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Conto das Luzes

Uma escola conhecida por ser cheia de "arruaceiros" e também por ser uma das poucas próximas do bairro, em que suas ladeiras são de difícil…

kalil b. · 2023-02-24 16:07 · 0 claps · 2.7 min read
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Conto das Luzes

Uma escola conhecida por ser cheia de "arruaceiros" e também por ser uma das poucas próximas do bairro, em que suas ladeiras são de difícil acesso, acontece uma aula de Física do Professor Tomás. Este que, além de ser um senhor que tem sua bela eloquência, sabe ouvir, segundo o prórprio. Foi este motivo, que o fez deixar de se sentir apagado, ao não escutar mais os conselhos de colegas que teceram comentários maldosos sobre sua ida a famigerada escola da balbúrdia.

Numa manhã, já na colégio, Tomás discorre a matéria sobre luz. Até notar uma voz conversando, consequentemente, atrapalhando a continuidade de sua explicação. Era Edson, um menino de pele escura que vive nas sombras do fundo da sala, justamente para fugir do holofote do Professor.

Tomás resolve pausar seu monólogo para indagar, de forma incisa, por conhecer a personalidade afrontosa do garoto:

— Edson, posso saber o que tanto cochicha? Está atrapalhando seus colegas com essa conversa paralela. Se não quer aprender, há quem queira!

— Oxi, quem disse que não tô prestando atenção? — diz com um leve sorriso digno de uma criança que não sabe esconder seus segredos, enquanto alguns amigos riem baixo, sabendo que, dali, poderia sair qualquer coisa. — Pode até me fazer uma pergunta aí se quiser.

Mas Tomás, antes que seja alvo de mais risadas e perca o controle da aula, pretende deixar Edson em seu lugar segue questionando:

— Entendi. Então, farei uma pergunta simples, sobre o que estávamos falando mesmo, senhor Edson?

— Ué, sobre Física, né?

Neste momento, a sala se infesta da risada típica de vilões aos ouvidos daquele que deveria ser o herói... o Professor. A conversa ganha outro tom:

— Muito engraçado! Não, estamos falando sobre Luz. Agora você pode sair da sala, por favor?

— Pô, foi só uma brincadeira, vou ficar quietinho agora, papo reto, Prof.

— Não é a primeira vez que faz suas gracinhas, pode saindo, você não agrega na aula, pois não escuta, não faz um questionamento...

O menino, agora se encontra com cara de atleta concentrado, olhando Tomás nos olhos, assim como toda a sala observa a situação, esperando a conclusão da perspicácia de Edson:

— Eu faço uma pergunta então. — aqui o menino aumenta a voz, ao que parece, uma medida desesperada — Por que a luz do poste aqui no morro é tudo amarela e do pessoal lá no asfalto é branca?

— Porque umas são incandescentes, as outras são fluorescentes, apenas isso.

— Isso é desculpinha, na real, é só porque nois é pobre Professor, tipo aquela coisa que a Professora Angela falou na aula dela, a diferenças de classes sociais, tá ligado?

— Ah, agora virou o sabichão, não espere um nobel de Física — disse Tomás, de maneira sarcástica, soltando um leve riso com uma mão na boca, para abafar.

— Nem sei o que é isso, Prof. Só que minha mãe fala que Deus fez a luz, e ele ama todo mundo igual. Mas por aqui a gente fala de luz quando faz um gato, quando tem blackout, quando vê giroflex... esses bagulhos. É aquilo que tu disse em outra aula, sobre dois corpos não ocupar o memo lugar, de um tal de Neilton, né? Eles não se misturam com nois, nem na luz. Mas nois é iluminado e vive com pouco.

Edson, termina sua fala como se estivesse em um discurso do Oscar, direto e reto, sem titubear. Alguns colegas de classe riam, pelo "Newton" mas, de qualquer forma, todos corroboram e adicionam comentários, criando cada vez mais uma confusão — ou difusão — entre ideias. Já Tomás, se indigna de tanta algazarra, determinando o silêncio:

— Você, Edson, não está falando sobre a matéria, não irei me prolongar com você, chega!

— Ué, quando eu falei que tu tava falando de Física, cê disse que era sobre Luz.

A sala volta a gargalhar como hienas ao ouvido do professor, ao mesmo tempo, toca a sirene indicando o fim da aula. Toda turma saí, Tomás, fica ali arrumando as coisas sozinho, entretanto há uma conversa no fundo de sua mente. Ao cair a ficha que, na realidade, talvez ele não saiba ouvir, e isso foi bom para sua vinda a escola, porém percebeu sua deficiência em escutar as aulas de outras vivências.


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