Um [tico e teco] todo meu
É preciso que a mulher se escreva: que a mulher escreva sobre mulher, e traga as mulheres à escrita, de onde elas foram tão violentamente…
Um [tico e teco] todo meu
É preciso que a mulher se escreva: que a mulher escreva sobre mulher, e traga as mulheres à escrita, de onde elas foram tão violentamente distanciadas quanto foram de seus corpos; pelas mesmas razões, pela mesma lei, com a mesma letal finalidade. A mulher precisa se colocar no texto — como no mundo, e na história –, através de seu próprio movimento.
Hélène Cixous, O riso da Medusa, 1975 (1).
Debaixo de um teto quase todo meu sento para escrever, conforme prescrito. O receio relacionado a este ato, creio, foi rompido, já que cá estou. E, ainda que não reconhecesse seu adiar como tal, eu, que sempre fui viciada em coragem, grafando, descobri o mito.
Tanta possibilidade contida numa palavra tão simplória: medo. De avião, de aranha, de fantasma, de abandono… Já tinha ouvido falar de muitos, de folha em branco, sentir, é novo. E mesmo que do novo não tenha medo — ao contrário, dele me alimento, nele sorvo –, folha em branco tem sido estorvo. Veja bem, sou poeta recém-parida, engatinhando nas palavras, os chiclês se fazem necessários; parte, complemento: O que dizer que já não foi dito? O que apresentar de novo? Tanto e nada… O inaudito?
o medo devora
de dentro pra fora
rasgando o sonho
de fora pra dentro
Quando era criança e tinha que ir ao banheiro à noite, que ficava fora de casa, eu sempre voltava correndo, apagando luzes no caminho e batendo portas na velocidade do peito. Às vezes, me forçando coragem, voltava a passos lentos, repetindo que não havia nada a temer, e que, se houvesse, aquele seria o momento, de encarar, acabar logo com a angústia. Às vezes, levada pela covardia, sentava no degrau da porta dos fundos, a perscrutar a escuridão iluminada pela lua cheia, no fantasiar dos monstros mais terríveis. De folha temia apenas aquelas venenosas, as que queimavam; urtigas.
Na escola era ávida, que me deixassem os trabalhos todos que sozinha faria, a página a preencher era só minha. Pesquisar, organizar, transcrever me deixava em êxtase, injeção de serotonina! No estudo, me prendia, perdia, achava, sonhava, morria, em todos os voos livros para além do precipício. Cada nova história, novas peles, novas mil vidas. Um mergulhar insaciável, de peito. E, no desenhar de possibilidades, na cabeça sonhava a adulta que seria: veterinária, estilista, jornalista — por conta do Conny, que perdeu apertado pro Veríssimo [o pai, mais que o filho], e de Antares fui cursar história, antes da licenciatura em letras. Que, curiosamente, apesar da minha grande estima, não foi pensando na literatura, mas na edição, na organização do contexto, da escrita. Nem pensar em criação de texto que não fosse o acadêmico, e mesmo assim não sem alguma insegurança, suplício.
Gloria Anzaldúa (2), partindo de suas especificidades, apresenta um contexto que talvez não seja a realidade de todas nós, mas as relações nos permeiam, não é necessário esforço para identificar. Independente de onde viemos, falamos, os padrões, as normas, requerem o uniformizar, ajustar. Se não cabe, tem que cortar, espremer, ou aguar pra render. E se não sabe fazer, não há espaço para aprender, inovar. A estrutura está aí, só precisa se adequar:
Como é difícil para nós pensar que podemos escolher tornar-nos escritoras, muito mais sentir e acreditar que podemos! O que temos para contribuir, para dar? Nossas próprias expectativas nos condicionam. Não nos dizem a nossa classe, a nossa cultura e também o homem branco, que escrever não é para mulheres como nós? O homem branco diz: Talvez se rasparem o moreno de suas faces. Talvez se branquearem seus ossos. Parem de falar em línguas, parem de escrever com a mão esquerda. Não cultivem suas peles coloridas, nem suas línguas de fogo se quiserem prosperar em um mundo destro. [ ] talvez se formos à universidade. Talvez se nos tornarmos mulheres-homens ou tão classe média quanto pudermos. Talvez se deixarmos de amar as mulheres sejamos dignas de ter alguma coisa para dizer que valha a pena. Nos convencem que devemos cultivar a arte pela arte. Reverenciarmos o touro sagrado, a forma. Colocarmos molduras e metamolduras ao redor dos escritos.
