Discografia Comentada: Alice Cooper (Parte II)
Por Marcelo Magosso

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Discografia Comentada: Alice Cooper (Parte II)
Por Marcelo Magosso
Na primeira parte da discografia comentada de Alice Cooper, o foco foi os tempos do Alice Cooper Group. Neste texto, começaremos a falar sobre a sua extensa discografia solo, que começou em 1975 e segue firme até o presente, sem prazo para acabar.
Welcome to My Nightmare (1975)

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O primeiro trabalho solo de Alice, foi também seu projeto mais ambicioso, até então. Concebido como um espetáculo grandioso e multimídia, a ideia por trás de Welcome to My Nightmare era criar algo sem precedentes no mundo do rock and roll.
Após o lançamento da coletânea Greatest Hits, o Alice Cooper Group encontrava-se em um momento em que todos os seus integrantes voltaram suas preocupações para projeto pessoais. Aproveitando a cicunstância, Vince (que mudara seu nome oficialmente para Alice Cooper), junto com o produtor Bob Ezrin começaram a trabalhar no conceito do disco. O álbum foi lançado pela gravadora Atlantic Records, o que poderia ter sido um problema já que havia um contrato vigente com a Warner. Para evitar entraves contratuais, foi ao ar um especial de TV chamado The Nightmare. O disco seria, então, uma pseudo-trilha sonora.
O álbum é considerado até hoje uma de suas principais obras. Em termos líricos, o disco traz o todo conceito do pesadelo, centrado na figura do personagem Steven. Alice revisitaria esta persona inúmeras vezes ao longo de sua carreira.
O álbum todo é excelente, mas vale destacar a climática faixa título, a pesada Black Widow, que conta com uma locução sensacional do ator Vincent Price, o megahit Only Women Bleed e a teatral Steven.
A parte instrumental do disco tem como destaque as guitarras de Steve Hunter e Dick Wagner, sendo este último coautor da maioria das faixas, junto de Alice e Ezrin.
Goes to Hell (1976)

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Já com o grupo original totalmente desfeito, Alice segue sua carreira solo com outro disco conceitual. Goes to Hell, como o nome indica, narra uma viagem do próprio Alice Cooper ao inferno, que é uma enorme danceteria onde todos têm que dançar para pagar por seus pecados e a única maneira de conseguir escapar é encontrar um arco-íris.
O álbum tem ótimos momentos, como na pesadíssima Go to Hell, a soturna I’m the Coolest, cantada pelo “próprio diabo”, a bela balada I Never Cry, a divertidíssima Give the Kid a Break, onde Alice tenta negociar com o demônio, e Wish You Were Here, que conta com um trabalho de guitarras primoroso.
Ao contrário do que aconteceu no lançamento do disco anterior, a turnê de Goes to Hell se resumiu a apenas seis shows, pois o problema de alcoolismo de Alice se agravava a olhos vistos e ele não conseguia se apresentar ao vivo.
Duas coisas que podem ser percebidas em Goes to Hell passariam a ser constantes na carreira do cantor: as baladas e o bom humor das letras.
Lace and Whiskey (1977)

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Lançado no ano do auge da disco music e do punk, um disco de Alice Cooper poderia ser tudo aquilo que o mercado não gostaria. Eu disse poderia, pois, mais uma vez, apoiado por uma balada de sucesso, o disco conseguiu vender bem. No entanto, nem tudo andava tão bem para o vocalista.
O conceito do disco foi concebido como um “romance policial”, cujo protagonista era um detetive particular chamado Maurice Scargot. O humor se fez presente de forma bastante nítida, também, na turnê que, entre outro exageros, contava com galinhas gigantes atirando com metralhadoras.
Em termos musicais, Alice continuava com o mesmo produtor e a mesma banda, mas é perceptível uma mudança de direcionamento na sonoridade. O disco conta com ótimos rocks, como It’s Hot Tonight e Road Rats, mas é nítida a guinada para sons mais comerciais. O melhor exemplo disso é a inclusão de uma faixa disco, (No More) Love At Your Convenience, que é no mínimo irônico, já que Alice sempre deixou claro que abominava o estilo. Entre erros e acertos, é possível apontar a interessante faixa título e a bela balada You and Me, cuja letra trata de um amor cotidiano e totalmente sem glamour, mas que dialoga com a rotina da maioria das pessoas.
From the Inside (1978)

