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A iconografia do vazio existencial — De Che Chevara a Mao Tsé-Tung, passando por Madonna e Taylor…

Temos talento, dinheiro, fama, prazeres — e ainda assim, definitivamente, não somos felizes. Por coincidência da vida, chegamos ao auge da…

Geraldo A Seabra · 2026-06-21 10:24 · 0 claps · 5.8 min read
#charles-pierce #julio-pinto #semiótica-crítica #generative-ai-tools #artificial-intelligence
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A iconografia do vazio existencial — De Che Chevara a Mao Tsé-Tung, passando por Madonna e Taylor Swift — A busca por um milagre em um mar de símbolos vazios

Temos talento, dinheiro, fama, prazeres — e ainda assim, definitivamente, não somos felizes. Por coincidência da vida, chegamos ao auge da infelicidade exatamente no limiar da Inteligência Artificial, como se o excesso material tivesse apenas adiantado a chegada do vazio, não evitado.

Talvez não tenha sido a IA o gatilho, mas o alerta de misantropia disparado simultaneamente em todos os celulares do país — não como causa, mas como sintoma diagnosticado em tempo real: as promessas políticas já não dão conta de coisa nenhuma.

Não porque tenham sido cumpridas. Porque deixaram de ser ouvidas como promessa real.

Nesse mundo onde a felicidade se dissipa no ar que respiramos, os jovens voltam aos símbolos religiosos precisamente porque não acreditam mais em nada — o que inverte a lógica da fé. Vira sintoma de vazio, não preenchimento dele.

O auge dessa iconografia política deu-se nos psicodélicos anos 60. Che Guevara, Mao Tsé-tung — rostos que carregavam um projeto, uma ruptura, um destino coletivo declarado. Da boina vermelha à camiseta com a imagem quase angelical de Taylor Swift, alguma coisa mudou sem mudar absolutamente nada.

Os jovens adoram se vestir de superficialidades

O suporte é o mesmo — o tecido, o rosto estampado, o gesto de vestir uma imagem como declaração de pertencimento — mas o conteúdo evaporou na longa saga humana na superfície da Terra.

Não se veste mais um projeto. Veste-se uma superfície. Pior: os jovens parecem adorar tudo que é superficial, haja vista a armadilha do scroll infinito das redes sociais.

Quem levantou essa lebre foi a Rádio França Internacional (RFI), em recente discussão sobre o Cristianismo Pop — termo preciso porque nomeia uma fusão, não uma coincidência.

Da iconografia de Madonna em Like a Prayer, com sua profanação calculada do sagrado, aos evangélicos que hoje produzem espetáculo com a mesma gramática de show pop — muita luz, multidão, êxtase coreografado — , o sagrado e o profano deixaram de ser opostos.

Vorcaro — quando o sagrado remete ao avesso do avesso

Muita luz, multidão, êxtase coreografado — e o sagrado e o profano agora são fornecedores do mesmo produto: uma espécie de encantamento administrado, haja vista as festas profanas de Vorcaro com suas lindas putas russas com direito a tradutores para facilitar a transação.

Justamente Vorcaro, aquele homem de Deus, evangélico de primeira linhagem, que se encastelou numa suntuosa igreja da Lagoinha para erguer seu império pessoal de corrosão da já frágil República brasileira, contaminando a todos com sua unção de gângster tupiniquim.

Ao largo desses “santuários”, há um excesso de encantamento na cultura pop — camisa de seleção, escudo de clube, ícone de banda — que funciona, antes de tudo, como distração.

Não curou o vazio no passado, tampouco deve curar agora. Apenas ocupa o tempo em que o vazio deveria fazer algum sentido.

É aqui que a Semiótica de Peirce tropeça em si mesma.

Se os ícones se prestam a qualquer aplicação — se Che vende camiseta de loja de shopping, se a cruz vira logotipo, se o hino vira jingle — , então toda simbologia serve a qualquer tipo de interpretação. E quando isso acontece, nada mais faz o menor sentido.

O significante flutua solto, disponível, genérico. O que pensaria Charles Sanders Peirce, o pai da semiótica? E o que diria Júlio Pinto, meu professor de Semiótica na pós-graduação?

E onde fica essa disciplina tão disputada, que prometia decifrar signos? Ela não morre — mas perde seu objeto de estudo. Passa a descrever não o significados das coisas, mas o próprio mecanismo do esvaziamento.

A semiótica vira arqueologia de cascas.

Tudo porque vivemos um vazio de pertecimento social, um desencantamento que não é ausência de símbolos — é excesso deles, todos murchos. Por isso, o gesto contemporâneo é sempre retrospectivo. Um review de coisas velhas, “um museu de grandes novidades” (Cazuza).

