O Chega! é uma perda de tempo, e temos pouco tempo a perder
As eleições estão á porta outra vez, um fenómeno que reflete a instabilidade político-social que tem vindo a caracterizar o nosso país num…
O Chega! é uma perda de tempo, e temos pouco tempo a perder

As eleições estão á porta outra vez, um fenómeno que reflete a instabilidade político-social que tem vindo a caracterizar o nosso país num passado recente. Infelizmente, em muitas formas, esta realidade tem sido bastante lucrativa para uma elite de pessoas, que transformam sofrimento e dor em degraus de carreirismo.
Em boa verdade, não creio haver inocentes nos corredores do poder político em Lisboa; influenciados por um conjunto de fatores como o egoísmo e ganância, incompetência, incapacidade, ou subjugação a um sistema inerentemente disfuncional e que elimina qualquer possibilidade de eficiência plena. Mas… no reino das motivações políticas o único juiz credível é a intenção pessoal, e ainda não temos tecnologia suficiente para aceder ao íntimo intelectual e moral de cada deputado e deputada.
É cada vez mais claro que algum tipo de reforma é inegável. As luzinhas do tablier estão todas acesas, e uma revisão dos problemas debaixo do capot da nossa democracia é urgente — especialmente visto que, cada vez que carregamos no acelerador, vai tudo abaixo. É exatamente nestes momentos, em que o carro está a esfumaçar na berma da estrada, que aparecem os mecânicos de bancada, que nunca mudaram um pneu sequer, e arremessam culpas a tudo e todos, sem oferecer quaisquer opções viáveis e práticas.
‘Claramente o problema é do fumo que ‘tá a sair daí. Isso de certeza que foi um imigrante transgénero cigano que montou o carro, claro que não anda! Se me contratares, eu construo em dois dias uma fábrica só para o teu carro, que vai entrar um Peugeut e sair um Bentley!’
Entretanto perde-se tempo com esta conversa, o carro explode, e a nossa democracia vira bicicleta.
Quando não temos tempo a perder, o que fazemos mais é perder tempo
O Chega! não é um partido político na integra.
Por norma, os partidos políticos (com todas as falhas do mundo, e mais algumas) focam-se em soluções para problemas, e não problemas para soluções. Até partidos com os quais discordo (e muito) têm esse mínimo padrão de funcionamento, em que identificam um problema (economia, saúde, educação) e apresentam um plano detalhado de medidas através das quais creem que esses problemas serão combatidos ou resolvidos.
Claramente o Chega! não se insere nesses moldes, como já escrevi há uns anos (e não me vou repetir detalhadamente aqui), que existe numa ‘lógica’ de:
1- Distorcer problemas e as suas proporções;
2- Apresentar soluções impossíveis (constitucional, legal, ou praticamente falando);
3- Alimentar uma narrativa falsa de que ‘O Sistema’ (algo que nem o ‘partido’ sabe descrever) não quer resolver os problemas inventados;
4- Auto-vitimizar-se, pois precisa de mais votos/militantes para combater ‘O Sistema’, que é muito grande e mau;
5- Angariar militantes, reforçando a sua estrutura financeira e política, sem nunca ter de apresentar resultados concretos.
Acresce ainda que, os problemas inflacionados pelo ‘partido’, acabam, por norma, refletidos dentro dos quadros do mesmo:
Imigração: “Novo deputado do Chega detido duas vezes por imigração ilegal nos EUA” (Público 2014)
Criminalidade: “Mais de 20% dos deputados estão a ser ou foram investigados pela justiça.” (CNN Portugal 2025)
Pedofilia: “Caso do deputado do Chega denunciado por violação de menor continua em investigação” (Sábado 2025)
A um mar de outros exemplos possíveis, junta-se um cardápio extenso de mentiras que, se vendidas ao metro, seriam suficientes para estabilizar a situação económica do país, e ainda deixar gorjeta.
Ou seja, se o Chega! claramente não tem capacidade nem intenção de melhorar as vidas dos Portugueses, o que anda aqui a fazer?
