Mothra (1961): Abrindo os olhos ao público crescente
Heyo! Aqui é a Ally, e vamos a mais uma análise, dessa vez de um filme que eu particularmente esperei muito para falar. Desde o filme de…
Mothra (1961): Abrindo os olhos ao público crescente
Heyo! Aqui é a Ally, e vamos a mais uma análise, dessa vez de um filme que eu particularmente esperei muito para falar. Desde o filme de 2019, Mothra se tornou minha kaiju favorita, e eu fui bastante surpreendida ao ver o resultado do filme! Por conta disso, decidi rever para ter uma análise ainda mais sólida, li um pouquinho de questões de produção, então é hora de falar sobre esse filme. Vamos lá! ❤

Pôster original na mesma estrutura estranha japonesa da época. Aqui podemos ver os dois estágios da Mothra
Mothra é um filme de 1961, mais um da série “filme de kaiju”, produzido por Tomoyuki Tanaka (o responsável por começar a empreitada de filmes de kaiju com Godzilla em 54, e que ficou à frente de vários dos projetos de monstro gigante na Toho por um bom tempo, até sua morte em 1997), dirigido por Ishiro Honda (mesmo diretor de Godzilla) e com roteiro baseado em uma serialização do Shin’ichiro Nakamura que saiu em uma revista no mesmo ano. O filme começa com um barco no centro de um tufão, sendo arrebentado e partido ao meio pela força do desastre. Alguns dos tripulantes sobrevivem, e vão parar na “Infant Island” (perdão pelo termo em inglês, mas eu não achei o equivalente em português), um lugar supostamente inabitado e que se dizia repleto de radiação em decorrência dos testes atômicos e nucleares da fictícia nação de Rolisica (já já falo disso). Os marinheiros são resgatados e vão diretamente para um instituto, ficando em observação para verificar os efeitos da radiação. Nisso, somos apresentados a 3 personagens de cara: Zen’ichiro Fukuda (também chamado de “Zen”), um repórter muito tenaz e beeeeem cara de pau; Michi Hanamura, fotógrafa e parceira do Fukuda, também sagaz, mas não tanto quanto o parceiro; e o Dr. Harada, um especialista em radiação que foi chamado para observar os 4 marinheiros. Logo, um dos tripulantes fala sobre um “suco vermelho” que tomaram por recomendação dos nativos da ilha, o que surpreende todo mundo, considerando que esperava-se um lugar destruído e inabitado graças à radiação das bombas. Graças a isso, uma expedição científica é planejada pelos governos de Rolisica e Japão para investigarem, liderada por um homem estranho chamado Clark Nelson e tendo a presença de um dos protagonistas, o Dr. Shin’ichi Chujo, um antropólogo e linguista excêntrico, porém de bom coração.

A equipe de pesquisa na “Infant Island”: lar de estranhezas e maravilhas
Queria começar já tirando algumas coisas da frente: Mothra NÃO É um filme que você deve assistir esperando um Godzilla, porque ele não é para ser. Um pouco de história: O primeiro filme do lagartão atômico, curiosamente, foi feito com uma atmosfera e temáticas muito sombrias, mas as cenas com o Godzilla atraíram muito o público infantil, que adorava ver as cenas de destruição e batalha contra o monstro gigante. Com o tempo, a Toho começou a se desvencilhar da imagem agressiva, punitiva e sombria que o primeiro Godzilla apresentava. E Mothra não é assim. Portanto, assistir esperando o mesmo nível de empenho e crítica é esperar demais de um filme cuja proposta é apresentar temas complexos de uma maneira muito leve e descontraída, mas ainda sabendo apresentar uma problemática e de certa forma uma sátira a algumas coisas da época. Isso será explicado melhor conforme a análise se desenrolar.

