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Diálogos Internos Não Publicados I: o Demônio de Laplace e Macus Bruzzo

Existem poucas coisas mais fúteis do que discutir com as pessoas na internet. Na vasta maioria das vezes, é um completo desperdício de…

Natri (Fabio Natrieli) in MIND o>er matter · 2025-04-16 16:56 · 0 claps · 5.4 min read
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Diálogos Internos Não Publicados I: o Demônio de Laplace e Macus Bruzzo

Existem poucas coisas mais fúteis do que discutir com as pessoas na internet. Na vasta maioria das vezes, é um completo desperdício de tempo.

Mas, eventualmente, encontramos a exceção que confirma a regra. No meu caso, quando encontro filósofos que, embora tenham pontos de vista discordantes dos meus — e eu, dos deles — , sabem entereter-se com as ideias uns dos outros de forma elegante e respeitosa.

Estou escrevendo isso porque eu gosto muito do que o Marcus Bruzzo posta, a sua incrível capacidade de fazer sínteses em um minuto de conceitos complexos, que é uma arte em si, e mais do que isso, a forma como ele não leva críticas às ideias que posta como ofensa pessoal, além de sempre trazer perspectivas interessantes sobre os mais variados temas.

Ainda assim, eu não me sinto confortável em ficar lá em seu perfil postando réplicas e tréplicas publicamente porque não desejo ser demasiado inconveniente.

Contudo, ao mesmo tempo, o simples fato de interagir com ele — e outros — às vezes me suscita ideias que queria registrar pelo trabalho intelectual que me causou para evitar que, uma vez pensadas, simplesmente se percam apenas em meu interior.

Então, este vamos ao caso específico: o Marcus Bruzzo fez um post muito interessante sobre o "demônio de Laplace", um experimento mental proposto por Pierre-Simon Laplace em 1814, que ilustra a ideia do determinismo causal.

Laplace imaginou uma inteligência hipotética que, conhecendo todas as forças da natureza e as posições de todas as partículas do universo em um dado instante, poderia prever com precisão absoluta tanto o passado quanto o futuro. Para essa inteligência, nada seria incerto; o futuro, assim como o passado, estaria presente diante de seus olhos. ​

Essa concepção reflete a visão de um universo completamente determinista, onde tudo o que acontece é consequência direta de estados anteriores, e o livre-arbítrio seria apenas uma ilusão.​

No entanto, desenvolvimentos posteriores na física e na matemática desafiaram essa visão. A mecânica quântica introduziu o conceito de indeterminismo, sugerindo que certos eventos não podem ser previstos com certeza, mesmo com informações completas sobre o sistema. Além disso, a teoria do caos mostrou que sistemas deterministas podem exibir comportamentos imprevisíveis devido à sensibilidade às condições iniciais. Essas descobertas indicam que, mesmo que o universo seja regido por leis deterministas, a complexidade e a natureza probabilística de certos fenômenos limitam nossa capacidade de previsão. ​

Portanto, o “Demônio de Laplace” permanece como uma poderosa metáfora para discutir os limites do conhecimento, a previsibilidade dos sistemas e a natureza do determinismo no universo.

O vídeo está aqui:

https://www.instagram.com/reel/DIgm0aGtCIp/?utm_source=ig_web_copy_link

Marcus oferece objeções neste sentido citado acima, cita que fenômenos complexos não podem ser materialmente reversíveis, que isso é um erro e conecta tal ideia ao primeiro motor de São Tomás de Aquino e Aristóteles como equívocos com beste neste pressuposto causal reversível.

Eu, então, comentei que:

