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Jogar para entender a misoginia dos homens: NewsGames, Arquitetura de Decisão Informada, o adulto…

A colunista do UOL distinguiu o que o debate feminista costuma confundir: justiça simbólica não é mudança real

Geraldo A Seabra · 2026-04-08 10:13 · 0 claps · 3.6 min read
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Jogar para entender a misoginia dos homens: NewsGames, Arquitetura de Decisão Informada, o adulto Neymar e o argumento fora da curva de Milly Lacombe

A colunista do UOL distinguiu o que o debate feminista costuma confundir: justiça simbólica não é mudança real

A Teoria Geral dos NewsGames parte de uma premissa simples e poderosa: jogos são formas de informação, educação, cidadania e conhecimento. Quando Ian Bogost e seus colaboradores sistematizaram o campo, o argumento central era que o jogo não apenas narra — ele simula.

Ao controlar uma variável, falhar numa consequência, refazer uma escolha, o jogador incorpora a lógica de um sistema de um jeito que a leitura passiva nunca alcança.

Sob o prisma dos newsgames, isso se traduz em colocar o usuário dentro da estrutura de um problema social: o jogador não lê sobre desigualdade ou preconceito — ele sente a pressão das escolhas que a desigualdade impõe.

Arquitetura da decisão informada desconfia do punitivismo

Esse poder de simulação tem um paralelo direto com a ideia do arquiteto da decisão informada — conceito proposto pelo autor da Teoria Geral dos NewsGames, Geraldo A. Seabra, derivado da economia comportamental de Thaler e Sunstein e popularizado no Brasil por discussões sobre políticas públicas e comunicação de risco.

O arquiteto da decisão não proíbe nem obriga: ele redesenha o contexto em que as escolhas são feitas, tornando as opções mais saudáveis ou éticas as mais naturais, acessíveis e compreensíveis.

Um cardápio que começa pelas saladas, como deveria ser. Uma urna eletrônica que pede confirmação antes do voto, antecipando os efeitos — e desvios — de uma escolha. Uma campanha que revela as consequências antes de enunciar uma norma.

A conexão entre os dois conceitos é que nenhum deles confia no punitivismo como mecanismo de mudança social. O jogo não pune o jogador por não entender — ele o conduz à compreensão pelo percurso civilizatório. O arquiteto não pune o consumidor por escolher mal — ele reposiciona o cenário. Ambos apostam na compreensão como agente de transformação.

A necessidade simbólica de punição não muda a realidade

É exatamente aqui que o argumento de Milly Lacombe em sua coluna no UOL sobre Neymar se encaixa com precisão quase teórica.

Ao dizer que é contra a punição pela declaração misógina do jogador — de que o árbitro teria errado porque “estava menstruado” — , Milly não está minimizando a misoginia.

Está aplicando, intuitivamente, a lógica do arquiteto da decisão informada: uma suspensão, uma multa, um registro disciplinar satisfazem a necessidade simbólica de punição, mas não redesenham o contexto interno do Neymar cidadão.

Por mais dura que possa ser a pena, o ex-menino sairá dela com exatamente a mesma estrutura cognitiva com que entrou.

A proposta alternativa — penas que envolvam educação, convivência supervisionada com grupos afetados pela misoginia, trabalho comunitário junto a organizações de mulheres no esporte — é, na linguagem dos NewsGames, colocar o infrator dentro do jogo informado.

E fazê-lo dançar até aprender a dançar uma valsa sem pisar no pé da parceira.

Simular para compreender

Trata-se de fazê-lo simular, mesmo que a contragosto, a perspectiva que ele não consegue acessar por abstração social, ética ou moral.

É arquitetar uma situação em que a compreensão se torna mais provável do que numa sala de julgamento simbólico — onde, muitas vezes, os próprios julgadores também carecem de um entendimento mais profundo sobre o que significa pensar coletivamente, especialmente em relação aos mais frágeis socialmente.

O risco do punitivismo puro, como Milly aponta, é que ele serve mais aos espectadores do que à solução do problema.

Eis um dos grandes equívocos que tem marcado parte do debate feminista: do ponto de vista do imaginário punitivista, todo homem considerado hétero está “morto socialmente”.

E o que essa escalada tem nos levado?

Precisamos de arquitetos de decisão, não de tribunais simbólicos

Na prática, o punitivismo por si só gera a sensação de que algo foi feito — e essa sensação frequentemente desacelera o impulso por mudança mais profunda.

Nos termos da teoria dos NewsGames, é como um jogo que premia o jogador por clicar no botão certo sem nunca exigir que ele entenda por que aquele botão existe. A mecânica está lá, mas a aprendizagem não aconteceu. Não mudou nada.

O esporte brasileiro precisa de arquitetos de decisão mais do que de tribunais simbólicos.

Precisa de experiências que alterem a estrutura de como jogadores, dirigentes e torcedores processam a presença das mulheres no futebol — como árbitras, como atletas, como jornalistas, como torcedoras.

Como seria um newsgame sobre misoginia no esporte?

Um newsgame bem desenhado sobre misoginia no esporte poderia fazer mais do que cem suspensões.

Porque forçaria o jogador a habitar, mesmo que virtualmente, a posição de quem é constantemente deslegitimado por seu corpo.

Neymar não precisa de uma punição que vai virar trending topic por 48 horas e não vai mudar absolutamente nada na cabeça de ninguém — a começar pela dele.

Precisa de uma experiência que torne a misoginia incompatível com sua autoimagem.

Isso é design de decisão informada.

Isso é elevar o jogo informado a um status que os games como mero entretenimento nunca alcançaram: promover conhecimento e autoconhecimento.

No fundo, é isso que Milly Lacombe propõe ao recusar o punitivismo fácil e conveniente: algo mais lento, mais difícil — e infinitamente mais eficaz.

Parabéns, Milly Lacombe.

Temos o prazer de lhe conferir o título de Arquiteta da Decisão Informada do Ano.

Confira mais no Blog dos NewsGames


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