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Crítica | Natal Amargo

Novo longa de Pedro Almodóvar estreia nesta quinta (28)

Moderno Veneza · 2026-05-28 14:55 · 0 claps · 1.8 min read
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Foto: El Deseo/Divulgação

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Crítica | Natal Amargo

Por Natália Viana

Pedro Almodóvar retorna em seu novo longa, Natal Amargo (Amarga Navidad, Espanha, 2026), com aquilo que talvez saiba fazer melhor: transformar crises íntimas em melodrama sofisticado. O problema é que, desta vez, o diretor parece menos interessado em encontrar novas respostas do que em revisitar fantasmas antigos. O resultado é um filme visualmente impecável, carregado de identidade, mas que frequentemente transmite a sensação de um artista tentando reencontrar a própria essência.

O longa, exibido no Festival de Cannes deste ano, mergulha em uma narrativa metalinguística sobre criação, memória e desgaste artístico. Acompanhamos Raúl, interpretado por Leonardo Sbaraglia, um cineasta que escreve um roteiro sobre Elsa, personagem de Bárbara Lennie, uma diretora frustrada que abandona parte de suas ambições autorais para sobreviver dirigindo publicidade. O filme trabalha constantemente com a ideia de criador e criatura, transformando a narrativa em uma espécie de espelho fragmentado da própria carreira de Almodóvar.

A estrutura, dividida entre duas temporalidades e múltiplas camadas de ficção, exige atenção do espectador. Em alguns momentos, a proposta funciona muito bem, principalmente quando o diretor brinca com as fronteiras entre lembrança, cinema e realidade. Em outros, porém, a fragmentação parece excessiva, fazendo com que certos personagens surjam e desapareçam sem desenvolvimento suficiente.

Ainda assim, é impossível negar a força estética do filme. Os tons vermelhos intensos, os contrastes vibrantes, os figurinos elegantes e a direção de arte minuciosa fazem de Natal Amargo uma obra belíssima de se observar. Cada enquadramento parece cuidadosamente pensado, quase como uma pintura viva. A fotografia reforça esse sentimento melancólico e sofisticado, enquanto a trilha sonora de cordas amplia o dramatismo típico do diretor.

Ao mesmo tempo, essa autorreflexão acaba revelando justamente o maior problema do longa: ele parece consciente demais de si próprio. Diferente dos melhores filmes do diretor, que mergulhavam sem medo no melodrama e no exagero emocional, Natal Amargo frequentemente se contém. Há humor, ironia e bons diálogos, mas tudo parece um pouco mais frio, mais calculado, como se o diretor observasse suas próprias emoções à distância. Almodóvar continua sabendo dirigir atores com precisão, e Bárbara Lennie entrega uma atuação melancólica e sofisticada, sustentando boa parte do peso emocional da narrativa.

No fim, o longa funciona menos como uma explosão melodramática e mais como uma confissão cansada, elegante e melancólica. Pode não alcançar a potência de seus clássicos, mas continua carregando algo raro: a sensação de estar diante de um autor que, mesmo perdido, ainda procura honestamente por si mesmo dentro do cinema.

Nota: 📼📼½

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