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Afinal, o que é gótico?

spoiler: não é só gente vestida de preto

Piter Salvatore · 2026-07-08 20:58 · 0 claps · 4.2 min read
#gotico #literatura #arte #gothic #goth
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Afinal, o que é gótico?

spoiler: não é só gente vestida de preto

American Gothic, de Grant Wood (1930)

American Gothic, de Grant Wood (1930)

“Gótico” é uma palavra usada para falar de várias coisas diferentes:

  • Arquitetura gótica
  • Literatura gótica
  • Subcultura gótica
  • Música gótica
  • Cinema gótico
  • Tipografia gótica
  • Língua gótica, etc…

Antiguidade Clássica e Idade Média

Na história, ela foi utilizada pela primeira vez para se referir à língua de povos germânicos que invadiram o Império Romano no final da Antiguidade, como os visigodos e ostrogodos, por exemplo.

Esses povos falavam o “gótico” e foram associados por alguns grupos ao “bárbaro” e “selvagem”.

Visão da catedral gótica de Notre Dame, em Paris, local onde se passa a história do “Corcunda de Notre Dame” | Fonte: France Today

Visão da catedral gótica de Notre Dame, em Paris, local onde se passa a história do “Corcunda de Notre Dame” | Fonte: France Today

Com o classicismo e o iluminismo, o termo adquiriu uma conotação negativa. A palavra passou a ser usada como sinônimo de Idade Média. Foi aqui que a expressão “Idade das Trevas” também ganhou forma. E foi aqui que as catedrais católicas foram chamadas de “góticas” por se diferirem da arte greco-romana, tida como superior nesse período.

Hoje, o estigma do gótico como estilo arquitetônico já se dissolveu bastante, sendo usado apenas para se descrever a estrutura dessas construções.

Romantismo e literatura gótica

Viu que o status de “sombrio” já estava sendo construído? Pois é, mas o imaginário do conhecemos como gótico hoje em dia ocorreu com a literatura.

Nos séculos XVIII e XIX, o romance gótico reimaginou cenários da Idade Média e atribuiu a eles significados sombrios. Aqui, criou-se uma cosmovisão. Um sistema de signos que está presente na cultura hegemônica até hoje.

Capa do livro “Castelo de Otranto”, considerado um dos primeiros romances góticos | Fonte: Amazon

Capa do livro “Castelo de Otranto”, considerado um dos primeiros romances góticos | Fonte: Amazon

Vampiros, bruxas, sobrenatural, castelos e névoa são apenas alguns desses signos.

Desde que os romances góticos criaram esse imaginário, a palavra passou a ser aplicada de forma pejorativa como adjetivo para coisas sombrias e macabras. Digamos que a terminologia ficou “pop”. Um adjetivo que as pessoas usam de maneira recorrente.

O problema linguístico

Na tradição anglo-saxã, a palavra “gótico” já era comum. Ela era usada de maneira frequente para falar de tendências estéticas. O cinema expressionista da década de 1920 e 1930 foi chamado de gótico.

David Bowie, na década de 70, chamou seu álbum Diamond Dogs de gótico também. O “Gothic” é esse universo de símbolos históricos que aborda temáticas e discursos em comum.

No final da década de 70, algumas sonoridades específicas, estéticas artísticas e espaços de sociabilidade noturna como o clube Batcave, em Londres, agregaram pessoas com gostos específicos. Essas pessoas foram chamadas de “góticas”.

Retrato de pessoas góticas dos anos 80 | Fonte: Pinterest

Retrato de pessoas góticas dos anos 80 | Fonte: Pinterest

O termo foi usado pejorativamente, como um xingamento, e depois foi ressignificado pelos próprios membros como uma espécie de sátira. O grupo questionava temas tabu e desafiava padrões ocidentais. Na tradição linguística anglo-saxã, a subcultura gótica foi chamada de “Goth”.

Curiosidade: muitos artistas góticos rejeitaram (e rejeitam) o rótulo justamente por causa do estigma associado a ele, como as principais bandas relacionadas à subcultura: Siouxsie and The Banshees, The Sisters of Mercy e The cure.

Hoje, a nossa noção de “gótico” é mais ampliada. Daniel Serravalle de Sá (2019), no livro “O Gótico em Literatura, Artes, Mídia”, propõe o gótico como um “modo discursivo”.

Livro está disponível no repositório da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Livro está disponível no repositório da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Isso quer dizer que o gótico é uma estrutura discursiva que fala sobre o mundo de uma determinada maneira.

Significa que o gótico é um tipo de linguagem, uma proposta de representação da realidade a partir de alguns elementos específicos.

Que elementos são esses?

  1. Alegorias que falam de problemas próprios da época
  2. O passado como presença esmagadora e fantasmagórica
  3. Melancolia, tabus, subversão
  4. Excesso, ambiguidade, contrastes.

É uma palavra maltratada, realmente. Por isso mesmo, precisamos identificar de qual gótico estamos falando. A qual manifestação dessa grande estrutura discursiva estamos nos referindo.

Elementos do discurso

Percebemos que o termo foi usado de diferentes formas e em diferentes contextos para classificar coisas muito distintas, mas que possuem uma relação de semelhança entre si (isso se chama Homologia, conceito apropriado dos estudos do autor Lévi-Strauss). Vale nos questionarmos, então, sobre as características que compõem um discurso:

  • O que está sendo dito?
  • Quem diz?
  • De que modo diz?
  • Para quem diz?
  • Com que finalidade?

O modus gótico

O gótico como discurso é muito defendido por teóricos da literatura como Fred Botting (Gothic, 1996) e David Punter (The Gothic, 2004). Ele muda tudo porque permite que o gótico se manifeste em qualquer época, mídia ou espaço social.

Por isso, podemos ter:

  • Jogos góticos
  • Filmes góticos
  • Séries góticas
  • Músicas góticas
  • Pinturas góticas
  • etc

Conclusão

Em suma, podemos dizer que o gótico é um mecanismo de transgressão cultural. É a ferramenta que usamos para falar daquilo que nos assusta, nos fascina e que o discurso oficial e higienista do capitalismo iluminista tenta censurar.

REFERÊNCIAS

  • BOTTING, Fred. Gothic. Londres: Routledge, 1996.
  • Verbete “Gótico” no DICIONÁRIO Online de Português.
  • HODKINSON. Paul. Goth: Identity, Style and Subculture. 1. ed. Oxford e Nova York: Berg Publishers, 2002.
  • HEBDIGE, Dick. Subculture: the meaning of style. 2. ed. Londres: Routledge, 2002. [1979].
  • PUNTER, David; BYRON, Gleniss. The Gothic. Malden: Blackwell Publishing, 2004.
  • KIPPER, Henrique. A Happy House in a Black Planet: uma introdução à subcultura gótica. 2. ed. São Paulo: [s.n.] 2023.
  • LEDWON, Lenora. Twin Peaks and the Television Gothic. Literature/Film Quarterly, v. 4, n. 21, p. 260–270, 1993.
  • SÁ, Daniel Serravalle de. Por uma cartografia do gótico: teoria, crítica, prática. In: SÁ, D. S (org.). O Gótico em Literatura, Artes, Mídia. 1. ed. São Paulo: Rafael Copetti Editor, 2019. p. 9–22.
  • SPOONER, Catherine. Contemporary Gothic. 1. ed. Londres: Reaktion Books, 2006.

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