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Yorgute, um manifesto

Uma rede social sem algoritmo, feita por poucas mãos, pra trazer de volta a leveza da internet que a gente amava.

Natasha Kaweski in UX Collective 🇧🇷 · 2026-07-08 10:26 · 30 claps · 7.4 min read
#redes-sociais #nostalgia #tecnologia #ai #design
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Yorgute, um manifesto

Uma rede social sem algoritmo, feita por poucas mãos, pra trazer de volta a leveza da internet que a gente amava.

Logo do Yorgute

Logo do Yorgute

Há alguns meses venho sentindo essa pulsão criativa. Essa vontade de fazer arte real, de escapar do jeito como a tecnologia funciona hoje.

Sinto uma necessidade real de não burlar qualquer passo do processo. Sinto que vivo e só faço o que eu acredito. Do contrário, eu seria simplesmente “poser”.

Criei na minha cabeça uma nostalgia pura do que já me fez muito feliz, um espaço que eu ocupava e pertencia. Eu podia ser quem eu era naquele momento e eu estava ali. A tecnologia era feita pra ajudar, e não pra te supervigiar.

A internet era quebrada e a gente gostava mesmo assim. Bugs viravam features em cada lugar, e exigia de pensamento crítico e criativo, tanto pra quem usava quanto pra quem criava.

Os emoticons, por exemplo, representavam algo: você, ou algo ou alguém. Decorava-se os que mais se usavam. Havia intenção de procurar como representar as coisas com caracteres especiais.

Janela “My Emoticons” do MSN Messenger, com uma grade de emoticons amarelos e os códigos de texto que os representam, tipo :D, :P e (H).

Janela “My Emoticons” do MSN Messenger, com uma grade de emoticons amarelos e os códigos de texto que os representam, tipo :D, :P e (H).

Enfim, tô falando tudo isso no auge do meu privilégio, com um saudosismo que vai além de uma nostalgia burra. Ele percorre desde o desespero de não estar aguentando mais até a vontade de tentar trazer o sossego de volta.

E não é só saudade. Tem gente sofrendo de verdade com o rumo que essa tecnologia tomou. Como casos extremos onde a inteligência artificial pode ser responsabilizada pelo suicídio, desde adolescentes a adultos.

Não foi pra isso que jurei usar meu conhecimento pro bem da sociedade lá na faculdade de Ciência da Computação quando me formei, e eu real tô aqui é pra ajudar.

Não que alguém precise desse tipo de ajuda, quanto mais a minha, mas decidi fazer algo com todo esse desconforto, e que quero contar neste texto.

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O movimento

Juntei tudo que sei, pesquisei sobre os temas do meu interesse, aprendi várias coisas novas, listei o que mais quero aprender, anotei e redigi minhas reflexões e textos, joguei tudo numa sopa e criei o Yorgute. Você pode ver mais detalhes do projeto no meu portfólio.

Logo do Yorgute no Figma.

Logo do Yorgute no Figma.

Hoje o Yorgute é meu ponto de partida da nostalgia da internet como memória que quero trazer de volta pra mais gente além de mim.

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O processo

Uma coisa que eu não queria era que isso virasse só nostalgia bonita de gente que acha que “antigamente era melhor”. Então li um tiquin.

Fui atrás da **Raquel Recuero* que estudou o Orkut, weblogs e fotologs lá atrás, quando ninguém ainda tratava rede social como objeto sério. Encontrei ela numa pesquisa sobre rede social desde lá atrás até hoje em dia. Ela não sabe, mas me ajudou a entender que o que eu sentia falta tinha nome: laços e pertencimento*.

Não era só a interface que fazia a gente feliz, era o tipo de vínculo que ela permitia. E a limitação gerava mais pertencimento, porque o controle tava na sua mão de toda forma.

Li o livro Nexus, do Harari, pra entender como a informação vira poder e como os sistemas que a gente cria acabam nos moldando de volta. Li sobre os ladrões de atenção da vida moderna, esse projeto todo de te aprisionar na tela o máximo de tempo possível.

Li também coisas mais duras: estudos sobre o impacto das redes sociais na saúde mental de adolescentes. Não dá pra fingir que isso não existe. É parte de por que o Yorgute precisa ser diferente.

E teve um caminho mais esperançoso: as redes comunitárias — essa ideia de que dá pra construir internet de baixo pra cima, com a gente mesmo, sem depender das plataformas gigantes de bilionário que você já sabe quem é, e isso me deu muito gás.

Não tô falando tudo isso pra parecer inteligente ou me gabar de alguma coisa (sou muito preguiçosa!). Tô citando porque cada leitura dessas foi um “ah, então não sou só eu”.

Cada uma virou um pedaço aqui no Yorgute: sem algoritmo manipulador, sem feed infinito; texto e memória primeiro, e uma linguagem que é a nossa mesmo, brasileira 🇧🇷. Não ficou só na ideia e no desconforto.

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O que construí até aqui

Em poucos meses, o Yorgute saiu do papel e virou uma rede social viva, que muda quase toda semana (sim, eu tô “onfire”).

Cada versão foi uma escolha pequena de como essa internet deveria ser, no meu achismo. E agora fica um resumo do caminho:

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Os primeiros espaços vivos (versão beta em maio)

Os Espaços (que são nossas “comunidades”) e a Boca do Povo (que é nosso “xwitter”), o coração social do Yorgute, ganharam vida. Entrar numa conversa, seja num espaço ou na sua região, ficou simples: digita, aparece, responde.