QUEM TEVE A IDEIA DE FAZER ESSA ATROCIDADE DE PÔSTER?
A produção desse filme tem decisões muito boas, porém uma delas é BEM polêmica para quem vê hoje em dia. O produtor Tomoyuki Tanaka contratou Shin’ichiro Nakamura para fazer o roteiro, e junto com mais dois caras (Takehiko Fukunaga e Zenei Hotta), eles fizeram uma história chamada (tradução livre) As Fadas Brilhantes e Mothra. Essa história foi serializada e depois, na adaptação para filme, Shin’ichi Sekizawa, o roteirista do filme, pegou elementos dessa trama e adaptou para algo muito mais palatável, amigável e divertido. A responsabilidade das várias mudanças cai em cima dele. E isso ajudou até bastante ao filme para que se tornasse comercial! Considerando o roteiro original, certas decisões poderiam até mesmo criar complicações com nações como os EUA. A escolha do Ishiro Honda para dirigir foi ótima, e o Yuji Koseki conseguiu fazer uma trilha sonora muito marcante e com uma pegada bastante tribal, o que adiciona muito ao filme. Os efeitos especiais também são feitos pelo Eiji Tsuburaya, e ele fez um trabalho estupendo com a Mothra e com todos os outros efeitos. Cada bala de tanque e bomba que cai na larva da mariposa deixa uma marca, a destruição de lugares é muito bem feita, até a destruição no último ato do filme é muito bem construída.
A direção, como inferida ali em cima, é muito boa. O filme tem planos muito bons, e as cenas de destruição causadas pela Mothra são ótimas. A forma como foram executadas também foi excelente, a roupa da larva Mothra tinha espaço para pelo menos 6 pessoas que tinham que controlar ela, e ficou muito boa. Fora os 3 modelos da Mothra adulta que ficaram impecáveis e funcionais em cada cena. Esse filme também tem uma direção bem trabalhada para comédia. Combinada com os atores, especialmente o Frankie Sakai (o Fukuda no filme), momentos que te fazem rir são vários, investindo desde uma comédia física (com movimentos engraçados do próprio corpo) até humor de vergonha alheia, e uma cena de pancadaria que é tão galhofa e tão cômica que eu não parava de rir a cena inteira. E aproveitando a menção aos atores, devo dizer que vários estão muito bons aqui! O Hiroshi Koizumi tá excelente como o Dr. Shin’ichi Chujo, sendo muito bom para cenas tensas, sabendo passar boas emoções. A Kyoko Kagawa é ótima como Michi Hanamura, ainda mais considerando que ela é a personagem que mais passa emoções, além de alguns momentos bem bons em sua personagem, como o uso furtivo de sua câmera escondida. Vale mencionar o trabalho do Jerry Ito como Clark Nelson, sendo um vilão MUITO pastelão e cartunesco, claramente o tipo que tu bate o olho e já pensa “É filho da pta, aposto vintão que é”, mas que faz um bom papel na proposta dele, e as duas cantoras conhecidas como The Peanuts*, Yumi Ito e Emi Ito, gêmeas que interpretam as Fadas. Elas inclusive precisaram gravar em uma tela azul (antecessora da tela verde), para que suas cenas fossem inseridas posteriormente, já que os horários não coincidiam muito com os das filmagens. Por sinal, dá-lhe tela azul nesse filme! Aqui vocês verão um monte, desde as Fadas até gente correndo na rua no meio da evacuação. O uso, apesar de um pouco excessivo, é bom e funcional pra época, então dá pra levar.

