O império contra-ataca
São tempos de conflitos, de guerras. Não estamos autorizados a dizer que “a guerra voltou”, porque claramente ela sempre esteve por aí, e a…
O império contra-ataca
São tempos de conflitos, de guerras. Não estamos autorizados a dizer que “a guerra voltou”, porque claramente ela sempre esteve por aí, e a designação “guerra mundial” não pode nos tornar cegos para as outras guerras, como se elas não fossem grande coisa. Foi o Papa Francisco que compreendeu bem a situação quando disse que nossos tempos eram de “terceira guerra mundial aos pedaços”, o que tanto pode implicar em conflitos espalhados ao redor do globo, mas em alguma medida não conectados, ou, em um cenário mais apocalíptico, pedaços que se unem ao longo do tempo para produzir um grande demônio que engolirá a Terra.
Esse demônio, como um dragão em uma caverna, dorme, assim como, até certo tempo, as antipatias entre países do mundo também dormiam sob os efeitos anestesiantes de relações internacionais, códigos e tratados. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, bem, os anestésicos começaram a falhar. Todas as boas poções criadas desde o final da Segunda Guerra atingiram a data de validade, venceram, e hoje o que experimentamos é o acordar da morte, que botamos para dormir tão confiantes de que jamais abriria os olhos.
Mas tudo isso é uma certa fantasia, pois, como já disse, a guerra sempre esteve por aí. Como sou de uma geração preguiçosa e altamente dependente de tecnologia, perguntei para a inteligência artificial o seguinte: “Você pode me dizer quantas guerras eclodiram no mundo após a Segunda Guerra Mundial?”. A resposta: cerca de 25 a 30 guerras interestatais (entre países) e mais de 150 a 200 conflitos armados no total, se incluirmos guerras civis, guerrilhas e conflitos regionais prolongados. Já se vê uma verdade inconteste: a humanidade nunca experimentou a paz.
Nos falta realmente expertise na paz. Agora, a mais recente guerra contra o Irã acende mais um pavio de perigo e pânico. E é impossível tapar os ouvidos para aquela insistente pergunta que fazem: “E Taiwan, hein?”. Outras antipatias do mundo estão em stand by, isso é certo. Depois de travarmos uma guerra contra o vírus, travaremos a guerra mundial em pedaços, e depois nos debateremos com os pedaços dos pedaços, até chegar àquela colocação de Albert Einstein dizendo que a Quarta Guerra Mundial seria travada com pedras e paus, se bem me lembro. Se me pedissem para definir vírus, eu diria que é uma máquina de guerra a destruir corpos; agora, as guerras que vemos hoje são diferentes, não? São a mesma coisa: máquinas a destruir corpos. Contudo, com um adicional terrível: elas também destroem almas.
O terror de uma guerra não é somente físico; causa destruição na alma. Uma vez ouvi alguém dizer, acho que uma sobrevivente de alguma guerra em algum documentário: “tudo, a fome, a doença, a perseguição, menos a guerra”. Esse tipo de pessoa entendeu que a guerra atua como veneno na alma humana. Não se trata somente do fato, já horrível, de que seu filho foi para a guerra e você não sabe se ele volta, e de que seu melhor amigo foi explodido por uma bomba, ou mesmo de que sua casa tenha desaparecido da face da Terra, mas tudo isso somado e muito mais: aquela falta de esperança, o terror por todos os lados, o ar pesado. É como aquele judeu preso nos campos ao escrever o seguinte na parede: “Se existe um Deus, eu não o perdoo”.
Seja como for, com Deus ou sem Deus, com alma ou sem alma, uma guerra é travada com armas; então, você precisa de armas. Lembro-me bem de que, durante um documentário sobre a vida e obra da escritora norte-americana Susan Sontag, outra escritora da América criticava Sontag por ter ido ensinar teatro e literatura a jovens vivendo uma guerra. Ela disse: uma guerra não se vence com teatro, vence-se com armas. Sontag estava deseducando os pobres jovens; deveria ter levado o exército dos EUA junto com ela, com todas aquelas bombas infernais.
Bem, o que estamos vendo agora é uma corrida armamentista por todo o globo. Eu poderia dar números, mas não sou estatístico nem jornalista, nem jornalista-estatístico; você só precisa saber que todo mundo está se armando e se preparando para um conflito, e um sintoma disso é essa coisa chamada “economia de guerra”. O país, em escala produtiva, é posto em um novo regime de coisas que faz com que os recursos sejam direcionados para produzir mais armas, comprar mais armas e preparar a infraestrutura da nação como um todo, bem como as forças armadas, para uma guerra.