Um espaço do Yorgute Design dentro do Yorgute. 💛

Um espaço do Yorgute Design dentro do Yorgute. 💛

Darkmode em junho (e versão oficial saindo do beta)

Foram duas semanas intensas! Aproveitei as férias pra trazer melhorias pra plataforma. Chegou o Darkmode (você escolhe, o Yorgute lembra), um calendário de atividades que é quase um diário de participação (igual no GitHub, sabe?), o perfil repaginado, a busca em qualquer página com filtros mais inteligentes, e esta própria página de Novidades, feita pra contar tudo que muda por aqui sem linguagem técnica.

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Cole um link e ele vira anexo

Vídeo do YouTube, faixa do Spotify, imagens, link de qualquer site, GIFs do Giphy e outros. É só colar no comentário que o Yorgute reconhece e monta a prévia, tocando ali mesmo. Até quatro coisas lado a lado, na Boca do Povo e nos fóruns também.

Parece pouca coisa, mas pra mim, sozinha, foi um avanço danado!

Aba “Meus comentários” de um perfil no Yorgute, com uma grade de mídias (vídeos, imagens e GIFs) e as laterais de amizades e espaços

Aba “Meus comentários” de um perfil no Yorgute, com uma grade de mídias (vídeos, imagens e GIFs) e as laterais de amizades e espaços

Mais rápido e mais resistente

Troquei toda a base de dados por baixo dos panos. Foi o maior ganho até agora, na minha opinião! Carrega mais depressa e não cai mais nos picos de acesso, tipo quando rola uma campanha.

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Notificações mais claras e o caderninho

Ao abrir as notificações, você vê só o que é novo, separado do que já viu por dia. E chegou o Caderninho, um baralho de palavras nossas de cada dia: iogurte virou yorgute, e ainda tem trabaiá, uai, pobrema, mortandela.

Compartilhamento pra outras redes sociais

O botão de compartilhar perfil e espaços ocupados, e a página inicial ganharam abas de Atualizações. Você escolhe o que quer ver: o que tá rolando, o que suas amizades publicaram, o que mexeu com você. Tudo em ordem do mais recente. Sem algoritmo.

Exemplo de compartilhamento de perfil do Yorgute

Exemplo de compartilhamento de perfil do Yorgute

Entrar ficou fácil e os Espaços mais organizados

Dá pra entrar com o Google agora (tamo ficando xike) e pra quem já é de casa, aparece aquele “toque pra entrar” rapidinho. A busca de localização virou instantânea, já sugerindo os lugares mais populares enquanto você digita. E os Espaços foram repaginados com abas, filtros e ordenações. Por baixo dos panos, as fotos passaram a morar no lugar certo, deixando tudo mais leve.

Tela “Meus espaços” do Yorgute no escuro, com abas, filtros de ordenação e uma grade de espaços com capas.

Tela “Meus espaços” do Yorgute no escuro, com abas, filtros de ordenação e uma grade de espaços com capas.

E muito mais! Tem coisa que nem cabe aqui: paginação numeradinha no lugar do “carregar mais” (eliminando infinity scroll), uns ajustes de contraste no escuro, correção daqui, mais velocidade dali. Todo dia vem uma ideia nova!

Sem algoritmo. Sem briga por quem aparece mais. Sem anúncio e propaganda. Cada uma dessas linhas foi construída por pouquíssimas mãos, e é fácil dar manutenção nelas hoje (a gatah coda y coda).

E isso me leva à parte que talvez você tenha curiosidade pra saber.

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E a inteligência artificial?

Uma parte de mim, querendo usufruir dos mesmos meios das grandes empresas de tecnologia tenebrosas, me fez querer usar ferramentas de IA pra me ajudarem na minha rede social. Hoje posso dizer, sem me sentir hipócrita, que utilizei um pouco de Codex no início e hoje trabalho utilizando Claude como ferramenta, e não substituto do meu trabalho (ou Cláudia, como apelidei carinhosamente).

O Yorgute não é um “não às ferramentas de tecnologia”, mas um “vamos tomar os meios de produção” e usar essas ferramentas pra criar algo que não nos destrua, um lugar calmo pra descansar.

Do front ao back-end, do banco de dados às ferramentas de produção e manutenção. Do que vi na teoria na faculdade há anos atrás, às experiências como desenvolvedora por anos.

Com ferramentas como a Cláudia (hahaha), consigo validar e consolidar tudo isso, com as minhas ideias, disposição e vontade de fazer algo legal pra todo mundo. Foi um grande ganho de tempo, no fim, pra criar algo que eu sempre quis. Acho que aprendi a usar essa coisa de alguma forma.

Qualquer idiota faria isso, mas eu fui a idiota que fui lá e fiz.

— Kaweski, Natasha 2026

Vamos recriar essa internet sem algoritmos de manipulação, sem essa briga por quem aparece mais, sem anúncios e propagandas.

Leveza, é isso. Seja bem-vinde à minha rede social :)

Se você está passando por um momento difícil ou pensando em se machucar, você não está sozinhe. No Brasil, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende 24h pelo telefone 188, ou pelo chat em **cvv.org.br.**

O que li pelo caminho

Se você quiser entrar nessa comigo, aqui está o que me fez movimentar pra entender melhor do tema. Não precisa ler tudo, mas se bater a curiosidade, é por aqui que eu caminhe:

E, claro, a memória afetiva do Orkut. Essa não tem citação, mas foi ponto de partida como qualquer uma das outras.


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