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Audre Lorde Sorri: o Novo Testamento de AJULIACOSTA e a reinvenção das mulheres negras no rap

Sou a responsável pela construção do texto que intitulei O Novo Evangelho de Djonga: secularização do corpo negro no mundo do rap…

Lugares em que meu gato mexeu · 2026-06-14 19:21 · 0 claps · 3.8 min read
#rap #mulheres #rap-feminino #racismo #audre-lorde
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Audre Lorde Sorri: o Novo Testamento de AJULIACOSTA e a reinvenção das mulheres negras no rap

Foto: Matheus Aguiar / Divulgação

Foto: Matheus Aguiar / Divulgação

Sou a responsável pela construção do texto que intitulei O Novo Evangelho de Djonga: secularização do corpo negro no mundo do rap, dissertação validada pela Universidade Federal de Ouro Preto, em 2021.

Ao pesquisar sobre um homem, li mulheres, mas pouco falei de mulheres. Às nossas dediquei um capítulo no máximo, recorte acadêmico, disseram. Mas e se um Novo Testamento estivesse na mente de uma mulher que não se coloca no lugar de divindade, mas de alma consciente do seu lugar no mundo?

Dicotomias rondam o mundo, e não seria diferente no mundo do rap.

E o mais engraçado é perceber que um movimento periférico hoje cria uma rixa entre si, com homens que dominam a cena musical e midiática desde 1983, com os Racionais MC’s e o apagamento de artistas como Negra Li, que sempre se fez presente na cena.

É essencial falar sobre violência policial, racismo, preconceito e genocídio negro, mas como tornamos nossa vivência só isso?

“Rap feminino”, eles denominaram para criar uma subclasse dentro de uma subclasse.

Acorda, cara, já fazem mais de 40 anos e seu rapper favorito não toca nas rádios de elite. Nós ainda somos a periferia.

Temos carregado isso desde 1500, quando nossos ancestrais viraram comida de tubarão para serem catequizados em um país em que não pedimos para estar. Sabotage já falou: rap é compromisso.

E agora surgem os questionamentos de: rima fraca, não identificação, beats iguais.

E quando as mulheres já estavam na cena e, mesmo apagadas e não se identificando com os caras, estavam fortalecendo o movimento? A luta só vale quando o grito vem da masculinidade negra e reprimida?

A pirâmide está clara na interseccionalidade entre capitalismo, machismo e racismo. Homens brancos oprimem homens negros, que, por sua vez, têm privilégios em relação às mulheres negras, enquanto ambos são oprimidos pelo poder da mulher branca na pirâmide de classe.

Considerar gênero em uma sociedade machista tem fundamental importância e as diversas correntes do movimento feminista têm sua contribuição neste sentido; levar em consideração a classe é basilar, pois o capitalismo se retroalimenta pela existência da mesma. No entanto, raça deve ser considerada previamente a estes aspectos, já que considerar raça é considerar classe. É o negro que está na base da pirâmide social, que está invisível, vulnerável. Em considerando o gênero, a mulher negra se encontra ainda mais à margem, se comparada com o homem negro. (Lima, 2019)

Mulheres negras são corpos violentados pelo machismo, pela violência e distorção de imagem, pelo estupro corretivo contra sapatões (aqui, cito Luedji Luna). Corpos de mulheres negras são sempre objetificados: pelo machismo, pelo trabalho análogo à escravidão, pelo filho que morre por estar na favela, por não se encaixarem nos padrões de beleza pré-definidos.

Criar um Novo Testamento pela voz de mulheres que alcançaram agora seus vinte e poucos anos é a possibilidade de mudar a realidade que Audre Lorde aborda em Irmã Outsider: Olho no Olho — Mulheres Negras, Ódio e Raiva, 2015.

Porque o sofrimento de mulheres negras sempre foi colocado em segundo plano e, talvez, as mulheres da geração Z não queiram mais empreender o ódio contra aquilo que são, passando a enxergar beleza em mulheres que são como elas, o objeto que aprenderam a odiar ao se olhar no espelho.

AJULIACOSTA cria seu Novo Testamento em 2025. Ebony, Tasha e Tracie, Duquesa, MC Luanna, N.I.N.A., NandaTsunami, Ciça e muitas, muitas outras trazem ao cenário musical do rap (sem binarismo) críticas válidas sobre seus corpos, seu desejo, sua emancipação e saudam sua beleza, que merece, antes de mais nada, respeito de homens brancos e negros, mulheres brancas e negras.

Demonstram que suas vidas, queixas, desejos e vontade de serem o que podem ser são parte de sua pulsão de vida.

Existem, são sábias, merecem rimas, ganham o palco e a atenção da mídia, constroem um novo cenário para o feminismo negro, diante do qual Lorde, ao se sentar à mesa, abriria um feliz sorriso ao perceber que deixamos de odiar quem somos e podemos amar aquelas que são como nós: outras mulheres pretas.

Se nos questionam sobre qualidade, entregamos qualidade em toda produção, durante toda a jornada de autoras, pintoras, pensadoras, estudiosas, musicistas e artistas ao longo de nossa trajetória ancestral.

E, citando a belíssima canção de Luedji Luna, digo que passamos a nos ver como realmente somos: joias.

“Minha cara / Deixa eu lhe dizer como te vejo / Pedra preciosa / Turmalina / Pérola / Negra como a do Luiz / Como é que a canção diz? / Te amo, te amo.”

Talvez um presente de Oxum, que nos vê como suas joias.

Mas, com certeza, a possibilidade de entender nossas histórias como espaços em construção, porque em tudo falamos de ação: amor, resiliência, família e o que queremos ser.

Viva AJULIACOSTA e todas as nossas irmãs.

Que nos ensinam sobre laços que antes achávamos impensáveis retomar.

REFERÊNCIAS:

AJULIACOSTA. Novo Testamento. [S. l.]: Som Livre, 2025. 1 CD (25 min).

LIMA, Carla Fernanda de; OLIVEIRA, Thiago Firmo de; XAVIER, Monalisa Pontes; PRADO, Guilherme Augusto Souza. A tríplice estrutura de dominação: quem é o outro do outro no capitalismo patriarcal colonial?. Mnemosine, Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, 2019. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/mnemosine/article/view/48316. Acesso em: 14 jun. 2026.

LORDE, Audre. Olho no olho: mulheres negras, ódio e raiva. In: LORDE, Audre. Irmã Outsider. Tradução de Stephanie Borges. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019. p. 186–224. [1, 2]

SANTOS, Solange Stéfane. O novo evangelho de Djonga: secularização do corpo negro no mundo do rap. 2021. 97 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) — Instituto de Ciências Sociais e Aplicadas, Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana, 2021.


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