De aquém à Virgínia Woolf (3), ser escritora requer abandonar muitos grilhões velhos e fajutos atados aos nossos pés, mas, seja em 1928, 1975, 2000, 2020 ou 2025, a artificialidade do ato, o seu adiar, continua sendo lugar de morada, tormento. O tempo todo nos fazem crer que somos apenas emoção, sem proveito; o peito apenas para o leite; as mãos, para cuidar do rebento; a mente, para a organização do doméstico. Segurar a pena, a caneta, pousar os dedos sobre as teclas com o único objetivo de escrever não traz a inerência da vassoura, da fralda, do fermento…
Eu, como muitas descobri, comecei a escrever noite, por mais que cedo tivesse vorazmente iniciado na leitura, pois no rol das expectativas, as prioridades não incluíam a organização do coração, do lattes… O inesperado parto veio assim, no meio da madrugada de um nove de janeiro, lá em dois mil e vinte e três, recém-chegada de uma longa viagem em família pós-pandemia à cidade que me criou — onde tive muito tempo para ler, pulverizar a mente, pensar, dormir e, pela primeira vez em trinta e cinco anos, planejar algum futuro –, enquanto finalmente conhecia as peripécias sexuais e intelectuais de Hank Moody — o tipo de personagem que sempre me provocou fascínio, mas, até então, não o questionar de sua razão — e me embrenhava nos Anaïs de Nin, Waller-Bridge, Ana Elisa Ribeiro, Conceição Evaristo, Morena Cardoso, Hilda Hilst.
A surpresa de gravidez [hoje] tão óbvia quanto desconhecida veio, na época deduzi, do fato de que, desde sempre, no listar das possibilidades de serências adultas pensar em qualquer coisa que em sua capacidade criativa de um modo geral não se resumisse ao lirismo funcionário público com livro de ponto expediente (4) parecia tão distante e inacessível quanto Beta de Órion. Não era pra mim. Finais felizes de contos de fadas. Arte sequer passou pela cabeça; não paga conta! É coisa pra gente que nasce com dom, mesada. Inocente, não conhecia ainda as outras questões implicadas…
Não que uma contração ou outra já não se tivesse feito sentir… Aqui e ali se manifestaram, discretas. Mas, para quem nunca pariu, aviso, se parecem com gazes. Por isso o susto, quando do nada me parto escritora; na vida, até então, só tinha acompanhado, sempre coadjuvante, leitora. Correlação que felizmente, com o professor e o poeta, aprendi, estava equivocada. Ler é sagrado.
Revisitando os primeiros espasmos registrados, reencontrei aquela já conhecida síndrome: de impostora, vira-lata ou qualquer outro conjunto semelhante nomeado pela medicina, momento. “Talvez” uma pequena herança do papai patriarcado? A[s] minha[s], a[s] nossa[s] síndrome[s]… Bloqueio precoce, antônimo daquela outra, a ejaculação, obstruindo o parir de criatura criadora, não noiva.
“Medo de escrever” foi cogitado como um receio de me revelar no texto: exagerada, desconexa, anômala; e, em parte, não estava errada. Sou tudo isso, mas, acreditava, não havia receio em expressar-me-mostrar. Talvez pela profundidade do poço ainda não alcançada.