"Embora não seja materialista e muito menos determinista, penso que o fato de certos fenômenos não poderem ser revertidos materialmente — como um copo que se quebra ou uma lenha que vira cinza e fumaça, conforme a segunda lei da termodinâmica — não implica que o passado seja incognoscível. O princípio da razão suficiente não exige que se reverta materialmente o fenômeno, mas apenas que se compreenda a cadeia de causas que levou a ele. Não é justamente essa possibilidade teórica de “rebobinar” mentalmente os eventos, ainda que de forma abstrata, que permite à cosmologia explicar a origem do universo, do sol, da terra e, em alguma medida, prever o futuro — como ao calcular a trajetória de uma sonda para pousar em um asteroide em movimento? Quando jogamos um dado, o resultado nos parece aleatório. Mas será mesmo? Ou chamamos de aleatoriedade apenas a expressão de nossa ignorância sobre variáveis sutis e ocultas do sistema? Penso aqui no mapa imaginado por Jorge Luis Borges, que é do tamanho do próprio território. Gödel, por sua vez, mostra que um sistema não pode provar todos os seus axiomas sem recorrer a algo externo a ele. Há sempre um “fora” — o cartógrafo que desenha o mapa, por exemplo. Por isso, não sou nem materialista nem determinista. A crença de que fenômenos complexos se sustentam por si mesmos me soa como tentar flutuar puxando as próprias pernas para cima. A necessidade de um “primeiro motor” ou de uma “causa não causada” não se baseia apenas em explicar o passado, mas em sustentar a própria atualidade do real — não em uma cadeia temporal de causas e efeitos, mas em uma hierarquia de dependência ontológica, no agora.

Marcus, gentilmente, treplicou que:

"Ótima contribuição. Só considero que o PRS não sirva senão como modelo (nominalismo puro), e como tal é útil, nasce e morre no interior da filosofia analítica. Gostei que citou Gödel. Sobre a causa inicial, ela foi prvista em um universo dado a partir de uma maneira humana de necessitar de progressão para compreensão, e perde o sentido com física quântica, por exemplo."

Eu não segui o argumento, mas pensei e posto abaixo o que eu penso sobre o argumento que ele deu:

1. Sobre o Princípio da Razão Suficiente (PRS) ser visto "apenas" como “modelo útil” que “nasce e morre na filosofia analítica”

Eu concordo com ele que o PRS possa ser tomado como modelo, mas não que ele é exclusivamente um modelo da filosofia analítica. O sentido em que lhe uso ali está conectado com a sua formulação original, em Leibniz, cuja metafísica está longe de ser nominalista ou meramente funcional. O PRS não apenas modela o mundo, mas aponta para uma exigência racional fundamental: a de que o ser precisa de explicação — seja ela ontológica, causal ou lógica. Mesmo que a ciência contemporânea não consiga fornecer razões suficientes para todos os eventos (como nos casos quânticos), isso não dissolve o princípio, apenas realça os limites da nossa capacidade epistêmica. Não devemos confundir o limite da ciência com a inexistência de razão suficiente.

2. Sobre a crítica à “causa inicial” como algo derivado da estrutura humana de compreensão

É verdade que a ideia de uma “causa inicial” pode ser moldada pela nossa maneira humana de pensar em progressão e temporalidade. Mas meu ponto ali é outro: não é apenas sobre o antes, e sim sobre o agora. Mesmo que abandonemos a causalidade temporal clássica (e a física contemporânea muitas vezes o faz), permanece a questão: por que algo existe em vez de nada? — e por que o que existe se mantém existindo?

Esse tipo de pergunta não é respondido por física quântica nem dissolvido por ela, porque remete a uma dependência ontológica, não a uma sucessão temporal. E é aqui que entra a noção de um “ato puro”, uma “existência necessária” ou um “fundamento não contingente” — que está mais para Aristóteles e Tomás do que para a física de partículas, embora, ainda respeitando o princípio da razão suficiente que norteia a própria ciência, também indique a necessidade de uma realidade última que sustente o universo com predicados que são os mesmos que atribuímos ao Deus clássico.

Eu tenho um vídeo em que exploro esta questão de forma bem aprofundada:

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3. Sobre Gödel, o mapa de Borges e o “fora do sistema”

O que me fascina em Gödel, Borges e mesmo na ideia da cosmologia como “rebobinamento mental” é justamente essa tensão entre sistema e extra-sistema, entre imanência e transcendência.

Se um sistema não pode provar todos os seus axiomas internamente — e há quem discorde que podemos extrapolar a proposta de Godel para além da matemática e podemos encontrar razões para isso, embora o próprio Godel pareça fazer isso em suas conclusões filosóficas sobre a realidade — , então há sempre um “fora” que o sustenta ou legitima — e isso vale tanto para a matemática quanto para o ser.

E se todo mapa precisa de um cartógrafo, toda totalidade pensável parece exigir um ponto de vista que não está contido nela. Isso não é apenas uma necessidade lógica, mas talvez existencial: um apelo à transcendência, ou ao menos, à abertura da razão ao que não pode ser totalmente fechado sobre si.


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