Canção ao Corpo Elétrico.
07 de julho de 2026. Não sei ao certo como estou. Desde ontem, talvez devido à nova medicação que venho tomando, tenho me sentido mais…
Canção ao Corpo Elétrico.

07 de julho de 2026. Não sei ao certo como estou. Desde ontem, talvez devido à nova medicação que venho tomando, tenho me sentido mais lento, mais tardio e, de uma certa forma, irritadiço. Movimentos simples, como caminhar um pouco mais rápido, escovar os dentes com mais firmeza, ou qualquer outro esforço físico, parece que tomam uma energia gigantesca do meu cérebro. Meu córtex motor tem respondido com muita lentidão, e logo me irrita a ideia de estar, de uma certa forma, sedado para não deixar meu pensamento ir longe.
Contudo, percebo hoje que a medicação não evita tristeza, mesmo que talvez não saiba ao certo se é realmente tristeza, ou se me aparece como um desânimo. Talvez realmente tenha cara de desânimo. Sinto que meus processos de regulação de humor têm validade expressiva, mesmo atolado de medicações. Sim, atolado de medicações: ao acordar, dois antidepressivos mais 8 gotas de um antipsicótico; à noite, um estabilizador de humor mais 8 gotas de um antipsicótico; e sim, não posso deixar de lembrar de 2 comprimidos de mais um antipsicótico antes de dormir. Outro dia vi uma frase que dizia: “ultimamente minha vida se resume a comprimidos para se manter vivo durante o dia, e comprimidos para dormir durante a noite e aí, no outro dia, comprimidos para se manter vivo”.
Será que estou vivo mesmo? Tem alguma coisa em mim que está viva mesmo? Não sei. Se realmente preciso de tantas medicações para tentar ter um pouco de estímulo de vontade de viver, não sei se isso é realmente viver. Redundante, não é? Ultimamente tenho sido bastante.
Esses dias retornei a ouvir Lana Del Rey, lembrei o quanto lá em 2011 conheci seu trabalho e me tornei bastante ouvinte de música do gênero indie. Fui ao show de Lana no mesmo ano, em 2011, em uma viagem maluca que fiz para São Paulo, e daí fiquei na casa de um desconhecido, que era tio de uma colega que conheci no fã clube de Lana Del Rey no Brasil. Na ocasião, essa tal colega não foi ao show, e eu fiquei sozinho na casa desse tio, que morava na periferia de São Paulo. Foram 3 dias: o dia que cheguei, o dia do show e a ida para casa. Acho que de todas as situações desconfortáveis que vivi, essa sem dúvidas foi a pior. Como estar na casa de um desconhecido, em uma cidade que você nem conhece, para um show em que nem seus pais sabiam de verdade onde eu estava. Lembro que para me deslocar até o Campo de Marte, local onde aconteceu o show, tive que sair muito cedo, porque era uma van, ônibus e, por fim, metrô. Na volta, fiz o mesmo percurso, mas me perdi por ser à noite. Foi a sensação mais terrível que tive, logo após um êxtase maravilhoso que foi ter visto o show da sua cantora favorita.
Me perder de madrugada em São Paulo, em uma cidade que não conhecia, em um local que não fazia ideia de como aceitei ficar lá (não teria que pagar hospedagem, e isso foi o mais chamativo). Naquela época, não tinha um celular sofisticado, as redes sociais não eram tão bem utilizadas como hoje, e qualquer comunicação com rapidez que se pudesse fazer era ligação normal com o celular, já que antigamente o WhatsApp era somente um aplicativo de mensagens normais. Não demorou muito para o tio dessa tal colega me encontrar, e já era madrugada; logo também teria que estar pronto para estar no aeroporto e voltar para casa.
Até hoje recordo desse dia como a coisa mais louca que fiz. Depois do show, mantive contato com algumas pessoas do fã-clube que moravam na Bahia, em Salvador, e falávamos sempre dessa experiência.
Eu tenho tatuada no meu antebraço a frase: “body electric”, ou melhor, “corpo elétrico”. É uma das minhas músicas favoritas da Lana, presente no seu segundo álbum de estúdio, Born to Die: The Paradise Edition. Esse, sem dúvidas, é meu álbum favorito, a sonoridade, os visuais. Lembro que Body Electric é uma referência direta ao poema que leva o mesmo nome, do autor Walt Whitman: “Canto ao corpo elétrico”. Nesse poema, Walt fala do corpo, das suas ligações com outras pessoas, coisas, descobertas, todo o processo que nós seres humanos passamos em vida, do que acreditamos ou deixamos de acreditar, até por si só o findar da vida. Lana retratou tudo isso no clipe Tropico: o nascer da criação de Deus que é representado por Elvis Presley, Maria por Marilyn Monroe, e Jesus, um ator albino que se apaixonava pela Lana. Tropico, sem dúvidas, é meu clipe preferido em vida, já que interliga 3 músicas do álbum de que gosto muito: Body Electric, Gods & Monsters e Bel Air (da criação do corpo e da mente, a luta contra o corpo, seus demônios, suas vontades, a morte, e, por fim, o céu, o encontro com o divino).
Lana sempre foi uma cantora muito expressiva em suas canções, mesmo tendo quase todas as suas músicas refletindo diretamente todos os amores falidos que ela teve na vida. Tinha tatuada em sua mão a frase “Die Young”, ou melhor, “morra jovem”, e em muitas das suas canções estava presente a palavra “morte”. Acredito que foi ouvindo Lana Del Rey que a minha vontade expressa de morrer jovem ficou clara. Como pode uma cantora refletir tanto sobre uma personalidade externa que eu tinha, algo guardado e atenuante, que hoje sabemos o nome que tem.
E é engraçado que há uns bons anos não a escuto com afinco. Seus novos lançamentos… logo eu, que comprava todos os seus CDs originais. Em meu quarto existe um pôster enorme dela no canto de uma das minhas paredes, e faz muitos anos que esse pôster está lá, intacto. E aí hoje parei para ouvir algumas músicas da Lana, tocou Ride, uma canção que já foi até tema de personagem em novela da Globo, mas que não tinha nada a ver com o contexto da personagem em Salve Jorge. Ride fala da vontade insana de viver a vida intensamente, de forma selvagem, sem ter medo do que pode acontecer, das consequências. Fala do medo da solidão e da ausência de lar, de casa, e de que qualquer gota de afeto, qualquer migalha de afeto é lar, se torna casa. Ride fala sobre dirigir, até onde se pode chegar, da paz que não se alcança. Lana sempre muito poética em suas músicas, sempre com a necessidade de explicitar sentimentos que não tinham nomes, que não faziam sentido para alguns. Suas músicas para mim sempre soaram como um tom melancólico que é a vida. Por muito tempo gostava de imaginar o que a Lana sentia para compor cada uma das suas canções.
Parei de ouvir a Lana de forma diária acho que em 2019, mais ou menos. Foi quando meu repertório musical voltou a ser somente música pop. Sempre acreditei que alguns estilos de música externalizavam o que sentia, mas em cantores ou bandas específicos; lembro que até hoje, quando estou muito triste, ouço Avril Lavigne, ou quando muito irritado ou preciso de concentração, ouço Evanescence ou Paramore. Músicas bem específicas.
Voltei a ouvir Lana, não sei ao certo o que hoje isso significa. Mas da mesma forma que “morrer jovem” hoje não faz mais sentido para ela, para mim talvez também não faça. Afinal de contas, hoje, aos 31 anos, não há mais juventude. Voltei a ouvir Lana.
메타데이터
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- 2026-07-10 23:47:57