é jogada a todo canto, até que firma na terra sua decisão, com tremor no lábio e muita convicção. Frank (Peter Friedman) e Karl (David Rasche) lampejam o humor que deixou o ambiente e a inserção de figuras como esse trio, capitaneado numa espécie de coro grego de más notícias e chafurda, faz valer a necessidade de uma nova categorização nas premiações, reconhecendo esses papéis menores que os coadjuvantes — em tempo e escala, mas nunca em entrega -, mas que, em sua ausência, Succession não seria metade do que é.

No primeiro e inesperado discurso do funeral, Ewan dita a trajetória do irmão, mas não sem antes reiterar sua persona ácida e cruel, fazendo valer a voz da única pessoa viva que conheceu Logan desde a infância e dos traumas nascidos lá (Foto: HBO)
Falando de premiações, o Emmy 2023 é a primeira parada de Succession, que tem quebrado recordes de audiência na TV e no streaming, além de gerar um movimento monstruoso nas redes sociais. O material entregue por Armstrong no ano final posiciona a série como favorita aos prêmios de Série de Drama (pela terceira vez), Atriz para Sarah Snook, Ator Coadjuvante (Matthew Macfadyen vai gritar “bi”), além de Roteiro (o quarto seguido para Armstrong, que pode vencer pelo casamento) e Direção (para que Mylod finalmente leve para casa depois de perder a estatueta duas vezes).
Além disso, as disputas de Convidados, sempre um bocado nebulosas, podem favorecer dois jogadores pelo mesmo episódio. O discurso de Cromwell no funeral do irmão e a postura à la Cruella de Vil de Harriet Walter nas trocas com os filhos e as ex-mulheres de Logan imediatamente gritam por reconhecimento da Academia. As dúvidas são duas: em Ator, a HBO posiciona Cox, Culkin e o vencedor de 2020, Strong. É claro que a divisão de votos pode acontecer (como em 2022, e a derrota de Ken e Logan para Round 6), mas a entrega de Rome coloca o personagem num degrau acima dos familiares.

As indicações do Emmy 2023 serão reveladas em 12 de julho, e a cerimônia acontece em 18 de setembro, dia em que saberemos se a estratégia de Succession na disputa de Melhor Ator foi bem sucedida (Foto: HBO)
Kieran Culkin passou quatro anos se embriagando de ganância e sujeira para que seu Romulus (xará do primeiro imperador romano) fosse nada mais que um crápula, insatisfeito com o ambiente que habita mas preguiçoso o bastante para permanecer imóvel, cultivando uma doentia relação com Gerri e uma sensação de servidão para com o pai. Na quarta temporada, a balela do pré-luto vai por água abaixo no palanque da igreja, quando Culkin diminui de tamanho e agarra o que não existe em busca de um norte. O ator escancara o talento em modulações de raiva, pressão e um falso senso de soberania, o que, junto da arqueada final de sobrancelhas, pode desempatar a disputa e colocar o caçula no palco em setembro.
Em Melhor Atriz Coadjuvante em Série de Drama, outra cria da HBO é favorita: Jennifer Coolidge e sua investida cômica e trágica na segunda temporada de The White Lotus, papel que lhe rendeu um prêmio em Minissérie ano passado, além do Globo de Ouro e do SAG esse ano. Porém, com a avalanche de Succession e a hipotética dominação em todas as frentes, os votantes podem se sentir compelidos a sublinhar — e não riscar! — o nome de J-Smith Cameron e reconhecer a performance cautelosa de Gerri, sagrando-a vencedora e colocando a série no clube seleto de Angels in America, *Schitt’s Creek e The Crown*, as únicas concorrentes a limparem seus respectivos campos, vencendo os sete prêmios principais na mesma noite.

A HBO foi cruel aos domingos, às dez da noite tinha terremoto em Succession e uma hora depois era a vez da também temporada final de Barry: uma noite tranquila! (Foto: HBO)
Quando as placas tectônicas de anos de desilusão e disputas infantis se mexem para lá e para cá, causando fricção em qualquer parceria que o trio principal cultivou desde a traição que sofreram no casamento da mãe, a série brinca com a fala de cada um. Sempre escondendo o jogo, camuflando metáforas e alegorias por cima de problemas reais e um turbilhão de notas verdinhas, Jesse Armstrong dilui o texto entre um time de profissionais interessados nos calos mais doloridos dos Roy.
As melhores parcelas de dramaturgia, todavia, nascem da caneta do próprio criador, chamando para si a tarefa de dedilhar os momentos e retratos instantâneos de maremotos e mudanças de Kendall, Shiv e Roman, como no capítulo 3, e na trinca final, que arremata Succession do prestígio dominical da HBO para a estratosfera da arte, prostrada ao lado de *Família Soprano, Six Feet Under e Better Call Saul*, entre tantos hinos entoados por sua superfície polida e fôlego para verter nas feridas a gota de sangue que distingue o casual do extraordinário.
E a graça de acompanhar seres vis nasce justamente da precisão do texto. Na series finale, Armstrong bloca a história em duas fases: primeiro, acompanhamos a reconciliação do trio na casa de veraneio da mãe, a briga por Shiv apoiar Matsson até a descoberta da traição por Greg e a retomada dos irmãos como um “bloco”. Nisso, eles mergulham no mar, se divertem e até voltam a ser crianças na cozinha de Caroline. Sem os costumeiros ternos cinzas e marrons, os atores, na última cena que gravaram para Succession, misturam o que de pior tem na geladeira (incluindo o queijo do Peter) para batizar seu rei e coroá-lo.