A meu ver, simplesmente a atrasar o país por largos anos.
Sendo um ‘partido’ de não-soluções, pode-se apenas assumir que os problemas estruturais (económicos, políticos, sociais) que existiam em Portugal, vão continuar a ser os mesmos; com a diferença de que as distrações aumentam. Podendo assim acentuar ainda mais as deficiências sentidas com o passar do tempo.
Por muito que o Chega! habite no mundo da fantasia, nem o mesmo pode escapar ao componente filosófico da segunda lei da termodinâmica: a Entropia. Neste contexto, a Entropia explica que o progresso natural das coisas, quando não são cuidadas, é no sentido da degradação e desordem.
Ou seja, podemos estar vinte anos a discutir acerca de uma casa em ruínas, atribuir culpas, e mobilizar mais pessoas para a discussão… mas se ninguém der nenhum passo concreto para a manutenção da casa, ela eventualmente vai cair — independentemente do quão alto gritemos, ou do número de bodes expiatórios citados.
Mira aqui, mira aqui, Toma!
Existe um vídeo que ocasionalmente volta a fazer as rondas por entre as redes sociais. O mesmo mostra uma discussão entre duas pessoas no que aparenta ser um camarim. O primeiro encara o segundo com gritos e fúria, ao que o segundo responde levantando a sua mão esquerda, convidando o adversário a olhar para a sua palma, e quando o olhar está desviado, dá-lhe uma chapada com a mão direita. (Deixo o link nas referências para quem se quiser rir um pouco).
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O que se passa com o Chega! é um pouco o que acontece nesse vídeo: quanto mais tempo passamos a tentar contornar mentiras, manipulações e propostas ridículas, mais a jeito nos pomos para levar um chapadão.
O tempo que podíamos estar a investir em encontrar soluções reais para problemas concretos, passamos no mundo de André Ventura à caça de gambuzinos. Como tal, recursos como votos, desenhar políticas públicas eficazes, filtrar políticos maus ou incompetentes, ou até apoiar a emergência de novos partidos ‘a sério’ (quando comparados com o Chega!), são jogados pelo cano abaixo.
O Chega! não está aqui para resolver nada, nem pretende fazê-lo. Isto porque um movimento construído apenas para apontar o dedo, nunca poderá existir numa realidade em que a única entidade a quem resta atribuir culpas é a si próprio.
Vejamos o exemplo do fim das portagens no Algarve.
O assunto arrastou-se na região durante anos, e foi consistentemente sustentado por um movimento regional de cidadãos e cidadãs, que bem antes da existência do Chega! lutaram para reverter uma situação criminosa: o lucro institucional através da exploração de uma autoestrada construída com fundos públicos para desenvolvimento regional.
Sim, houve uma votação no parlamento para retificar a situação, mas esta foi primeiro uma vitória dos Algarvios, e não de quaisquer partidos. E mesmo no universo parlamentar, esta foi mais uma vitória dos partidos e/ou deputados/as que apoiaram a causa ao longo dos anos, que do Chega!…
No entanto, caímos no ridículo de ter um pouco por todo o Algarve lonas que leem ‘Aqui não vai pagar portagem graças ao Chega!’.
E se o problema de desperdiçar tempo e recursos é condenável, pior ainda é a propositada destabilização e desumanização de todo um país.
Portugal dos Pequenitos, Distraíditos e Zangaditos
A frase ‘dividir para conquistar’ tornou-se tão cliché que já nem conta como expressão de inteligência… E mesmo que a moda do Chega! passasse amanhã, os estragos feitos na nossa sociedade ultrapassam os efeitos do tempo perdido e entropia já referidos.
A tática de encontrar problemas para soluções do ‘partido’, passa automaticamente por uma identificação estratégica de culpados genéricos para problemáticas especificas.
O artigo já vai longo, e creio que das coisas menos controversas para afirmar aqui é que os maiores alvos do Chega! são todos os que não se enquadram no estatuto de ‘Homem Branco, de Alta-Média Classe, Empresário/Empregado, Sem Quaisquer Condicionantes de Saúde, e com Passaporte Português’.
