← Back to list

Baal nosso de cada dia

Como construímos — e como devemos destruir — nossos deuses falsos

Sandro Alves Vieira · 2025-12-06 18:13 · 0 claps · 7.9 min read
#idolatria #falso #monoteísmo #deus #senhor
Open on Medium ↗

Baal nosso de cada dia

Como construímos — e como devemos destruir — nossos deuses falsos

Photo by Raul Barrios on Unsplash

Photo by Raul Barrios on Unsplash

Ao ler a história do povo de Israel no Antigo Testamento, você fica intrigado com o fato de quão rápido eles começavam a adorar outros deuses? Já parou para pensar no motivo disso?

Adoramos o que é vital

Três pontos, do contexto histórico, são necessários para formar uma base que nos permita analisar este comportamento.

1 — Politeísmo

Naquele período era estranha a ideia de que havia um único Deus. Olhando para a história de Abraão, pai do povo de Israel, vemos que ele foi chamado em Gênesis 12 para sair de sua terra, Ur dos caldeus, e ir para a terra que o Senhor lhe mostraria. Era comum, naquela cultura, a crença em deuses territoriais e familiares¹. Assim, alguns estudiosos comentam a possibilidade de Abraão ter entendido esse chamado como a convocação de um novo Deus, que o levaria para a terra onde este dominava. Ou seja, há pouca probabilidade de Abraão ter sido monoteísta². Isso não significa que, após seu chamado, adorou vários deuses, a Bíblia deixa claro sua fé no Senhor, mas que talvez não compreendesse a existência de um único Deus verdadeiro. Lembre-se: a norma cultural da época era o politeísmo.

2 — Revelação progressiva de Deus

Outro ponto preliminar importante é que Deus foi se revelando progressivamente nas Escrituras. Avançando alguns séculos, os descendentes de Abraão, se tornam um grande povo chamado Israel, estavam escravizados no Egito, uma terra profundamente politeísta, onde até o faraó era considerado divino. É importante lembrar que esses israelitas, libertos por atos miraculosos de Deus e conduzidos ao deserto rumo à terra prometida, nasceram e cresceram em contexto de subserviência na terra do Nilo. Assim, era natural crer na existência de várias divindades e que o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, (seus antepassados), havia vencido uma “luta cósmica” contra o panteão egípcio.³

Quando Israel estava aos pés do Sinai, após sair do Egito, o Senhor, por meio de Moisés, entregou-lhes as tábuas da Lei. E o primeiro mandamento diz:

“Eu sou o Senhor, seu Deus, que o tirei da terra do Egito, da casa da servidão. — Não tenha outros deuses diante de mim.” (Êxodo 20.2–3)

Observe que, nesse momento, o Senhor não afirmou ser o único Deus. Os israelitas ainda estavam imersos na mentalidade egípcia. Aqui, o Senhor os chama a direcionarem sua adoração, devoção, confiança e esperança somente a Ele, assim como fizeram Abraão, Isaque e Jacó.

Mais adiante, cerca de 40 anos depois, o Senhor declara, novamente por meio de Moisés, que só há um Deus:

“Hoje vocês saberão e refletirão em seu coração que o Senhor é Deus em cima no céu e embaixo na terra; não há nenhum outro.” (Deuteronômio 4.39)

Nesta parte da história, Israel estava prestes a iniciar a conquista da terra de Canaã. E, diante dessa nova fase, o Senhor se revela mais claramente, para que o povo compreenda que há apenas um Deus, e que todos os outros são falsos. Essa visão era desafiadora. Para nós, hoje, é mais fácil refletir sobre o monoteísmo, pois vivemos em uma cultura influenciada pelo cristianismo. Mas para um povo que saiu do Egito e estava prestes a entrar e se estabelecer em Canaã, ambas culturas politeístas, a realidade era outra.

