Entre trilhos e montanhas
Uma viagem entre as montanhas e a história de Morretes
Entre trilhos e montanhas
Uma viagem entre as montanhas e a história de Morretes
Existem viagens que começam antes mesmo da partida do trem. Esse é o sentimento que surge já na estação de Curitiba, enquanto as pessoas aguardam no corredor, observando os trilhos que chegam longe. E, então, aquele momento: o som metálico, a expectativa silenciosa dos passageiros e a ideia de que, em poucos minutos, todos embarcarão em uma travessia que existe há claramente mais de um século.

Foto: Theo Victor
O passeio de trem entre Curitiba e Morretes percorre cerca de sessenta e oito quilômetros pela Serra do Mar, levando aproximadamente três a quatro horas, isso apenas na descida. O trajeto atravessa treze túneis e mais de quarenta pontes e viadutos, percorrendo a preservada Mata Atlântica. Em alguns pontos, a ferrovia parece flutuar sobre vales. O trem lembra uma centopeia antes da metamorfose. E, assim, elas surgem dentre as montanhas cobertas do verde, elas, as cachoeiras.

Foto: Graziele Schlegel
A linha faz parte da histórica Estrada de Ferro Curitiba–Paranaguá, inaugurada em 1885, considerada, na época, uma das obras de engenharia mais ousadas do Brasil. Pensando, vemos que construir uma ferrovia em um terreno tão complexo, íngreme e instável, isso no século XIX, exigiu soluções técnicas inéditas e um enorme esforço humano. Cada ponte, cada túnel e cada curva representam um desafio vencido contra a geografia da serra.
Por trás dessa obra monumental está a história de dois engenheiros que desafiaram não apenas a matemática e a natureza, mas também as barreiras sociais de sua época: André e Antônio Rebouças.
Filhos de uma mulher negra e de um advogado autodidata, os irmãos nasceram na Bahia e se formaram em engenharia na Escola Militar do Rio de Janeiro. Considerando o Brasil do século XIX, ainda com marcas da escravidão, dois homens negros se tornarem engenheiros tão respeitados já era algo extraordinário. A parte mais interessante entra aqui: eles participaram de projetos que ajudaram a transformar a infraestrutura do país.
Antônio Rebouças foi responsável por importantes obras estratégicas e também participou da construção da Estrada da Graciosa, que conectou o litoral ao planalto paranaense. André, por sua vez, tornou-se uma figura relevante no pensamento técnico e político do período, além de participar ativamente do movimento abolicionista. Um de seus projetos mais conhecidos foi o sistema que levou água do Rio D’Ouro ao Rio de Janeiro imperial, solução que ajudou a resolver um grave problema de abastecimento da capital.
O projeto ferroviário que ligaria o litoral paranaense ao planalto nasceu justamente das ideias e estudos dos dois irmãos. Antônio morreu aos trinta e cinco anos, ainda jovem, antes de ver a sua obra e do irmão concluída. A ferrovia só seria finalizada em 1885, consolidando-se como um marco da engenharia brasileira e um elemento decisivo para o desenvolvimento econômico da região, permitindo o escoamento de erva-mate, madeira e outros produtos.
Mais de um século depois, o mesmo trajeto continua ativo e sendo um dos passeios ferroviários turísticos mais impressionantes do país.
A experiência dentro do trem começa de forma tranquila. Seguido do embarque, os passageiros escolhem seus lugares e se sentam ao lado das grandes janelas, que permitem a contemplação do verde e da paisagem. Durante o percurso, os guias nos contam histórias sobre a construção da ferrovia, os desafios enfrentados pelos trabalhadores e as curiosidades da região.
Em certos trechos, é possível ver pequenas construções antigas ao longo da linha. Muitas delas funcionavam como casas de manutenção ou abrigos para operários e equipes ferroviárias, que precisavam permanecer na serra para realizar reparos constantes na via. E abro um parênteses para dizer: que capricho de preservação. Ademais, em um ambiente tão úmido e sujeito a deslizamentos, a ferrovia exigia vigilância permanente.
Outro elemento histórico visível durante o trajeto são antigos reservatórios de água, utilizados na época das locomotivas a vapor. Como os trens precisavam reabastecer frequentemente, esses pontos foram construídos ao longo da linha para garantir o funcionamento das máquinas durante a travessia da serra.
Entre pontes metálicas suspensas sobre vales e túneis escavados na rocha, a viagem ganha um ritmo contemplativo. O trem não é rápido; e é essa a beleza da experiência. O tempo desacelera, permitindo observar a paisagem com calma e devanear sobre o esforço necessário para abrir aquele caminho entre montanhas tão densas.
Quando o trem finalmente chega a Morretes, o sentimento muda novamente. A pequena cidade histórica, fundada no período colonial, preserva ruas tranquilas, casarões antigos e uma forte tradição gastronômica autêntica.
Ali, o passeio continua com uma parada quase obrigatória: o almoço típico com barreado, prato tradicional do litoral paranaense preparado lentamente em panela de barro.
O restaurante onde paramos foi bastante especial. Em vez de um espaço formal ou turístico demais, o ambiente lembrava um grande quintal de família. A dona do restaurante visita a mesa de cada um dos integrantes do passeio, para perguntar quem são, de onde vieram e como se sentiram durante a vinda. Muitas casas da cidade abriram suas áreas externas para receber visitantes, criando espaços amplos e simples, onde moradores servem comida caseira, bem elaborada, para quem chega. É quase como um carinho atemporal de gente pra gente, como talvez também pudesse ser na época de construção da ferrovia.
É uma hospitalidade genuína. As pessoas nos recebem como se estivéssemos visitando suas próprias casas: mesas redondas, pratos servidos generosamente e um clima acolhedor, tudo ao som silencioso das montanhas.
Ao final do passeio, fica a sensação de ter vivido algo que é ao mesmo tempo uma viagem pela natureza, pela história e pela memória do país.
Esses trilhos que não esqueço, descem a Serra do Mar e não são apenas um caminho turístico, mas testemunham um período em que engenharia, trabalho humano e visão de futuro transformaram uma paisagem insuperável em também uma das rotas ferroviárias mais impressionantes do Brasil.
Fonte: MARASCIULO, M. Irmãos Rebouças: quem foram os primeiros engenheiros negros do Brasil. [S.l.]: Revista Galileu, 2020. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Historia/noticia/2020/09/irmaos-reboucas-quem-foram-os-primeiros-engenheiros-negros-do-brasil.html. Acesso em: 11 mar. 2026.
Fonte: PREFEITURA DE CURITIBA. Conheça a história dos irmãos Rebouças, engenheiros negros que moldaram a Curitiba do século 19. Curitiba: Prefeitura de Curitiba, 2025. Disponível em: https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/conheca-a-historia-dos-irmaos-reboucas-engenheiros-negros-que-moldaram-a-curitiba-do-seculo-19/80578. Acesso em: 11 mar. 2026.
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