alguns trocados
os desaforos que levei pra casa #02
alguns trocados
os desaforos que levei pra casa #02
Continuação do texto “virando a página”.
Conheço Tereza há bastante tempo. Sempre falo que ela é uma das amizades mais antigas que tenho e que nem me lembro onde nos conhecemos. A verdade é que nossa relação começou como qualquer outra e que, naturalmente, acabou se distanciando. Hoje mantemos a confiança mutua e nossas conversas acabam tendo um tom mais de desabafo. De tempos em tempos nos encontramos para bater um papo e tomar uma cerveja. Dessa vez não foi diferente… O fato dela querer marcar para nos vermos naquele mesmo dia me chamou a atenção. Diante de tantos encontros remarcados por compromissos que surgiram em cima da hora, aquela urgência não poderia ter me passado despercebido. O fato é que a agenda de Tereza sempre me pareceu ser muito concorrida, mas a conheço bem para saber que em grande parte das vezes ela estava evitando encontrar alguém que realmente a conhecesse, pois sabia que não conseguiria disfarçar as chateações por muito tempo. Não era novidade para mim que ela já estava cansada de seu trabalho. Tereza sempre foi uma pessoa que se destacou pela sua inteligência e alegria, mas, ao vê-la chegando no bar, pude notar que estava realmente para baixo. O andar meio desleixado, a coluna encurvada como se estivesse carregando um peso muito grande nos ombros, as olheiras marcadas, escuras e fundas não escondiam o que ela tentava internalizar. A curiosidade estava grande, mas tentei não pressioná-la e fui jogando papo fora, falando sobre banalidades e contando as últimas fofocas para quebrar o gelo até que ela se sentisse a vontade para colocar para fora aquilo que a estava incomodando.
Ela enfim havia conseguido um emprego novo! Estava quase completando seu primeiro mês e ainda conseguia expressar aquele entusiasmo contagiante que temos quando ingressamos em uma nova jornada corporativa. Todas as novidades, o ambiente novo, as amizades que estavam sendo criadas — até que enfim ela sentia que todo o seu potencial seria usado de alguma maneira. O novo emprego estava sendo como uma injeção de ânimo, mas não pude deixar de me questionar porque sua fala destoava tanto de sua aparência. Foi então que ouvi a história um tanto quanto traumática de seu processo de desligamento de seu antigo emprego. Tereza me contou sobre toda a angustia que sentiu durante os processos seletivos que participou e como o sentimento de estar sendo rejeitada a fez sentir-se totalmente inferior do que ela realmente era. O tão esperado “sim” chegou, mas o momento de felicidade não durou muito. Depois de contar a novidade para o seu gestor imediato, ele deixou a imaturidade tomar conta e a saiu da sala batendo a porta, declarando que era contra a decisão que ela estava tomando para sua vida — como se, de alguma forma, ela tivesse pedido a opinião dele. Foi para a sua mesa, conformada de que havia sido deixada falando sozinha. O chefe voltou, pedindo para finalizar a conversa que havia terminado prematuramente. Tereza se levantou, meio contrariada, pois estava desfrutando do café da manhã que havia planejado como sua despedida. Voltou ao cenário da cena que, hoje, segundo ela, lhe provoca risos, mas que na hora lhe causou um extremo desgosto. Com uma cara de arrependimento, como uma criança mimada que acaba de perceber que agiu por impulso, ofereceu a proposta aberta de pagar quanto fosse necessário para mantê-la ali por mais tempo. Sem titubear, ela afirmou que sua atitude de buscar uma nova experiência não era baseada em dinheiro, o que desestabilizou o chefe, deixando o impulso imaturo voltar a tomar conta. Alguns desaforos depois e a conversa acabou tendo o mesmo final inconclusivo que a anterior. Tereza resolveu então seguir o que seu coração mandava: ficar mais duas semanas ali, enfrentando o fechamento do ano e ajudando a treinar o seu assistente recém contratado. Viveu