Buscamos resgatar qualquer simbólico do passado — do rock, da esquerda histórica, da religião antiga — não porque acreditemos neles de novo, mas porque não há fôlego para inventar um símbolo novo que dê conta do presente sem esperança renovável.

Nenhuma Times Square ajudou no passado

A religião não ajudou no passado — as guerras religiosas, as cumplicidades institucionais, os silêncios cúmplices estão documentados — e não ajudará agora, ainda que apareça revestida de milhões de leds e trilhas sonoras de arena, numa Times Square paulistana ou na poluída Belo Horizonte.

Há, hoje, um encantamento visível dos jovens por símbolos religiosos — terço, crucifixo, estética de santo, liturgia como referência visual — e o mais revelador é que esse encantamento cresce justamente porque não se acredita em mais nada. Por que será, hein?

Da ultradireita à esquerda festiva, todos buscam o poder por interesses pessoais; nada no horizonte nos remete ao retorno de uma fé fidedigna.

É o símbolo religioso esvaziado de doutrina e recrutado como estética, da mesma forma que o rosto de Che virou estampa: usa-se a imagem do sagrado sem o peso da crença, porque a crença mesma é o que se perdeu primeiro.

O símbolo grita exatamente onde a convicção falta.

Essa efemeridade tem endereço diabólicoas redes sociais

Vivemos tempos de conflitos abertos e sem remorso aparente, e isso não é mera coincidência histórica — é fenômeno estrutural da própria arquitetura do diabólico feed.

Quando tudo dura um scroll, o remorso também não tem força para se fixar nem em nenhum muro. A imagem do horror e a imagem do consumo ocupam o mesmo espaço de atenção, pelo mesmo tempo de exposição, com o mesmo gesto de polegar que descarta.

E é aí que mora o que mais importa dizer. Há, neste exato momento, ao menos duas guerras mortais em curso — Gaza e Ucrânia, sem falar no Congo — e uma tensão que pode se tornar uma terceira, no Estreito de Ormuz.

Não são metáforas.

Jovens consomem imagens atrás de uma salvação vazia

São mortos reais, sob escombros reais, em datas que estão sendo contadas enquanto este texto cheio de esperança é escrito.

E em paralelo a isso — não depois, não apesar, mas exatamente ao mesmo tempo — corre uma profusão de imagens consumidas por jovens em busca de uma salvação vazia.

Não é hipocrisia, porque muitos não sabem mais distinguir o que veem de verdade. Será que leram realmente a Primeira Encíclica do “silencioso” Papa Leão XIV contra o mal advindo das Inteligências Artificiais?

Não sei, não! Só sei que o pontífice católico foi o único a gritar quando o resto se silencia diante do silêncio do abismo.

É nessa engrenagem que habitam em dois abismos

De um lado, a imagem que documenta a morte; do outro, a imagem que promete preenchimento. Ambas circulam na mesma velocidade, no mesmo formato, pedindo o mesmo segundo de atenção antes do próximo deslizar de tela.

“Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada” — já cantavam os Engenheiros do Hawaii. Esse é o ponto. Os ícones — religiosos, políticos, pop, todos — falam muito e não dizem nada, porque a fala não é mais sua função. Sua função é ocupar o espaço onde a pergunta existencial tentaria emergir.

Fazem parte de uma mesma cena desse existencial vazio: Madonna profanando a cruz e o pastor imitando o palco de show com seu maior ícone na prisão por conta do maior escândalo financeiro do país.

Parece bastante conveniente às elites usar a iconografia religiosa não como caminho, mas como junção — colagem de superfícies que produzem emoção coletiva sem produzir sentido coletivo algum.

Essas contradições atuam apenas como operação de uma engenheria reversa para tirar mais dinheiro do pobre e dar ainda mais ao pobre do rico, como revela o escândalo do Banco Master.

Para tanto, mistura-se música gospel, imagem pop, sagrado e profano na mesma lounge, rostos de celebridade para encantar: tudo serve, porque nada precisa significar nada.

Por que a velha Semiótica de Peirce foi assassinada pela maldição do scroll? Não sei dizer ainda…

Mas sei que, para algo ser efêmero, só precisa emocionar por tempo suficiente para que ninguém pergunte mais sua razão inicial de existir. Basta apenas curtir um medium de um instante infinito.

Enquanto isso, em algum lugar, alguém está sob escombro, no canto do quarto, de joelhos, à espera de alguma salvação que talvez venha. Assim eu realmente espero…

Mas é no nosso silêncio existencial de cada dia — aquele que deveria nos obrigar a pensar de verdade — é preenchido, antes que aconteça, por mais uma imagem do streaming.

Quando se vê uma solução, uma luz no fim do túnel, sempre esperamos por um milagre de verdade. Nas redes sociais, contudo, pode-se encontrar absolutamente tudo o que se quer — menos um mísero milagre.


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