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From the Inside pode ser considerado uma obra única dentro da discografia de Alice Cooper. Pela primeira desde 1970, Bob Ezrin não teve participação nos trabalhos. O disco teve a produção assinada por David Foster, mas a grande novidade foi a participação do letrista Bernie Taupin, famoso por sua parceria com Elton John.
O disco traz uma sonoridade com muita ênfase nos teclados, diversas baladas, e um clima bastante dramático em diversas canções. Em termos de letras, a obra foi uma verdadeira sessão de terapia. Alice havia sido internado em um clínica para tratar do seu vício em álcool e, segundo o próprio, vários personagens que aparecem nas letras são baseados em internos que ele conheceu, como Millie and Billie, Nurze Rozetta e Jackniffe Johnny. As faixas mais roqueiras são I Wish I Were Born in Beverly Hills e Serious. Um detalhe curioso é que a música How You Gonna See Me Now chegou a ter um videoclipe, num tempo em que nem se imaginava que um dia existiria MTV.
Dick Wagner continuou trabalhando com Alice, mas outro parceiro de Elton John, o guitarrista Davey Johnstone, passaria a fazer parte da banda. Além dele outras participações ilustres no disco são Flo and Eddie, Kiki Dee, Steve Lukather e Rick Nielsen.
A arte da capa traz uma imagem de Alice Cooper que se abre como um portão, revelando a parte interna de um sanatório onde há uma porta com os dizeres Quiet Room, que, ao ser aberto, mostra Alice internado. Na parte de trás há uma outra porta, que mostra diversos internos saindo. A canção Inmates (We’re All Crazy) foi dedicada ao seu amigo Keith Moon, falecido em setembro de 1978.
A turnê foi novamente grandiosa, com um palco que simulava uma clínica e dançarinos vestidos de garrafas de bebida alcoólicas, numa clara referência ao seu vício. Por falar em vício, neste período Alice começaria a fazer uso de cocaína, mas ao contrário do que ocorreu com o álcool ele só iria tornar público este vício muitos anos depois, com o lançamento do documentário Super Dooper Alice Cooper.
Flush The Fashion (1980)

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O começo da década de 1980 foi um período bastante turbulento, tanto para o homem, quanto para o artista Alice Cooper. Após o enorme sucesso do grupo original e um começo de carreira solo ambicioso, e de bastante sucesso - em grande parte por conta das baladas -, Alice viu na década que começava uma chance de se reinventar. O resultado disso, infelizmente, foi o acumulo de problemas pessoais e uma carreira que parecia perto do fim.
Quando Flush the Fashion foi lançado, em 28 de abril de 1980, causou um grande espanto em todos, com seu direcionamento totalmente alinhado com a sonoridade da new wave que dominava o cenário musical da época. Além disso, o visual, sem nenhum dos excessos até então característicos, mostrava Alice de cara limpa. Quanto às letras, elas ainda eram bastante afiadas, mas desta vez não tratavam de um único conceito.
Ainda que tenha causado um estranhamento inicial nos fãs, o álbum possui ótimos momentos Talk Talk (cover do grupo Music Machine), o single Clone’s (We’re All), que foi o maior sucesso do disco, vários bons rocks como Grim Facts, Model Citizen e Dance Yourself to Death, além de uma pérola quase esquecida, mas que é uma das melhores canções de sua carreira: Pain.
O disco foi produzido por Roy Thomas Baker e a maioria das faixas foi composta por Alice, juntamente com os guitarristas Davey Johnstone e Fred Mandel.
Special Forces (1981)

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Aqui começa o período que Alice descreve como sendo seu “blackout”, já que, segundo suas palavras, ele não se recorda da gravação de nenhum dos discos do período entre 1981 e 1983. Com uma banda totalmente reformulada, e sem grandes nomes, Alice segue com um pé na new wave e adota uma imagem de militar drag que pouco colabora para recuperar sua popularidade.
Musicalmente, e aqui escrevo como fã, creio que Special Forces é o pior álbum de toda a sua carreira. O disco até começa bem, com o excelente hard rock Who Do You Think We Are, e tem outros bons momentos em faixas como a engraçada Pretiest Cop on The Block, Don’t Talk Old To Me, You Look Good in Rags e Vicious Rumours. O restante do disco oscila entre faixas pouco memoráveis e alguns momentos bastante ruins, como o cover de Seven and Seven Is (Love), a regravação desnecessária de Generation Landslide e a péssima Skeletons in the Closet.
O disco teve uma turnê que rendeu um especial de TV na França e que ficou marcada por ser a última, antes de um hiato que só seria encerrado na segunda metade da década de 1980.
Uma curiosidade sobre este álbum é que ele teve uma faixa listada na relação de músicas que não foi prensada no vinil, porém como a capa já estava pronta, o erro ficou eternizado. O nome da música é Look at You Over There, Ripping the Sawdust from My Teddy Bear e ela só viria a público com o lançamento do box The Life and Crimes of Alice Cooper, em 1999.
Zipper Cacthes Skin (1982)

