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Pelos (des)caminhos de um aprender [Parte 1]

Este texto é fruto da minha tese de doutorado desenvolvida junto à linha de pesquisa Filosofia da Diferença e Educação, integrante do…

Karen Nodari · 2026-03-29 21:18 · 0 claps · 7.8 min read
#filosofia-da-diferença #educação #aprendizado #aprendizagem #pedagogia
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Pelos (des)caminhos de um aprender [Parte 1]

Este texto é fruto da minha tese de doutorado desenvolvida junto à linha de pesquisa Filosofia da Diferença e Educação, integrante do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação (PPGEDU) da UFRGS, intitulada: Além da Escola: percursos entre Nietzsche e Deleuze. Trata-se de uma pesquisa empírico-transcendental que parte de uma empiria — no caso, uma escola — e da qual se abre ao campo dos possíveis. Tanto na pesquisa como no artigo, os conceitos de repetição e devir foram postos em movimento por meio de percursos — escolares ou não, próximos ou distantes, conhecidos ou desconhecidos, trilhados por Nietzsche, professores e alunos. Os percursos foram muitos: em Turim, a caminho de uma escola, dentro do espaço escolar. Extensivos e intensivos. Personagens em deslocamento. Num espaço que tanto pode ser o escolar como não. Lugares tanto conhecidos como desconhecidos, próximos ou distantes. Movimentos repetidos. Do ponto de ônibus até a escola. Do pátio ao saguão. Do corredor às reuniões. Dentro da sala de aula e, ao mesmo tempo, fora dos conteúdos trabalhados. Sempre iguais, mas nunca os mesmos. Traçado de linhas que extrapolam os pontos.

Neste sentido, serão apresentados percursos imprevisíveis dentro dos previsíveis quando se trata de um aprender. Uma vez que há no meio educacional um excesso de clichês, de ideias preconcebidas sobre um aprender e quem aprende. Buscam-se novos meios de expressão, novos modos de pensar a diferença em si mesma, independentemente do modelo representacional que fabrica rótulos para toda e qualquer aprendizagem. De modo que todos os corpos e suas produções carregam a marca do já visto, do já ouvido, do já falado; mais parecem clichês. Outras verdades serão afirmadas sobre aqueles corpos, que colocarão em questão qualquer ideia previamente construída sobre eles. O que importa é não se deixar capturar pelos rótulos, e sim sair deles. Seguir o que atravessa os alunos, as matérias e os professores… É fazer contato com o Fora, com o não estratificado, com o informe, com forças.

É importante dizer que, para proceder a esta investigação, foi necessário partir… Deixar para trás os planos de ensino, os métodos educacionais, as planilhas de rendimento escolar. Foi necessário descer das alturas e ganhar a terra. Vislumbrar horizontes e perder verticalidade. Ir para os lados e não mais para cima. Desprender-se do conhecido território formado pelas paredes de uma sala de aula, com as suas filas de classes, o quadro verde e a mesa de um professor para criar outro. Um ato corajoso de lançar-se ao desconhecido, de explorar territórios inexplorados, de viajar por uma terra estranha. Onde não há códigos a serem decifrados, mas, quem sabe, um mapa de fluxos, de intensidades a se traçar. Seguiu-se na direção contrária ao que o pensamento arborescente entende por aprender, quebrando a sua lógica da reprodução, onde um parâmetro a ser estabelecido deve ser sempre reproduzido e um aprender, hierarquizado. Sem deixar o ninho, o sossego, a segurança do que é conhecido, ninguém aprende. Apesar de ser possível defini-lo: apprehendere quer dizer tomar conhecimento, instruir-se, ficar sabendo, ignora-se como ele ocorre.

