O espetáculo da disfuncionalidade
A normalização do absurdo
O espetáculo da disfuncionalidade

“A televisão matou a janela.” – Nelson Rodrigues
Se a televisão “matou a janela”, o que as redes sociais estão matando hoje?
A pergunta pode parecer exagerada, mas basta alguns minutos navegando por qualquer plataforma para perceber uma mudança cultural silenciosa. Não estamos apenas consumindo entretenimento, estamos consumindo comportamentos cada vez mais extremos.
Durante muito tempo, a internet premiava quem era talentoso, criativo ou informativo. Hoje, muitas vezes, ela premia quem consegue transformar situações absurdas em espetáculo.
Não importa se o episódio é engraçado, constrangedor ou até moralmente questionável. O que importa é que ele gere comentários, compartilhamentos e reações. O algoritmo não distingue admiração de indignação. Ambos produzem engajamento.
Por isso, não é raro vermos influenciadores envolvidos em situações que parecem desafiar o senso comum. Um peixe que desaparece pelo ralo durante uma troca de água. Brincadeiras que utilizam pessoas vulneráveis como objeto de humor. Conteúdos que transformam questões sérias de saúde e imagem corporal em piadas recorrentes.
O problema não está apenas em quem produz esse conteúdo, mas no sistema que o incentiva. As redes sociais criaram um cenário em que o absurdo encontra conforto, pois tudo aquilo que provoca choque, indignação ou curiosidade tende a ser recompensado com visibilidade e engajamento.
A espetacularização do ridículo acontece quando o absurdo deixa de ser uma exceção e passa a ser um produto. Quando situações que deveriam causar reflexão são convertidas em entretenimento instantâneo. Quando a humilhação, a irresponsabilidade ou a disfuncionalidade deixam de ser vistas como problemas e passam a ser vistas como oportunidades de audiência.
Talvez a questão mais preocupante seja que, com o tempo, a repetição normaliza aquilo que antes causava estranhamento. Quanto mais vemos determinados comportamentos, menos eles parecem inadequados.
A consequência não é apenas cultural. É também pessoal. Aos poucos, passamos a enxergar o mundo através de uma lente em que tudo precisa ser exagerado para merecer atenção. Bem-vindo à internet, onde o ridículo ganha status e o absurdo recebe aplausos.
O impacto é ainda maior entre crianças e jovens, que crescem expostos a esse ambiente. Quando determinados comportamentos são constantemente recompensados com visibilidade, dinheiro e admiração, o absurdo corre o risco de deixar de ser visto como exceção e passar a ser percebido como algo normal, desejável ou até necessário para ser notado.
E quando uma sociedade começa a transformar o ridículo em espetáculo constante, vale perguntar: estamos apenas assistindo ou estamos aprendendo a agir da mesma forma?
메타데이터
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