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Imagine a seguinte cena: Alice Cooper é reconhecido por um jornalista no mictório de um banheiro masculino e, de repente, diversas pessoas começam a entrar no sanitário para perguntar sobre o novo álbum, quando Alice acidentalmente prende o dito cujo no ziper da calça e diz, “acho que eu tenho um novo título para o disco”. Pois é, por mais absurda que possa parecer a situação, este foi um comercial de TV da época em que Zipper Catches Skin foi lançado. Você pode conferir o vídeo cômico/constrangedor abaixo.
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Tudo isso serve para ilustrar a situação caótica em que Alice se encontrava em todos os aspectos de sua vida. O vício em álcool retornou de forma violenta e, somado à cocaína, deixou tudo fora de controle.
Musicalmente, Zipper não apresenta grandes mudanças em relação à qualidade das músicas que Alice vinha compondo. A sonoridade, desta vez, assume uma aura quase power pop, como pode ser percebido em músicas como I Am the Future, que fez parte da trilha sonora do filme Os Donos do Amanhã. Os bons momentos podem ser encontrados na faixa já mencionada, no ótimo hard rock Make That Money (Scrooge’s Song), na pesada No Baloney Homosapiens, além das divertidas Adaptable (Anything for You) e Tag, You’re it.
Sem shows de divulgação e com pouco interesse por parte da gravadora, Zipper Cacthes Skin foi um fracasso de vendas e sequer teve suas músicas tocadas ao vivo em turnês posteriores.
Dada (1983)

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Dada é uma obra negligenciada na discografia de Alice Cooper. Lançado em 28 de setembro de 1983, o disco marca o retorno do produtor e parceiro de composição Bob Ezrin, bem como tem participação ativa de Dick Wagner, que grava todos as guitarras e também o baixo. A bateria do disco foi, em sua maior parte, criada através de um computador C.M.J. Fairlight.
O disco tem uma forte influência, como o título deixa claro, do movimento dadaísta. Os temas do álbum giram em torno de um personagem chamado Sonny que, ao que tudo indica, sofre de transtornos mentais responsáveis pelas múltiplas personalidades, materializadas nos diferentes protagonistas das diversas faixas.
A música de abertura, Dada, é uma faixa muito sombria, construída sobre melodias de teclados e sintetizadores que remetem à obra de Giorgio Moroder em seus momentos mais experimentais. Um diálogo sussurrado ao fundo e uma voz de criança repetindo constantemente “dada…dada…dada”, dão conta de criar um clima tétrico, como há muito Alice não apresentava em seus discos. Outros destaques são: a pesada e dramática Scarlet and Sheba, que traz ecos do álbum From the Inside, I Love America, que ao contrário do que o título pode sugerir, é mais uma crítica ao americano médio, do que um hino ufanista, Flesh Blood com seu groove de baixo marcante, e a dramática Pass the Gun Around, com uma letra que fala sobre suicídio de maneira bastante explícita e fecha o disco com o barulho de uma arma disparando.
Aqui é necessário um parágrafo especial para tratar da espetacular Former Lee Warmer, que não apenas é a melhor do trabalho, mas também uma das melhores de toda a carreira de Alice Cooper. Além do trocadilho do título com a condição de futuro ex-contratado da gravadora Warner (fomerly Warner), a música fala de um personagem decrépito e sinistro que vive trancado na parte de cima de uma casa, e tem uma arranjo matador, com Alice entregando uma de suas melhores interpretações.
Sem gravadora e com um quase-divórcio de sua esposa Sheryl, Alice tira o pé do acelerador, dá uma pausa em sua carreira e se interna novamente em uma clínica de reabilitação, de onde sairia sóbrio, desta vez em definitivo. Seu retorno ocorreria de forma efetiva somente em 1986, com o lançamento do álbum Constrictor. Mas isto é assunto para a próxima parte desta discografia comentada.
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- 2026-08-05 17:40:28