Afinidade por estar no meio, em pleno funcionamento das coisas, no turbilhão, no olho do furacão, longe das margens, dos limites das fronteiras, de qualquer início ou fim. Onde o pensar é chacoalhado, forçado a deixar de reconhecer, de identificar, de nomear o que a escola produz e adquire velocidade. Cinco dias na semana, de março a dezembro, alunos, professores, pais e funcionários deslocam-se em uma escola. E, ao chegarem, repetem muitos caminhos dentro do mesmo espaço. Alguns deles são, aparentemente, conhecidos; outros nem tanto. Pois, muitas vezes, percorrem caminhos imprevisíveis dentro dos previsíveis. Mesmo sem saírem do lugar. De antemão, pode-se pensar que não há nenhuma novidade em tamanha repetição, nada além dos alunos aprovados e reprovados. Repetir, repetir, repetir. Falas, gestos, posições. Contudo, por mais que na escola se repita visando à reprodução exata, ela nunca acontece. Repetição que forma e deforma os corpos produzindo um desmoronamento no espaço representativo. A capacidade de representar pressupõe uma identidade no conceito. Duas coisas são concebidas como idênticas somente se elas coincidem num conceito idêntico. É disso que trata o prefixo RE: a forma conceitual do idêntico que aprisiona a diferença. E, facilmente, tudo o que a escola produz passa a ser carimbado, rotulado. Será que tudo o que se produz naquele constante ir e vir, entrar e sair de salas, pode ser representado?

Algo se passa e não chega a perturbar o andamento geral da escola: as aulas continuam acontecendo, as explicações sendo dadas, as perguntas respondidas, os exercícios realizados, as avaliações marcadas, os recreios aguardados… Algo se faz anunciar por uma espécie de nebulosidade que a acompanhava… Avessa a definições, envolta num véu de mistério, a fazer com que todos os colegas dela se afastassem, mesmo que permanecessem sentados lado a lado, dia após dia, período depois de período, cinco dias por semana. Clarice, a excluída das conversas, dos convites do recreio, das combinações das festas, dos grupos. Aparentemente tão igual a qualquer adolescente da sua série — o cabelo comprido repartido de um lado, a calça legging justa, a camiseta baby look, o tênis All Star — , mas tão indefinível. A perambular pelos banheiros, pelos corredores, pelas salas.

Clarice abriu o portão, entrou mais uma vez no pátio. Agora vazio, se não fosse pelo cachorro deitado a tomar sol. Onde estão todos? Será que já bateu? Por que o estacionamento está lotado? Aonde vou? O que vim fazer aqui? Onde poderei ter paz? Qual o lugar em que posso deixar de ser observada? Em meio a tantas dúvidas, com pés de chumbo, procurava por um outro rumo dentro do mesmo espaço. Só sabia que ao caminhar evitava ser vista. Tudo ficaria mais fácil se fosse invisível e atravessasse paredes. Se, tão logo a vissem, desaparecesse. Se pudesse embaralhar a visão, caminhar envolta numa névoa. A todos confundir — afinal, era ela ou não era? Foi vista ou não? Estava ou não estava no pátio? Assistiu ou não assistiu à aula? Uma vez que não possuía tais poderes, era melhor tomar distância do olhar dos inquisidores: O que estás fazendo aqui? Chegaste atrasada outra vez à aula? Não consegues acordar mais cedo pela manhã? Será possível não deitares tão tarde? Será que terei que chamar, novamente, alguém da tua família? Perguntas e mais perguntas. Repetidas. As de sempre. Mas que respostas dar às velhas perguntas? Às conhecidas? Será que eles já não sabem todas as respostas? Ou será que o que quer que eu diga soará como velho? Os professores insistem numa justificativa, enquanto o que ela mais desejava era não dizer nada e, mais uma vez, pular fora. Mesmo que não saísse do lugar. Fora da sala de aula, fora dos trabalhos, fora dos horários, fora do que dizem que deve fazer, fora do que dizem que é bom para ela, fora do que dizem que deve aprender, fora da escola.

E se a intenção de Clarice ao chegar fosse a de encontrar Simone e pedir seu caderno de Geografia emprestado? Simone, aluna exemplar, uma unanimidade entre os professores, um modelo a ser seguido. Menos por ela. Modelo de aluna, modelo de colega, modelo de filha. Uma pretendente bem fundada ao título de melhor aluna, garantida pela semelhança que possui com a imagem ideal de estudante. Além de possuir o mais completo e caprichado caderno da turma. Não que ela tivesse vontade de estudar a matéria, mas é que a professora de Geografia estava no seu pé. É isso mesmo, ela havia lhe dado um ultimato, ameaçou chamar os seus pais se ela não entregasse o caderno com toda a matéria até a próxima aula. Aquela mulher cismara que ela não sabia escrever, que ela deveria ter algum problema grave só porque não copiava nada nas suas aulas. Copiar para quê, se ela ia bem nas provas, se ela respondia às suas perguntas, se não tirava D no trimestre?

