Afinal, o que é gótico?
spoiler: não é só gente vestida de preto
Afinal, o que é gótico?
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American Gothic, de Grant Wood (1930)
“Gótico” é uma palavra usada para falar de várias coisas diferentes:
- Arquitetura gótica
- Literatura gótica
- Subcultura gótica
- Música gótica
- Cinema gótico
- Tipografia gótica
- Língua gótica, etc…
Antiguidade Clássica e Idade Média
Na história, ela foi utilizada pela primeira vez para se referir à língua de povos germânicos que invadiram o Império Romano no final da Antiguidade, como os visigodos e ostrogodos, por exemplo.
Esses povos falavam o “gótico” e foram associados por alguns grupos ao “bárbaro” e “selvagem”.

Visão da catedral gótica de Notre Dame, em Paris, local onde se passa a história do “Corcunda de Notre Dame” | Fonte: France Today
Com o classicismo e o iluminismo, o termo adquiriu uma conotação negativa. A palavra passou a ser usada como sinônimo de Idade Média. Foi aqui que a expressão “Idade das Trevas” também ganhou forma. E foi aqui que as catedrais católicas foram chamadas de “góticas” por se diferirem da arte greco-romana, tida como superior nesse período.
Hoje, o estigma do gótico como estilo arquitetônico já se dissolveu bastante, sendo usado apenas para se descrever a estrutura dessas construções.
Romantismo e literatura gótica
Viu que o status de “sombrio” já estava sendo construído? Pois é, mas o imaginário do conhecemos como gótico hoje em dia ocorreu com a literatura.
Nos séculos XVIII e XIX, o romance gótico reimaginou cenários da Idade Média e atribuiu a eles significados sombrios. Aqui, criou-se uma cosmovisão. Um sistema de signos que está presente na cultura hegemônica até hoje.

Capa do livro “Castelo de Otranto”, considerado um dos primeiros romances góticos | Fonte: Amazon
Vampiros, bruxas, sobrenatural, castelos e névoa são apenas alguns desses signos.
Desde que os romances góticos criaram esse imaginário, a palavra passou a ser aplicada de forma pejorativa como adjetivo para coisas sombrias e macabras. Digamos que a terminologia ficou “pop”. Um adjetivo que as pessoas usam de maneira recorrente.
O problema linguístico
Na tradição anglo-saxã, a palavra “gótico” já era comum. Ela era usada de maneira frequente para falar de tendências estéticas. O cinema expressionista da década de 1920 e 1930 foi chamado de gótico.
David Bowie, na década de 70, chamou seu álbum Diamond Dogs de gótico também. O “Gothic” é esse universo de símbolos históricos que aborda temáticas e discursos em comum.
No final da década de 70, algumas sonoridades específicas, estéticas artísticas e espaços de sociabilidade noturna como o clube Batcave, em Londres, agregaram pessoas com gostos específicos. Essas pessoas foram chamadas de “góticas”.

Retrato de pessoas góticas dos anos 80 | Fonte: Pinterest
O termo foi usado pejorativamente, como um xingamento, e depois foi ressignificado pelos próprios membros como uma espécie de sátira. O grupo questionava temas tabu e desafiava padrões ocidentais. Na tradição linguística anglo-saxã, a subcultura gótica foi chamada de “Goth”.
Curiosidade: muitos artistas góticos rejeitaram (e rejeitam) o rótulo justamente por causa do estigma associado a ele, como as principais bandas relacionadas à subcultura: Siouxsie and The Banshees, The Sisters of Mercy e The cure.
Hoje, a nossa noção de “gótico” é mais ampliada. Daniel Serravalle de Sá (2019), no livro “O Gótico em Literatura, Artes, Mídia”, propõe o gótico como um “modo discursivo”.

Livro está disponível no repositório da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Isso quer dizer que o gótico é uma estrutura discursiva que fala sobre o mundo de uma determinada maneira.
Significa que o gótico é um tipo de linguagem, uma proposta de representação da realidade a partir de alguns elementos específicos.
Que elementos são esses?
- Alegorias que falam de problemas próprios da época
- O passado como presença esmagadora e fantasmagórica
- Melancolia, tabus, subversão
- Excesso, ambiguidade, contrastes.
É uma palavra maltratada, realmente. Por isso mesmo, precisamos identificar de qual gótico estamos falando. A qual manifestação dessa grande estrutura discursiva estamos nos referindo.
Elementos do discurso
Percebemos que o termo foi usado de diferentes formas e em diferentes contextos para classificar coisas muito distintas, mas que possuem uma relação de semelhança entre si (isso se chama Homologia, conceito apropriado dos estudos do autor Lévi-Strauss). Vale nos questionarmos, então, sobre as características que compõem um discurso:
- O que está sendo dito?
- Quem diz?
- De que modo diz?
- Para quem diz?
- Com que finalidade?
O modus gótico
O gótico como discurso é muito defendido por teóricos da literatura como Fred Botting (Gothic, 1996) e David Punter (The Gothic, 2004). Ele muda tudo porque permite que o gótico se manifeste em qualquer época, mídia ou espaço social.
Por isso, podemos ter:
- Jogos góticos
- Filmes góticos
- Séries góticas
- Músicas góticas
- Pinturas góticas
- etc
Conclusão
Em suma, podemos dizer que o gótico é um mecanismo de transgressão cultural. É a ferramenta que usamos para falar daquilo que nos assusta, nos fascina e que o discurso oficial e higienista do capitalismo iluminista tenta censurar.
REFERÊNCIAS
- BOTTING, Fred. Gothic. Londres: Routledge, 1996.
- Verbete “Gótico” no DICIONÁRIO Online de Português.
- HODKINSON. Paul. Goth: Identity, Style and Subculture. 1. ed. Oxford e Nova York: Berg Publishers, 2002.
- HEBDIGE, Dick. Subculture: the meaning of style. 2. ed. Londres: Routledge, 2002. [1979].
- PUNTER, David; BYRON, Gleniss. The Gothic. Malden: Blackwell Publishing, 2004.
- KIPPER, Henrique. A Happy House in a Black Planet: uma introdução à subcultura gótica. 2. ed. São Paulo: [s.n.] 2023.
- LEDWON, Lenora. Twin Peaks and the Television Gothic. Literature/Film Quarterly, v. 4, n. 21, p. 260–270, 1993.
- SÁ, Daniel Serravalle de. Por uma cartografia do gótico: teoria, crítica, prática. In: SÁ, D. S (org.). O Gótico em Literatura, Artes, Mídia. 1. ed. São Paulo: Rafael Copetti Editor, 2019. p. 9–22.
- SPOONER, Catherine. Contemporary Gothic. 1. ed. Londres: Reaktion Books, 2006.
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