Mas, se tem uma coisa que as antigas sempre acertam é que no estudo, com o conhecimento, a vida vai se reescrevendo na entrelinha, ganhando nova leitura, formato. E vamos cruzando por aí com gente de semelhante bagagem, no que, às vezes, rola um extravio, e, quando vemos, levamos pra casa a bolsa da vizinha de leito, e aprendemos a usar novas cores, padrões, floreios; ou não, só mesmo a diferença de endereço.
A intimidade com a nabis ativa abriu portas que jamais imaginei que existissem [#legalizajá!], e, dentro delas, mais portas, com mais portas… portais, janelas e [s/f]endas possíveis. A fissura necessária para que acontecesse o terremoto (5). Então, seguindo a circunferência unicamente de minhas próprias inquietações (6) após muito regurgitar de destroços e implosões, da atração pelos tipos bukowskianos alarguei o espelho, a refletir versões maiores e desmesuradas entrei nos anais de mim e gozei em escárnio o grotesco do saco de pulgas que vi. E antecipando-me à ordem exprimida, des-censurei minha relação com a sexualidade através da escrita (7), como da escrita através da sexualidade, e, no meio do blow job, o de mind: assumindo a fome insaciável de colecionar histórias, me eximi de vivê-las, e, no criá-las, descobri minhas próprias palavras para nomear o [meu] mundo, e tudo o que dele faz parte.
Não sem, claro, a substituir o “eureka!”, um “escritora, eu, como pode?!”.
“Não pode! E a louça? O bebê? A roupa, o almoço? Já sustento a casa, mantenha-se no seu posto!” E a estes não nos submetemos (não podemos!), mas vamos lá, acumulando mais um e outro.
Como para Morena, coragem nunca faltou para ousar e arriscar a existir nos meus próprios termos, a mim só faltava conhecê-los… Reconhecer e aceitar os qualificativos ou depreciativos que me compõem; explorar um sem número de possibilidades criativas até a cabeça doer; reconhecer a intensidade, impulsividade, urgência pelo inédito e pelo emocionante; chorar de rir com as próprias des-graças e desfrutar a partilha de tais deleites com quem as aprecia.
onde há coragem
há de haver liberdade
fez sentir e é onde tenho morado desde então
A edição — porta que me adentrou à poesia, à escrevivência, às infinidades de possibilitudes –, como a escrita, tem reverberado em mim enquanto substantivo feminino que é. Não somente por encontrar nos seus espaços outras pessoas nomeadas mulheres aqui e/ou ali, mas por lê-las mulheres-escrituras de lutas nas quais recorta-se a história de todas as mulheres, sua história pessoal, a história nacional e internacional (8); por ter, no reflexo de seu movimento, vislumbrado guia irrefreável em direção à minha própria definição não definitiva perfeita, cuja marca, como na expansão do verbete (9), se dá pela não resignação à fixidez, uma eterna metatarefa na qual a razão do viver foi encontrada no fazer o que se quer dizer, dizer o fazer, sem alcançar a totalidade, com um pé no desejo e outro na frustração e cujo ganho se mostrou no poder de nomear, dar asas à poesia. To be in_possibilidades.
Poder este que permite, a nós tornadas mulheres, seres subalternizados, como à Ana María Rodas (10), una reapropiación de su cuerpo y de su femineidad, que no pasa por el rosadito que le asignaron al nacer sino por una exploración de sí misma, de su belleza, de su hartazgo, de su cansancio, de sus culpas, arrepentimientos, de sus alegrías y sus deseos. Fazer do nosso corpo, mente e capacidades o que quisermos, transformá-los em armas políticas a lutar pelas nossas subjetividades e prazeres, transgredir a rigidez e a castração social impostas a suas livres vivências. Sermos sujeitas das nossas vidas, não objetos. Sem medos. Do que temos a dizer, ou de sua potência.