Clarice vagava pelo pátio, olhava para os grupos de alunos a fim de enxergar a colega. Ficarão convencidos? E se ela disser que perambulava envolta em dúvidas: onde está Simone? Será que já bateu? Será que estou atrasada? E se a virem fora da sala de aula? Irá se ferrar? Avisarão seus pais? Quando ela se deu conta, já havia entrado no saguão. Como foi parar lá? Ela não sabia. Ah! Ela avistou uma menina magrinha, com cabelos encaracolados, que lembrava Simone, a lhe acenar de longe através da porta de vidro. Ela estava próxima ao balcão da portaria, junto a outras meninas, do lado interno do saguão. Clarice se deslocou até lá, queria encontrá-la. Mas de que jeito? Ao entrar no prédio, não conseguia nem se mexer de tão cheio. Como irá passar se mal consegue entrar? Em meio a uma multidão não adiantava ter pressa. Eram pais, mães, crianças, avós, amigos, tios, padrinhos a lhe cercar. Espalhados, a tomar conta do espaço como gases. Embora não os conhecesse, era como se já os tivesse visto antes por aqui… Acho que eles não haviam participado de nada igual, pareciam hipnotizados. Aquelas pessoas olhavam para cima, não a viam. Perfeito. Tinha uma chance de circular sem ser vista. Quem sabe, voltaria para o pátio? Ou daria mais um passeio sem sair do lugar? Estava em meio a uma multidão, mas era como se não estivesse ali. Era como se fosse invisível. Sensação que muito lhe agradava. Garantida pelo anonimato… Descia por entre as sombras com uma dama vestida de branco. Seria um convés? Ela sussurrava em seu ouvido que se tratava de um navio cruzeiro, ativo até 1967, o Queen Mary, que serviu ao exército britânico na Segunda Guerra Mundial. Depois, deixou-se ser conduzida pela misteriosa mulher em direção a uma piscina vazia, a fim de deixar rastros de pegadas molhadas para os visitantes que se aproximavam. Ao se afastarem do deck, Clarice começou a ouvir gritos. Por mais que a sua acompanhante quisesse que ela os ignorasse, não podia; olhou para trás. Seria ela? Achava que sim, pois aquele penteado capacete poderia ser reconhecido em qualquer lugar. Incrível, nem mesmo à beira da piscina via um fio do cabelo dela fora do lugar. Era ela. A professora de História. Será que ela iria lhe reconhecer? Chamaria os seus pais? Será que irá lembrar que ela não lhe entregou o trabalho sobre o Brasil Colônia? Não acreditava. Uma vez que ela estava tão pálida, sem condição de lhe perguntar nada, de cobrar qualquer coisa. Pois ela estava morta, morta de medo. Entre as gargalhadas de sua acompanhante, Clarice desapareceu sem deixar pistas. Voltou a surgir nas proximidades de uma mansão vitoriana que nunca foi completamente terminada e habitada. Como ela se chama? Woodchester? Montou num cavalo branco à espera de alguém… Parou em frente a um dos seus portões de ferro. Aguardou o vigário local… Será que a professora de História não iria perder a fala se ela aparecesse num de seus portões e logo desaparecesse? Para surgir num de seus banheiros, na mão a sacudir uma cabeça flutuante? De repente, ela sentiu uma batida em seu ombro… Será que a viram? Será a professora de História? Será que já estão lhe procurando? Será que ela já está atrasada? O que Clarice faz lá? Como ela irá explicar o fato de ainda não ter ido para a sala de aula?

Referências

CAVENDISH, Richard (Org.). Enciclopédia do sobrenatural: magia, ocultismo, esoterismo, parapsicologia. Porto Alegre: L&PM, 1993.

DELEUZE, Gilles. Proust e os signos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2005.

DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. São Paulo: Escuta, 1998.

DONATELLI, Marilda. O livro das deusas: grupo de rodas da lua. São Paulo: Publifolha, 2005.

TADEU, Tomaz; CORAZZA, Sandra; ZORDAN, Paola. Um plano de imanência para o currículo. In: TADEU, Tomaz; CORAZZA, Sandra; ZORDAN, Paola. Linhas de Escrita. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. p. 127–203.

WELLS, H. G. O quarto vermelho. In: BULWER-LYTTON, Edward et al Clássicos do sobrenatural. São Paulo: Iluminuras, 2004.


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