É ainda mais terrível testemunharmos que um dos países mais entusiasmados aqui, o que equivale a dizer, o que está mais afoito para assinar um contrato com o diabo, é a nossa já conhecida de outros tempos sombrios: a Alemanha. Não precisamos temer pelo fato de que ela foi a culpada pela última guerra mundial; não, isso é história. O que me preocupa é que, quando os alemães decidem fazer alguma coisa, qualquer coisa, eles realmente fazem. Não é que eles estejam preparando um novo nazismo — eles odeiam esse passado — , mas, quando dizem “precisamos de mais armas”, eles vão consegui-las de qualquer maneira. Não é como nós, que dizemos: depois do carnaval, depois da Páscoa, depois da festa junina, e depois nada é feito.
O que me preocupa na Alemanha é essa determinação para alcançar um objetivo e também esse irresistível desejo de resgatar seu império. Mas ela não está sozinha. Não só de croissant e champanhe vive um francês, e seu presidente anda por aí falando de um guarda-chuva nuclear para toda a Europa, em que ogivas atômicas seriam doadas a países aliados para protegê-los contra os russos, atuando como meios de dissuasão. Já ouço falarem em ogivas francesas na Polônia, esse país que só aceita um império para si, um império católico, vejam bem, se conseguirem infligir uma luta sanguinária, que eles tanto acalentam há tempos, contra a Rússia.
A Rússia dispensa comentários: seu imperialismo e autoritarismo de séculos mostram que ela quer ser um império a todo custo, seja pela coroa Romanov, seja por meio dos soviéticos, seja por meio de Putin e sua trupe. Podemos até culpar outros países por assumirem posturas imperiais, mas não a Rússia, pois essencialmente ela é isso. Quando Nossa Senhora, em Fátima, disse que ela espalharia seus erros pelo mundo, ora, a nobre e santa mulher nos deu uma chave interpretativa para lidar com os russos, qual seja: não importa o que fizerem, eles querem o mundo.
Outro país não queria o mundo, mas, como trabalhou tão bem e com tamanha determinação, fazendo florescer uma nação incrível e poderosa, acabou por se render à busca por um império: falo do dragão chinês. É tanto assim que hoje falam mais dela do que de qualquer outro país, mas, na cabeça ocidental, o império chinês talvez seja puramente econômico. Acho que olham para a China e enxergam uma grande indústria, um grande comércio e nada mais, mas, ora, indústrias também produzem armas. A China segue a lei de qualquer autêntico império: ela quer se tornar excelente em tudo, inclusive em ogivas nucleares. Veremos se o dragão voará por Taiwan.
Outro “grande amigo” chinês — se as aspas não forem suficientes, devo avisar que estou sendo irônico — também mostra os dentes. O Japão vem dando sinais de que deseja se rearmar; a retórica de líderes japoneses é cada vez mais agressiva e não se esqueçam: eles de fato têm um imperador; portanto, em seus pensamentos, nem sempre confessos, existe um império hoje e um amanhã. Próximo deles está a Coreia do Norte atômica e a Coreia do Sul pedindo de joelhos mais e mais armamento americano.
Israel também se enxerga como um império no Oriente Médio. O problema é que um de seus vizinhos, o Irã, não só se enxerga assim: ele diz claramente que é e vai continuar sendo — são os grandes descendentes do Império Persa. O resultado disso são bombas jogadas de um lado e de outro numa luta interminável que faz com que o americano de Nova York, o francês dos cafés parisienses ou mesmo o brasileiro da caipirinha na praia digam: “Ah, outra vez o Oriente Médio! Que gente complicada.”
É claro que não poderia me esquecer do império americano. Dizem, analistas por aí, que ele está em decadência, mas acredito que grande parte disso é mais um desejo dessas pessoas do que um fato real. Existe hoje uma grande fantasia sobre essa suposta decadência, e seus propagadores adoram colorir essa defesa com cores vibrantes e chamativas. Contudo, se os levarmos a sério, então um império decadente é ainda mais perigoso, pois ataca com mais ferocidade, já que é sua última chance.
Mas tudo isso que estou dizendo, esse passeio breve que fiz, para muitos se trata apenas de obviedades, mas não podemos nos cegar para o fato de que o mundo vive, sim, um ressurgimento intenso do imperialismo, e mais uma vez líderes esperam poder fatiar o planeta. O imperialismo do século XX foi uma gripe que deixou para o século XXI um resfriado; nunca nos recuperamos de fato, a doença apenas reduziu alguns tons.