A escrita para mim, como para muitas, foi veículo para reconhecer e expressar necessidades latentes do meu corpo, intelectual e sexualmente. Incrível como estão interconectadas… Como a tudo, na verdade, que insistimos em botar em caixinhas, desmembrar. Dividir para conquistar, não é assim, a técnica para submeter, dominar? Mas, como nos lembra Cixous, as belezas já não serão mais proibidas e, de posse dessas consciências, tal como de nossas mentes, bucetas, dedos, dentes, vamos gozando e proclamando nossos transbordos, enredos.
não sonhe
você me disse
o mundo não cabe, não permite
ah, se eu tivesse acreditado em você
não teria dito ao mundo
um belo d’um foda-se
nem me rasgado um espaço
na coragem
no dente
Na convicção de que ler e escrever é um direito dos cidadãos [e cidadãs] que devemos fazer cumprir (11), escrevo hoje, como parte do movimento de me colocar não apenas no papel, como no mundo. A escrita, e principalmente as leituras várias e especialmente de escrituras-mulheres que ousaram desatar o nós de suas vozes, desencadeou em mim, como desejou e conseguiu Morena Cardoso, a morte da mulher adequada que não havia aqui dentro — mas que ainda performava –, e nascimento de uma fera selvagem, selva de raízes vivas (12) e vorazes. Retrorreflexo de potências e coragens. De [re]esistir nos próprios termos. Essências.
sonhei um dia que era livre
fazia e dizia o que dava na telha
acordei com a caneta na mão
e no papel o poema
dona da casa inteira
(1) Cixous, Hélène. O riso da medusa (1975). In: Brandão, Izabel. (Org). Traduções da cultura: perspectivas críticas feministas (1970–2010). Florianópolis: EDUFAL; Editora da UFSC, 2017. p. 129–155. Disponível em: https://dokumen.pub/traduoes-da-cultura-perspectivas-criticas-feministas-1970-2010-1nbsped-9788571778511.html. Acesso em: 5 mar. 2026. Citação p. 129.
(2) Anzaldúa, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Revista Estudos Feministas, [Florianópolis], v. 8, n. 1, p. 229–236, 2000. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/9880. Acesso em: 5 abr. 2026. Citação p. 230, grifos da autora.
(3) Woolf, Virginia. Um teto todo seu. São Paulo: Lafonte, 2020. [1928].
(4) Trecho do poema “Poética”, de Manuel Bandeira.
(5) Cixous, 2017.
(6) Cardoso, Morena. Manifesto Crisálida: escritas subcutâneas. Belo Horizonte: Editora Letramentos, 2022.
(7) Cixous, 2017.
(8) Cixous, 2017, p. 139.
(9) Coutinho, Samara; Castro, Cecília; Ribeiro, Ana Elisa (Coords./Orgs.). Edição, s. f.: um verbete expandido. Belo Horizonte: Quixote+Do, 2022. Disponível em: https://anadigital.pro.br/2023/04/04/edicao-s-f-um-verbete-expandido/. Acesso em: 5 mar. 2026. Citação p. 10–11.
(10) Castro, Ana Valentina Zuliani. Poemas de la izquierda erótica de Ana María Rodas. In: Cabrera, Federico; Perez, Mariana Noel Guerra (Coords.). Crítica literaria y estudios de género en América Latina: perspectivas epistemológicas y metodológicas. San Juan: Universidad Nacional de San Juan. Facultad de Filosofía, Humanidades y Artes, 2025. p. 145–166. Citação p. 157.
(11) Castrillon, Sílvia. O direito de ler. In: O direito de ler e escrever. São Paulo: Pulo do Gato, 2005. p. 15–30. Disponível em: https://issuu.com/pulodogato/docs/pages_from_derecho-miolo. Acesso em: 5 mar. 2026.
(12) Referência ao livro Sou uma selva de raízes vivas, de Alfonsina Storni, poeta e escritora argentina que viveu de 1892 a 1938.
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