Armstrong busca o título dos episódios finais de Succession no poema Dream Song 29, de John Berryman: Nobody is Ever Missing, This is Not for Tears, All the Bells Say e With Open Eyes (Foto: HBO)
Logan está descansado no jazigo e só então os filhos sentem que o jogo ainda está longe do apito final. Eles permitem uma diversão conclusiva diante da votação no dia seguinte e, para isso, fecham o acordo em apoiar Kendall, o “menino mais velho” e soberano por direito desde que a coroa e o cetro foram-lhe prometidos aos sete anos de idade. Logan amaldiçoa a criança desde a infância até a infelicidade da vida adulta, acabando com qualquer chance de normalidade ou felicidade.
Armstrong captura esse sentimento quando,a na segunda fase do capítulo, inverte a narrativa e mostra a aliança de Tom com Matsson e a traição final do genro Roy, o único membro da família que não carrega o sobrenome, e sim o prestígio e a sombra do poder. Nada mais justo que, na hora decisiva, Shiv (que em inglês é um termo que se traduz para uma faca ou objeto improvisado que apunhala) vote em negativa e impeça Kendall de ascender ao trono.
Jeremy Strong grita, faz birra e aperta os olhos de Roman, em apavoro e negação. Sarah Snook gargalha quando ouve o argumento da genealogia e não esconde o jogo pelo motivo que escolheu este futuro: Ken não pode ser o diretor pois ele é um assassino, espelhando a fala de Logan que acabou com a vida do filho anos atrás, quando decretou sua fraqueza por ele não ser o matador que deveria. Kendall Logan Roy, iniciais K.L.R., killer. O sujeito fadado a nunca chegar lá, infértil na vida e na alma, o Garoto Número Um incapaz de suceder ao posto.

Kendall quer ser Logan e, por breve momentos, se transforma nele, senta-se na cadeira e agride Roman, transmitindo o amor e a proteção da única maneira que lhe foi ensinado (Foto: HBO)
As ações desconjuntadas, reações explosivas e saliva engolida frente ao desacato e desconforto geram interpretações múltiplas do que cada criação de Jesse Armstrong esconde por baixo do terno bem alinhado. O primo Greg, que começa sua jornada com cheiro de vômito na roupa do parque de diversões, ascende à posição de comunicar quem será o presidente em American Decides, demonstrando o lento e latente escalonamento da produção, além de destacar como um sobrenome certo pode mudar o destino de um indivíduo à deriva. A performance de Nicholas Braun, ao longo dos anos de exibição, não foge do óbvio experienciado pelo outsider, apenas se alinhando com veemência à de Macfadyen e sua constante posição de serventia com o único Roy que Tom pode montar e, no fim, castrar e se casar.
O Nicholas que explode o teto a cada nova movimentação em cena é Britell, compositor da trilha de abertura e de todos os acompanhamentos musicais que engrandecem desde a mínima ação, de um corte-chicote ou zoom da câmera, até algo exponencial, como a relação sempre envolvente e instigante de Kendall com a água. O irmão mais velho agarra o peso do mundo para si e, na tentativa de matar ou se tornar Logan, ele opta pela única opção viável no cenário desiludido, com uma ex-esposa em fuga com os filhos negligenciados e uma assistente que não atura as inclinações ideológicas do chefe. Nessas interações, a série valoriza as estrelas de Rava (Natalie Gold) e Jess (Juliana Canfield), além da atuação polêmica de Jeremy Strong.

Shiv, que nunca gostou de reprovar nas provas, escolhe a saída que a beneficia, entrando no ciclo sem fim da infelicidade e finalizando sua jornada em Succession como começou: a metros do prêmio, mas incapacitada de agarrá-lo (Foto: HBO)
Depois de quatro temporadas cozinhando a briga familiar, a série enfim cede à pressão da válvula e deixa escapar para o mundo real o caos que tomava conta do interior. Ao fim do funeral, Roman sai às ruas, lotadas de manifestantes polvorosos. Depois de falhar na tarefa que treinou a vida toda para ser perfeito, o filho mais novo nao tem o pai para puni-lo ou atacá-lo, e busca na selvageria dos 99% o comando que se habituou a normalizar, sendo pisado e cuspido pelos pobres que tanto ironizou na sala de comando de America Decides.
A conta chega tarde demais. O sangue de Logan é interpretado como elixir de vida eterna, marca da maldição genealógica e veneno que salpica lentamente pelos ramos paternais. No fim, Succession ajoelha todos os súditos do monarca que partiu, dando a eles segundos de prazer e anos de dor, mas com um pensamento em comum acordo: que o líquido vermelho que bombeava ganância, poder e riqueza nas veias do pai, sirva como benção e transmita aos filhos, funcionários e servos, as virtudes desregradas do criador.
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