O perigo de hoje é o mesmo que o do passado. Os países que se levantam contra a tirania imperial não o fazem como repúblicas ou monarquias democráticas e livres; até podem assumir esse papel para fins de conformidade com a realidade de suas constituições e com a propaganda, mas seu desejo é combater o império a partir de um império. Os ingleses do passado não combateram o império nazista como um país mais moderno que o alemão; não, a luta era a partir da ideia de Império Britânico.
Você acaba se sujando com as mesmas tintas venenosas do seu inimigo. Macron, na França, não pretende combater a Rússia com os ideais da Revolução Francesa; ele quer um império para chamar de seu, como um Napoleão, mesmo que isso soe ridículo. Os ingleses, por sua vez, vão ter que se virar para ressuscitar a ideia imperial, porque em sua história ficou mais evidente do que em todas as outras que eles de fato eram um império, e depois um do tipo decadente e depois um inexistente; então a vergonha é muito maior.
Mas, em tudo isso, o que falta é simultaneamente uma crítica ao imperialismo e uma rejeição do modelo imperial, o que significa dizer que combatemos esses imperadores a partir da posição de presidentes conscientes e modernos. Por isso que, quando um europeu, um americano, um chinês, um russo e tutti quanti falam mal entre si mesmos, eu não levo muito a sério. Todos ali querem uma coroa — e a coroa do mundo. Somente outro país pode fazer uma denúncia autêntica; vejamos o Brasil, por exemplo.
Nós já tivemos imperadores, mas nunca um império, e isso por vários motivos. Uma vez ouvi uma historiadora renomada dizer que o Brasil sempre foi republicano, mesmo quando não o era na letra e no papel, e eu também concordo com essa avaliação. Para haver um império e um imperialismo, você precisa de uma cultura nacional patriótica fechada; o Brasil não tem nem patriotismo, nem uma cultura fechada. No máximo, nosso apreço pelo país reside em objetos culturais voltados ao prazer: a nossa comida, as nossas paisagens e o nosso futebol. Mas não passa pela nossa cabeça uma certa metafísica de adoração nacional, tão típica dos impérios.
Para isso é preciso haver uma determinação tão grande que é impossível de ser produzida a partir do clima geral dispersante da cultura brasileira. A alma do brasileiro vive por meio de diluições, nunca se cristaliza em matéria sólida, e assim os brasileiros nunca estão dispostos a se sacrificar por ideais imperiais, que são duros como chumbo, além do que nós somos bem preguiçosos para isso. Mas, nesse contexto, é uma preguiça salutar, se você pensar bem: melhor a fantasia de carnaval que uma bota russa, alemã ou francesa a marchar.
Vem contar a nosso favor o fato de que, se países podem se converter em impérios, o Brasil ainda sofre dificuldades mesmo como país, pois isso é incerto. Ocorre hoje o mesmo fenômeno que acontecia na colônia: de repente você, um viajante inglês, andando pelas matas de algum interior, se depara com um viajante polonês e pergunta: “Mas que raios um polaco está fazendo aqui?”. E o polaco poderia perguntar a mesma coisa. Ou seja, o Brasil, essencialmente, é um entreposto de trocas culturais.
A presença de outras culturas é tão intensa em nossa formação nacional que temos dificuldade de definir o que é ser brasileiro, porque parece que todo mundo é brasileiro, e assim concluímos, por mais paradoxal que possa parecer, que o brasileiro não existe. Se várias culturas aportam aqui para realizar trocas e isso nos define, se aqui o árabe e o judeu são amigos e vão juntos ao centro de macumba, como contou uma vez Elke Maravilha, então nenhum império vai ser criado aqui.
E assim surge a muito especial oportunidade de criticarmos o imperialismo não só por meio de uma crítica proveniente do simples uso da moralidade e da inteligência, mas a partir da nossa cultura. É justamente por sermos brasileiros que não podemos admitir o império, não importa se ele vem do leste ou do oeste, se é ocidental ou oriental. Dentro desse esquema de coisas, surge outra oportunidade, que é a de acolher qualquer outro nacional machucado pelas lutas imperiais e que aqui poderá não só refazer a sua vida com alguma esperança, como conviverá com o seu inimigo também esperançoso, e ambos, acolhidos nessa cultura, descobrem uma terceira via que não se reduz ao eu ou aos outros.
Então, se o império contra-ataca, temos aqui o nosso antídoto, e alguns já dizem por aí que amam o Brasil sem nunca terem pisado aqui.
메타데이터
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- 2026-06-27 18:20:27