aqueles dias a muito contragosto, onde seu racional comprou uma briga com o emocional, sem saber se conseguiria ser beneficiada pelo acordo ou não — se sentia mau por estar ali, mas não considerava justo que a regra não se aplicasse apenas para ela, já que ela mesma se encarregava de preparar os acordos dos outros funcionários que haviam pedido para sair. Foi só no seu primeiro dia no trabalho novo que teve a confirmação de ter conseguido o que queria — o acordo foi aceito! Toda aquela espera, descaso e insegurança a deixaram esgotada. Se viu obrigada a emendar um trabalho no outro, sem tempo algum para o desligamento saudável que uma troca de ciclos precisa. Deixou todo o trabalho de metade do mês adiantado, trabalhando em todas as festas de fim de ano e esperando que seu esforço fosse reconhecido no final. Depois de poucos dias no trabalho novo, conseguiu se desligar totalmente de todas as responsabilidades anteriores e, cerca de quinze dias depois, no dia de sua homologação, foi ao sindicato sem ter o dinheiro da sua rescisão em conta. Se perguntando como deveria agir ao se ver na frente dos papeis da rescisão sem ter recebido o dinheiro que lhe era devido, se lembrou que não era de costume da empresa deixar aquele tipo de pagamento em aberto. Chegou no sindicato e encontrou com o ex-chefe na porta do prédio. Ele, com um sorriso no rosto, fez o comentário debochado de que esperava que ela estivesse mais bem arrumada para o emprego novo. Não podia esperar comentário diferente de alguém que, mesmo jovem, alimenta uma visão ultrapassada e antiquada em relação a utilização de atributos físicos femininos para se destacar no ambiente corporativo e impressionar o público masculino — salto alto, decote, batom, saia curta. Ela ignorou o comentário e, então, perguntou onde estava a contadora que era a encarregada pelas homologações presenciais. Ele respondeu que fazia questão de participar desse processo em especial. Aquela homologação teria algo de diferente em relação as outras ou aquilo seria uma espécie de punição para ela? Seguiram então para a sala onde aconteceria o processo, com um silêncio constrangedor tomando conta do ambiente. Na frente do funcionário do sindicato designado a formalizar o desligamento, o ex-chefe tirou do envelope que carregava na mochila um bolo de dinheiro. Ela estava recebendo o dinheiro em mãos. Sem jeito, Tereza contou rapidamente para checar se a quantia estava certa. Incrédula, começou a imaginar se o ex-chefe realmente acreditava que ela havia mudado de caráter em tão pouco tempo, deixando de ser de confiança a ponto de não devolver a parte do acordo que não lhe era devida. Desconfiado, recorreu à ferramenta que tinha em mãos para voltar com a sua parte do acordo para casa: levar o dinheiro em espécie — mesmo que isso implicasse em fazer uma mulher atravessar a praça da Sé com uma quantia relativamente alta de dinheiro no bolso. Tereza já não tinha mais forças para argumentar, apenas recebeu o dinheiro e, ao sair da sala, separou o que lhe era devido e entregou a outra parte ao ex-chefe, que conferiu se a quantia estava correta e, em tom debochado, riu e guardou o dinheiro no bolso — para ela, aquele dinheiro faria muita diferença, mas, para ele, eram apenas alguns trocados amassados que ficam esquecidos na carteira e, quando nos damos conta, eles se foram e não sabemos bem onde nem com o que. Saíram do prédio e seguiram seus caminhos. Ele em direção ao estacionamento particular na calçada da frente, ela em direção ao metrô mais próximo — cada um para o seu lado, na esperança de que seus caminhos não voltassem a se cruzar tão cedo.
Hey! Que bom que você chegou até o fim :) Não vai embora ainda não… Para ler os outros relatos baseados em fatos reais, clique aqui. Sua história pode virar um texto!! Para ser ouvido, entre em contato comigo por direct ou por e-mail.
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