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Crítica | Sonhos de Trem

Indicado às categorias de Melhor Filme e Melhor Fotografia para o Oscar 2026, longa estreia no Cinema da Fundação (19)

Moderno Veneza · 2026-02-19 01:15 · 0 claps · 2.5 min read
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Foto: Netflix/Divulgação

Foto: Netflix/Divulgação

Crítica | Sonhos de Trem

Por Natália Viana

Lançado na Netflix e concorrente ao Oscar de Melhor Filme, Sonhos de Trem (Train Dreams, EUA, 2025), dirigido por Clint Bentley, é uma experiência sensorial rara no cinema contemporâneo. Desde os primeiros minutos, o longa evoca uma atmosfera contemplativa que remete ao cinema de Terrence Malick, especialmente em sua fase mais lírica. Não há aqui uma dramaturgia tradicional ou reviravoltas conduzidas por diálogos expositivos. O filme convida o espectador a sentir antes de compreender, a observar antes de julgar.

Baseado em um conto de Denis Johnson, o longa acompanha a trajetória de Robert Granier, um homem comum que trabalha como lenhador e participa da expansão ferroviária no interior dos Estados Unidos do início do século XX. Introspectivo, quase isolado do convívio humano, Granier é um personagem que parece existir em silêncio, como se fosse mais um elemento da paisagem natural que o cerca. Há relatos de períodos em que trabalhou meses ao lado de outro homem sem trocar uma palavra, e essa solidão molda sua forma de estar no mundo.

Por acaso, ele conhece uma mulher e constrói uma família. Há beleza nesses momentos de felicidade quase tímida, como se o personagem se surpreendesse por poder experimentá-la. Mas o trabalho, sempre exigente e distante, cobra seu preço. A tragédia que se segue redefine sua existência e transforma sua história em algo maior do que um simples drama pessoal: torna-se uma reflexão sobre perda, memória e permanência.

Visualmente, o filme é arrebatador. A fotografia de Adolpho Veloso é impecável, marcada por planos amplos, uso frequente da “hora mágica” e enquadramentos que contrapõem a pequenez humana à vastidão da natureza. A imagem não apenas ilustra a narrativa, mas a constrói. Em muitos momentos, não são as palavras que explicam os sentimentos, mas a luz, o vento, o silêncio. O efeito onírico é constante, reforçando a ideia de que acompanhamos lembranças que flutuam entre o real e o etéreo.

No elenco, Joel Edgerton entrega talvez uma das performances mais contidas e impactantes de sua carreira. Seu Granier é um homem de gestos mínimos e emoções internalizadas, mas profundamente humano. Ele compõe um personagem essencialmente bom, cuja dor se expressa mais no olhar do que na fala. Ao seu lado, Felicity Jones ilumina a tela com delicadeza e sensibilidade, oferecendo contraste à dureza do cotidiano. A narração de Will Patton jamais soa como mero recurso explicativo; ao contrário, adiciona camadas poéticas à narrativa. E há ainda a participação marcante de William H. Macy, que surge brevemente, mas imprime força e personalidade suficientes para deixar uma marca duradoura.

Sob a direção de Bentley, subtextos importantes emergem com sutileza: a destruição da natureza como preço do chamado progresso, o capitalismo que consome tempo e energia dos indivíduos, a ideia de que o trabalho muitas vezes nos afasta daquilo que realmente importa. Nada disso é apresentado de maneira panfletária. São camadas que se entrelaçam ao mosaico da vida comum, tornando a jornada de Granier universal.

Uma imagem recorrente, um par de botas pregado a uma árvore, gradualmente engolido pela vegetação, sintetiza a proposta do filme. Ela simboliza a passagem do homem pelo mundo e as marcas, visíveis ou não, que deixam para trás. Sonhos de Trem é, acima de tudo, um filme sobre existir: sobre o peso da rotina, a beleza dos pequenos instantes e a inevitabilidade da perda.

É um trabalho delicado, profundo e necessário. Em tempos de narrativas aceleradas e estímulos constantes, Bentley aposta na contemplação e na sensibilidade. O resultado é um filme que não apenas conta uma história, mas propõe uma vivência e que reafirma o poder do cinema como arte capaz de provocar reflexão e emoção duradouras.

Nota: 📼📼📼📼

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