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Carta para minha Ex madrasta.

Raquel entrou oficialmente na minha vida quando eu tinha 16 anos.

Luh Guedes · 2025-06-23 21:50 · 0 claps · 2.8 min read
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Carta para minha Ex madrasta.

Raquel entrou oficialmente na minha vida quando eu tinha 16 anos.

Mas, pensando bem, nos conhecemos bem antes disso — eu devia ter uns 11.

A minha primeira vez na praia foi com ela. E com os amigos dela também, que me acolheram como se eu sempre tivesse feito parte daquele grupo. Era tudo novo pra mim. O cheiro de maresia, o pé afundando na areia quente, a sensação de estar “em outro mundo” e ainda assim, de algum jeito, ser bem-vinda.

No início, a gente só se via nas férias. Mas quando fui morar com ela e com meu pai, as dinâmicas mudaram — e os embates também.

Ela tentava impor algumas regras que, pra mim, não faziam sentido nenhum.

Lembro de uma cena muito clara: Ela dizendo que as secretárias da casa não deveriam arrumar minhas coisas. Que eu precisava aprender, criar responsabilidade, cuidar do meu espaço.

Mas o que ela não sabia é que eu já tinha aprendido tudo isso — e muito cedo.

Eu fazia bolo desde os 9. Lavava, passava, cozinhava, arrumava casa, cuidava dos outros como gente grande desde que eu era pequena demais.

Aquilo que ela achava que estava me ensinando… eu já tinha vivido na pele.

Então, ao invés de parecer cuidado, soava como exclusão.Porque todos ganhavama tudo na mão e eu não? Como se a minha vivência fosse invisível.

Como se eu ainda tivesse algo a provar — mesmo já tendo provado tanto pra sobreviver.

Raquel sempre teve fama de se atrasar. Acho que ainda tem.Demora pra se arrumar como se fosse um evento. E era mesmo.

Ela fazia da montagem do look um espetáculo silencioso: cremes, base, pó, batom, rímel, cabelo, acessórios.

E eu, taurina e impaciente, achava aquilo um absurdo… mas também observava com uma admiração que eu fingia não sentir.

Hoje sei: aquela demora era o tempo dela se vestir de força pra enfrentar o mundo. E, querendo ou não, aquilo me inspirava.

A gente teve embates. Muitos. Mas teve uma vez que ela me desmontou.

Disse que me invejava.

E eu, adolescente na defensiva, pensei: “Ah não, agora pronto. Inveja de quê?”

Ela respondeu: “Você sabe transitar da favela à alta sociedade. Sabe se portar em qualquer ambiente. Não só é aceita… é querida.”

Na época, aceitei com o ego inflado e o coração fechado. Hoje, aceito com gratidão e olhos cheios. Ela me viu antes de eu me ver.

Teve um dia que ela me levou ao Barro Preto pra comprar roupas. Era pro casamento dela com meu pai. Lembro da liberdade que tive pra escolher os looks — diferentes, ousados, fora da caixinha… exatamente do meu jeitinho.

Ela podia não entender tudo em mim, mas naquele dia ela permitiu que eu me expressasse. E isso ficou.

Com relação ao meu irmão, minha gratidão sempre foi enorme. Ela o criou com amor e entrega. Eu só não concordava com tudo da criação — achava que ela, às vezes, deixava ele fazer o que quisesse pra compensar a ausência causada pelo trabalho.

Mas hoje entendo: ela carregava o mundo nas costas. E tentava equilibrar como podia.

Eu tinha tempo livre. Ela, não. Então eu brincava, dava bronca, cuidava, cobrava. Mas ela… ela era a mãe. E foi uma mãe linda.

Recentemente, quando soube do câncer de mama, fiquei paralisada. A notícia bateu em mim como um soco. Foi um lembrete bruto da importância dela na minha vida. A vida podia ter usado um bilhetinho doce, né? Mas resolveu usar um furacão.

Desde então, tenho tentado ser mais presente. Mando mensagens. A gente troca áudios com afeto. E é bonito ver que, mesmo com tanto entre nós, ainda há espaço para o amor. Ainda há espaço para a reconstrução.

Raquel, se algum dia essa carta chegar até você, quero que saiba: Você me marcou profundamente.

Com erros e acertos, sim — como qualquer relação humana. Mas com generosidade, força e uma beleza que só agora consigo enxergar inteira.

Obrigada por não ter desistido de mim. Obrigada por ter amado o Gabriel tão bem. Obrigada por ter me mostrado, sem querer, que uma mulher pode se montar pra enfrentar a vida — e ainda assim continuar sendo sensível por dentro.

Você foi — e é — uma mulher admirável.

Hoje, eu te amo. E não é do meu jeito. É do jeito que eu deveria ter te amado e demonstrado desde sempre.

Com carinho, Luh


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