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Projeto da UFRRJ estuda potencial de alterações genéticas da planta Ora-pro-nóbis de flor rosa

Dona Raqueline de Castro, de 54 anos, moradora do bairro Jardim Metrópole em São João de Meriti, tem um hábito simples após as missas aos…

Maria Railane Rillary Silva de Brito · 2025-07-17 17:00 · 100 claps · 4.2 min read
#pesquisa #ufrrj #ora-pro-nobis #plantas #saúde
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Projeto da UFRRJ estuda potencial de alterações genéticas da planta Ora-pro-nóbis de flor rosa

Dona Raqueline de Castro, 54 anos, moradora do bairro Jardim Metrópole em São João de Meriti, tem um hábito simples após as missas aos domingos: colher algumas folhas de Ora-pro-nóbis do quintal da igreja Santa Rita de Cássia e como vem no caminho para casa. “Faz bem à saúde”, afirma com verdade. A planta, que é cercada de simbolismo religioso, também é alvo de um estudo científico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) que busca compreender a dosagem segura para consumo.

Popular em muitas regiões do Brasil, a Ora-pro-nóbis — cujo nome vem do latim “rogai por nós” — teria recebido essa denominação, segundos relatos antigos, porque era colhida por fidelidade no quintal de um padre enquanto ele rezava. Na verdade, o termo é usado para se referir a diferentes espécies de plantas. Uma delas é a Pereskia grandifolia, conhecida como “Ora-pro-nóbis de flor rosa”, utilizada em pesquisa coordenada pela professora Viviane Moreira de Lima, do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS) da UFRRJ.

Professora Viviane Lima coordenadora do projeto

Professora Viviane Lima coordenadora do projeto

Os estudos foram realizados em 2024, motivados pela curiosidade da então aluna Jennifer Vieira Gomes, hoje doutoranda na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Jennifer tinha em casa um pé de Ora-pro-nóbis da espécie Pereskia grandifolia , consumido por sua mãe. “As folhas e frutos dessa espécie são comestíveis, mas ela ainda precisa de estudos relacionados à toxicidade e segurança”, afirma a professora Viviane. A partir dessa observação surgiu a proposta do projeto.

Uma pesquisa investiga se os extratos da planta têm potencial genotóxico — ou seja, podem provocar mutações ou alterações no DNA. Para isso, os pesquisadores do projeto utilizam raízes de cebola ( Allium cepa ) como modelo experimental, por serem altamente sensíveis a alterações no material genético e acessíveis em laboratório.

Sistema Allium cepa

Sistema Allium cepa

Para fazer uma investigação, as raízes estão expostas a diferentes soluções: água destilada (controle negativo), uma substância mutagênica (controle positivo) e extratos aquosos da Pereskia grandifolia , em diversas concentrações. Depois, são observados no específico para identificar possíveis alterações nas células e nas fases de divisão celular. Também é aplicado o teste do “DNA cometa”, uma técnica de eletroforese que revela o nível de fragmentação do DNA — quanto maior o rastro deixado na lâmina, maior o dano genético.

“A ideia é traçar um perfil mais completo da Pereskia grandifolia e contribuir com dados sobre seus efeitos. O uso prolongado de plantas com potencial genotóxico pode causar mutações e até citotoxicidade, ou seja, a morte de células”, explica a professora Viviane. “Por isso, é fundamental entender em que dosagem e frequência o uso pode ser seguro.”

Ela também alerta que o consumo de plantas medicinais deve levar em conta a espécie, a forma de uso e possíveis interações com medicamentos. “A planta que usamos no estudo é de flor rosa, diferente da Pereskia aculeata, de flor branca, mais conhecida e presente em muitos suplementos alimentares. Às vezes, a planta está no quintal e a pessoa nem sabe ao certo qual é.”

Pereskia grandifolia (Ora-pro-nóbis da flor rosa) Fonte: Planta Mundo

Pereskia grandifolia (Ora-pro-nóbis da flor rosa) Fonte: Planta Mundo

Pereskia aculeata (Ora-pro-nóbis da flor branca) Fonte: Wikipédia

Pereskia aculeata (Ora-pro-nóbis da flor branca) Fonte: Wikipédia

Recentemente, a Anvisa proibiu o uso da Pereskia aculeata (Ora-pro-nóbis de flor branca) em suplementos alimentares, alegando falta de comprovação científica quanto ao seu valor nutricional. A venda da planta in natura, no entanto, segue liberada. O alerta reforça a importância de pesquisas como a desenvolvida na UFRRJ, que ajudam a embasar decisões de saúde pública e informar melhor a população.

Os estudos conduzidos pela professora Viviane Lima se somam aos de outros pesquisadores que investigam a segurança na utilização de plantas ou de produtos de origem vegetal que tenham finalidades terapêuticas. Essa segurança é determinada por diferentes ensaios que buscam comprovar a ausência de efeitos tóxicos. O objetivo é garantir que a utilização do material vegetal ocorra de forma segura, especialmente em casos de consumo prolongado. A professora destaca que os resultados dessas pesquisas impactam tanto no uso da planta pela indústria farmacêutica quanto sua aplicação como suplemento alimentar.

Parte dos resultados obtidos já foi apresentada no Congresso de Genética de 2024. Entre os dados divulgados, destaca-se o uso da técnica Random Amplified Polymorphic DNA (RAPD), que revelou o potencial mutagênico do extrato aquoso da Pereskia grandifolia. Outras metodologias ainda estão em fase de análise.

Desafios e protagonismo na formação científica

Atualmente, oito alunos de iniciação científica participam do estudo dos extratos obtidos a partir das folhas de Pereskia grandifolia. Entre eles, duas alunas são bolsistas: uma pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e outra pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC). O projeto, no entanto, não conta com outros tipos de financiamento.

Mesmo com seu valor científico, o projeto enfrenta desafios estruturais: a falta de energia compromete, além das atividades, o funcionamento de freezers nos quais são armazenados os materiais e a manutenção do espaço dependente de alunos e professores, devido à ausência de técnicos laboratoriais. “Esses estudos de base formam pessoas, geram conhecimento e podem, no futuro, colaborar com avanços no tratamento de doenças como o câncer”, destaca Viviane.

Projetos como esse também cumprem um papel essencial de educação científica. Afinal, é com base em pesquisas sérias que práticas populares podem ser mantidas com mais segurança. Assim, Dona Raqueline poderá continuar saindo da missa com suas folhinhas de Ora-pro-nóbis — mas agora, com informação.


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