Uma cena que inclui os 3 protagonistas, Fukuda (à esquerda), Hanamura e Chujo (à direita)
Agora… eu preciso separar um momento para fazer uma crítica, e não uma boa. Para quem conhece o Japão, sabe que até hoje, ainda há casos de preconceito pesados, de xenofobia à racismo, de homofobia à transfobia, e… esse filme infelizmente inclui um caso desses. Parte da trama ocorre com os nativos da “Infant Island”, tendo que lidar com a invasão de pessoas desconhecidas em seu território, incluindo um arrombado que sequestra as Fadas e mata alguns dos membros da tribo. O problema maior… é a forma como esses nativos são tratados. Blackface. Uma técnica usada no cinema ao redor do mundo como forma de perpetuar o racismo enraizado no cinema, fazendo atores pintarem seu rosto e corpo de preto para retratar pessoas negras, ao invés de usar atores negros. Essa técnica é uma das piores coisas da história do cinema, e ver que o Japão fez um filme retratando NATIVOS dessa forma tão nojenta é horrendo e merece SIM ser criticado. É recusar-se dar o espaço devido para atores que poderiam interpretar bem, pura e simplesmente por sua raça. É debochar e tratar pessoas negras como, nesse caso, pessoas pouco letradas e que vivem numa sociedade tribal e “pouco evoluída”. Infelizmente, esse filme faz isso, e a decepção que me trouxe quando soube disso foi algo que me pegou muito forte e fez eu reservar um espaço próprio para a crítica. E se alguém falar qualquer coisa em favor de Blackface, fica adiantado meu mais sincero “Vai tomar no c*”.

Um exemplo de cena que mostra o uso de “Blackface”
Aproveitando que mencionamos o roteiro, vamos a ele. O que é mais interessante aqui é que o roteiro trata tudo de forma bem leve, apesar de ter assuntos bem sérios. O Fukuda rouba a cena em vários momentos por ser tão sagaz da mesma forma que estúpido. Parte do envolvimento do personagem na trama já começa porque ele é escalado para cobrir a expedição, o Nelson não quer dar nenhuma informação, então ele dá um jeito de ir na prra do rolê, e tudo isso desenrola-se de maneiras muito engraçadas. E usarem um comediante como ator foi uma ótima sacada, porque desde sua primeira aparição, ele é carismático pra cacte e sabe ajudar a levar a história pra frente de uma maneira mais calma e menos sombria. Porém o roteiro em alguns momentos foca DEMAIS em tentar fazer ele ser foda, quando ele é só um repórter. Qual é, o Chujo é UM DOUTOR e ele não é tão foda assim! O comentário sobre o Fukuda foi bom para explicar como o roteiro busca tratar as coisas de forma mais leve, incluindo na sua escolha de personagens. Há vários temas que o filme tenta abordar: trabalho escravo, testes de bombas, o lado negro do entretenimento, política suja; e ao mesmo tempo, ele também tenta abordar outros temas menos controversos, como preservação, a mídia como veículo da verdade, o lado bom do ser humano. Nelson, nesse filme, é um vilão extremamente caricato e unidimensional, mas ele é o maior exemplo de como pessoas escrotas podem ser muito bem sucedidas. Ele rapta as Fadas para usá-las como exposição em um tipo de show onde pode ficar rico. Porém ao fazer isso, ele torna as Fadas escravas da sua vontade, protegido pelo sistema político corrupto de Rolisica, e acaba trazendo a destruição tanto para Tóquio quanto para sua terra natal, pois as Fadas são capazes de uma ligação telepática com Mothra (como mencionado na análise de Godzilla: Rei dos Monstros), e isso a faz rachar seu ovo e ir em direção à onde ela consegue ouvir a voz de suas protegidas. Enquanto isso, Fukuda, Hanamura e Chujo tentam fazer com que as Fadas retornem à seu habitat natural. No início, o Dr. Harada (interpretado pelo ator Ken Uehara), o Dr. Chujo e Fukuda são as pessoas em oposição ao Nelson e aos propósitos escusos da expedição, optando por deixar a ilha em paz com seus nativos e as Fadas vivendo tranquilamente. Tanto Fukuda quanto Hanamura são repórteres que se envolvem a ponto de tentar trazer a verdade da situação, quebrar o Nelson e botar ele na p*rra da cadeia pelo que fez. Os temas são vários, estão ali, mas como pinceladas, não algo muitíssimo trabalhado, e sim algo que claramente tem um motivo pra tá ali, porém você só percebe nas entrelinhas alguns detalhes.

