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Ensaio “Por sobre o oceano pacífico”

O que acham? O que estaremos alimentando um dia, já idosos e vividos, sentados na pracinha?

Davy Albert Dutra de Andrade · 2023-01-25 01:24 · 50 claps · 2.1 min read
#ensaio #amor #pombos #politica #conservador
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Ensaio “Por sobre o oceano pacífico”

O conservadorismo é preocupante. A ideia de preservar, de manter na memória e nos hábitos uma época, por décadas, não é tão ruim até que ela se contradiga. Pensa-se muito sobre pombas, por exemplo. Que os senhores e senhoras parem para alimentá-las na praça com pipoquinha e migalhas de algo, não é de se espantar. O que espanta mesmo é que elas sejam uma praga, animais para desbalancear o ecossistema urbano já tão precário, cada vez mais numerosos. Talvez não se note sua presença até receber um presente dos céus na camiseta tão linda com a qual pretendia ir a uma festa. Aí serão definitivamente notadas.

Hoje, pessoas de 2 gerações atrás cultivam esse hábito, alimentam as pragas urbanas enquanto alimentam na sua mente esperanças de que voltem os velhos tempos. A grande questão, então, é que um dia seremos velhos também, e serão esses os nossos velhos tempos. O que acham? O que estaremos alimentando um dia, já idosos e vividos, sentados na pracinha?

Por sobre o oceano pacífico, ergue-se a estrela fulgurante patriota, e você sorri. Toneladas e toneladas de água dançando, suavemente, tal como se pudessem ignorar o universo de vida, poluição e substratos que abrigam. A tartaruga navega pela corrente em busca de não se sabe o quê, meio grogue, e Jesus anda por sobre as águas. Ora, sobe no horizonte a imagem do Diabo, maligno como o pintara a Igreja Católica um dia, e como os reformistas mantiveram, porque as reformas não podem trazer nada de bom.

E o Diabo me olha, e diz que amei demais. Me condena a algum círculo do inferno de Dante, eu-alma sigo meu caminho inquieto (sendo alma condenada), a Estrela Fulgurante se apaga e ganha maiúscula alegorizante depois de morta; a água está escura, escura, nada é visível; a tartaruga se perde, morre presa em uma sacolinha de mercado. E Jesus afunda, e fala docemente que estão pagos nossos pecados.

“Os meus contam?”

“Não, pois pecou antes dele falar. Está aqui, no parágrafo 6º”

Leio o parágrafo 6º, e volto a olhar o horizonte, enquanto você me olha e sorri.

Se você me amar, te amo como nunca antes o fizeram. Se me beijar, te beijo como nunca antes o beijaram. Ainda no caso de querer viver comigo, eu te daria um sopro do que é a real felicidade, o sopro que estivesse guardado no meu coração. O que eu necessito é do juvenil hábito de reciprocidade, sem o qual há a vontade de mandar todos para onde Judas perdeu a bota. Lula ganhou mesmo, porque houve bolsonaro. Se não, não teria voltado jamais. Sem a beleza alheia não haveria narcisismo. Sem a pobreza, a riqueza é apenas um modo de viver, não um luxo. Hoje, se uma bondade é feita, baseia-se em trocar com algo, com alguém a quem se está fazendo o bem.

Perceberam, não é? Que acabo de descobrir o que estaremos alimentando nas pracinhas. Não há muito tempo para que se chegue esse dia. Os amantes, os últimos românticos, serão as pragas, e estaremos jogando a eles as nossas migalhas de humanidade, em troca de suprir um pouco da carência que nos condena. Estará então corrompida com antipatia a mais simples forma de viver essa vida miserável: amar… verbo intransitivo.


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