Em contraste, alguns dos responsabilizados por todos os males do país são:
-Imigrantes;
-Pessoas da Comunidade Romani;
-Pessoas com Deficiência;
-Afrodescendentes;
-Pessoas da Comunidade LGBTQIA+;
-Pessoas Desempregadas;
-Pessoas com Baixos Rendimentos;
-Pessoas Sem Abrigo;
-Mulheres que Não se Comportem de Forma ‘Tradicional’, com Papel Bem Definido em Relação ao Homem;
-Pessoas Com Problemas do foro da Saúde Mental…
Portugal é um país, quer queiramos ou não, multicultural. Como tal todos os grupos acima descritos — inclusive o favorecido pelo Chega! — são um reflexo da nossa população e país. E a verdade é que quanta mais coerência e harmonia existir entre estes grupos, mais poder os mesmos têm sobre as classes políticas.
Ao manufaturar e acentuar constantemente divisões entre estes conjuntos de Seres Humanos o ‘partido’ assegura simultaneamente a diluição desse mesmo poder, e aumenta a sua probabilidade de sobrevivência, visto que com menos votos consegue eleger mais deputados.
Não é preciso refletir muito sobre o assunto para chegar à conclusão que, se os grupos discriminados pelo Chega! se unirem em torno de um projeto político/candidato/partido, os mesmos têm o poder de decidir quem ocupa os corredores de São Bento, e os assentos em Bruxelas, e as Câmaras Municipais…
Considerando também que esses públicos são os menos suscetíveis a um autoenvenenamento (quando se passa uma vida a lutar pelo direito de existir, criam-se certos anticorpos), o Chega! sabe perfeitamente bem que os mesmos nunca comprarão o que está a vender. Reconhecendo assim esse poder, e a sua incapacidade para o aceder, o pseudopartido joga com a única carta que resta: a obliteração através da divisão.
Ora, hipoteticamente falando, se as pessoas pobres estão ocupadas a odiar pessoas romani; se a comunidade LGBTQIA+ está preocupada com as pessoas imigrantes; se os/as afrodescendentes são colocados/as em rota de colisão com pessoas desempregadas; se as pessoas com deficiência são ocultadas e ridicularizadas; e se todos e todas estão em oposição aos ditos Homens Brancos (etc)… Deixamos, por definição, de ter Um Povo — e por consequência Um País.
E assim se corrói e corrompe toda e qualquer possibilidade de coerência nacional, de construir um futuro sustentável, e de resolver problemas de forma eficaz, duradoura, democrática e pacífica.
Apesar de ter noção das minhas inclinações ideológicas, reconheço que não sei tudo. E reconheço que a resposta para alguns problemas políticos reside algures no espetro da esquerda-direita. Mas, não podemos sequer começar a encontrar essa resposta, se nos continuarmos a deixar distrair e emocionalmente manipular. Adicionalmente, nunca teremos uma Nação, se continuarmos a permitir que fraturem o Povo da mesma…. E não poderemos nunca Ser Humanos, se continuarmos a trocar mentiras e sonhos autoritários, pela nossa dignidade individual e conjunta.
O amor à Pátria a passa pela rejeição daqueles que a tentam explorar. Pela resistência aos que nos tentam enganar. E pela consciência de que não abdicamos do nosso poder para sustentar aqueles que nos querem mal, como indivíduos (a lutar no terreno) e como nação (retalhada e vendida a charlatões).
Domingo votem, mas votem num Partido.
Referências
https://viriatovb.medium.com/chega-de-a-ventura-s-5515901aa51a
https://poligrafo.sapo.pt/?s=chega
https://www.jn.pt/8317807864/fact-check-o-que-e-verdade-e-mentira-no-congresso-do-chega/
https://www.youtube.com/watch?si=XbqWuyMZ_wa5hrRU&v=6SbasrQMhRQ&feature=youtu.be
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