O ovo de onde a larva Mothra sai
Ainda assim, temos dois temas MUITO visíveis aqui, e não só visíveis, como bem trabalhados nas entrelinhas: o simbolismo da Mothra e de Rolisica. Mothra é tratada como uma deusa pelos nativos da ilha, e seu símbolo é literalmente uma cruz com vários símbolos ao redor. A forma como ela se comporta é muito curiosa: ela não destrói por querer. Mothra o tempo inteiro está atrás de suas Fadas. A mariposa passa pelo que está na frente dela, mas não com intenção de punir qualquer pessoa. Todos os ataques que recebe, ela não revida. Mesmo quando tentam matá-la queimada no meio do filme, a Rainha dos Monstros não contra-ataca. Ela é tratada com uma simbologia praticamente religiosa, e isso é MUITO evidente nos momentos finais, quando tentam entregar as Fadas de volta à mariposa. Toda a destruição que ela causa é tentando procurar as figuras importantes pra si e para a tribo, nunca como oposição à humanidade. Dessa forma, ela se mostra provavelmente a única kaiju (já que ainda não vi outros filmes pra dizer isso com certeza) cujos interesses são puramente benignos e cuja representação é basicamente uma religiosa, e isso só faz ela ganhar ainda mais pontos comigo ❤

Reparem nos detalhes do carro de polícia de Rolisica
Já quanto ao simbolismo de Rolisica, é algo um tanto mais da época. Estados Unidos e União Soviética estavam em meio à Guerra Fria, e ainda testando armamentos nucleares. Duas superpotências que tinham seus tentáculos ao redor do mundo todo, controlando e manipulando as políticas de vários Estados ao redor do globo. Rolisica é quase descaradamente uma referência a essas duas superpotências, fundidas em uma só. Sua capital se chama “New Kirk City”, uma clara referência a “New York City”; a embaixada rolisicana o tempo inteiro busca proteger o Nelson, até o momento onde não dá mais e ele se mostra um problema para Rolisica e Japão, e isso é uma atitude que comumente é mostrada em mídias que tratem de embaixadas americanas (apesar de eu não saber se ocorre normalmente); reparem no carro acima, com o sinal da águia e as listras (símbolos americanos), e a estrela em cima de uma curva que parece uma lua (uma clara semelhança à bandeira da URSS na época), e isso que a própria estrela também é parte do símbolo dos EUA (só lembrarem do escudo do Capitão América); os testes atômicos na “Infant Island”, como tentativas de expor seu poder bélico; todos os habitantes de Rolisica falam inglês, o que é curioso em um filme puramente japonês; a presença dessa nação fictícia é muito forte e muito preocupante no filme, sendo a maior amostra de como o terror atômico e a influência das superpotências da época eram assuntos que preocupavam os japoneses, mesmo que sendo abordadas de outras formas aqui.

Uma visão de cima da larva Mothra. Nem parece que vira uma coisa tão fofa ❤
Bem, Mothra é isso. É um filme com ótimos temas, trabalhados de maneira muito leve, sendo bastante divertido, engraçado, e à exceção do horrendo e racista uso de Blackface pra tentar trazer figuras de nativos da ilha à tela, o filme sabe entreter e trazer uma boa simbologia e crítica ao seu tempo, na medida certa. Vale a olhadinha nem que seja pela curiosidade e pelas risadas, pela tela azul que só torna tudo mais engraçado, ou pela galhofada de alguns momentos da época, o filme é divertido, mas lembrando que deve ser visto como uma diversão mais infantil, não tão focada em tratar as coisas da maneira que filmes anteriores, como Godzilla, tratava. Entrando para ver dessa forma, vocês vão conseguir uma boa diversão.

OLHA ESSA COISINHA MAIS FOFINHA, MODEUSO ❤❤
E essa foi mais uma análise! Demorei horas para escrever, revi o filme hoje de manhã, mas espero ter feito um bom trabalho com ela, ainda mais por ser o filme da minha kaiju favorita! Obrigada por terem lido, e agradeceria muito um feedback ou uma opinião sobre o que foi falado aqui. Beijinhos da Ally! Bye-bye! ❤
메타데이터
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- 2026-07-28 12:09:50