DOSES HOMEOPÁTICAS #01 — Trilogia Bourne
A Identidade Bourne (2002)
DOSES HOMEOPÁTICAS #01 — Trilogia Bourne

A Identidade Bourne (2002)
Nessa aventura inicial, o cineasta Doug Liman está longe de alcançar a mesma tensão e adrenalina que Paul Greengrass imprimiria nos dois filmes seguintes. Porém, ainda assim dá para dizer que ele se sai muito bem ao apresentar o personagem e a conspiração que o cerca. O mais interessante do primeiro filme é o homem em conflito/tensão com o próprio corpo, essa carcaça adestrada para automaticamente responder de certas maneiras a determinadas situações.
Mesmo que não saiba nada a respeito de si, de seu passado, Bourne tem um corpo responsivo, cuja memória muscular permaneceu intacta enquanto outras lembranças foram embora (ou estão inconscientemente adormecidas). O homem guiado por esse condicionamento brutal é um belo tema, nem sempre explorado com a profundidade que poderia, mas ainda assim instigante.

A Supremacia Bourne (2004)
Paul Greengrass muda o jogo com a continuação, o elevando a outro patamar no que tange à ação. A linguagem visual desse Bourne é mais “elétrica”, a fotografia e a montagem imprimem uma urgência que certamente influenciou o James Bond da Era Daniel Craig e, por consequência, ajudou a moldar os códigos do cinema de espionagem nos primeiros anos do século 21.
Bourne poderia ser somente um homem motivado pelo desejo de vingar a morte de sua amada, mas as coisas não são bem assim. Ele é um homem sem passado, então é puro presente. Quando Marie morre, o protagonista perde o amor, mas também a referência de quem se tornou ao “renascer” amnésico. Bourne é privado de parte do referencial de sua nova identidade. Além disso, o principal vilão é o capitalismo, afinal de contas a trama envolvendo o assassinato do russo é sobre alguém calado porque se opôs à privatização de uma empresa energética estatal.

O Ultimato Bourne (2007)
O mais pauleira dos filmes da primeira trilogia. Nele, Bourne não tem mais tempo a perder e se aproxima perigosamente (para seus antigos chefes) da verdade. A perseguição nos telhados marroquinos é uma beleza, uma demonstração impressionante de precisão de direção, montagem e fotografia. Mas nada de pirotecnia “para gringo ver”. É coerente com a intenção de nos arremessar no núcleo da tragédia de quem não tem tempo para lamentar e vivenciar o luto.
E o desfecho não poderia ser mais interessante nesse contexto: o novo homem, criado pelo procedimento militar, transformado em rebelde, não corresponde às expectativas do antigo sujeito, um militarista cego e obediente. Em certa medida, me lembrou o protagonista da série Ruptura, também um sujeito fracionado em duas partes que estão fadadas a nunca chegar a um acordo, inclusive porque têm diretrizes e desejos autônomos e completamente diferentes.
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