3 — Adoração em busca de um objetivo

Nas culturas antigas, acreditava-se que a estabilidade social e econômica dependia da atuação dos deuses⁴. Assim, para cultivar a terra e ter uma boa colheita era necessário agradar divindades específicas. Diferente de hoje, em que plantar um alface no quintal é uma conveniência, para eles a colheita significava sobrevivência. Se a semente não frutificasse, havia fome; se havia fome, havia sofrimento e morte. A adoração estava ligada ao senso de sobrevivência. Diante das incertezas do clima e da ameaça de povos invasores, curvavam-se diante de algum deus.

Estes três pontos contextuais nos auxiliam a ver o motivo de Israel tantas vezes se voltar aos deuses de outras nações. Sintetizando nós temos, neste momento histórico, os filhos de Abraão aprendendo progressivamente sobre Deus, mas que influenciados por culturas politeístas, se viam tentados a buscar soluções para sua subsistência na adoração a falsos deuses.

Somemos a isso o fato de que o povo, que entrou em Canaã, nunca havia plantado uma oliveira, videira ou figueira. Todos haviam saído do Egito com menos de 20 anos ou nasceram durante os 40 anos no deserto⁵. Eles cresceram caminhando por terras áridas, sustentados por Deus com maná e codornizes. Agora, estavam numa terra fértil, mas precisavam aprender a cultivar.⁶

Esse exemplo, do desvio de Israel, nos mostra que tendemos a adorar aquilo que consideramos ter poder para nos fornecer o vital. A raiz desta idolatria está na dúvida de que Deus é suficientemente capaz de nos sustentar. Israel diante da insegurança dos resultados da plantação, duvidava de Deus e buscava outros caminhos.

Como superar a dúvida e crer que Deus é provedor?

Deus chamou Israel para ter fé em sua provisão. Para isto demonstrou seu poder e amor ao libertá-los da escravidão no Egito. De forma similar hoje o Senhor nos chama a depositar nele a nossa fé, e para isto demonstrou seu poder e amor ao nos libertar da escravidão do pecado, por meio da morte e ressureição de Jesus.

O temor pela subsistência na nova terra fez o povo duvidar da provisão de Deus, mesmo tendo sido sustentados por tanto tempo no deserto. Assim como o Senhor forneceu pão e água aos seus filhos, hoje ele nos dá o pão e a água da vida, Jesus.

Convivemos com a dúvida, pois não conseguimos ter na perspectiva correta a libertação promovida por Cristo à nós. Nossa inconstância nos faz fabricar ídolos em nossos corações. Olhar para a cruz, e compreender que o preço de nosso pecado já foi pago e ver na ressureição de Jesus a certeza que um dia seremos ressuscitados e restaurados para um novo céu e terra, deveria ser suficiente para não termos dúvida da provisão do Senhor.

Louvado seja Deus, que sabendo de nossa inconstância, nos dá o Espírito Santo que habitando em nós faz conforme Paulo escreveu aos Filipenses:

porque Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade. Filipenses 2.13

Há dentro de nós a atuação do Espírito que nos faz reconhecer os ídolos que esculpimos, e nos leva de volta aos pés de Cristo.

Adoramos o que e trivial

Na parte anterior a conclusão foi que ao duvidarmos de Deus, nos voltamos a falsos deuses. Contudo a dúvida não é o único motivo que nos faz dar as costas ao Senhor. Nem sempre a idolatria é apenas por aquilo que é vital. Nós também adoramos o trivial.

Após o ápice do governo de Salomão, vemos que na sua velhice, influenciado por suas esposas pagãs, ele se volta a falsos deuses. Neste episódio vemos que, o sábio Salomão, não entendia que havia só um Deus. Isto nos choca. Porém é um ótimo exemplo de como era difícil para os povos daquela época compreenderem a existência única e soberana do Senhor. Além disto sabemos que Salomão era rico, em momento algum passou por dificuldades de subsistência, isto demonstra que a adoração a falsos deuses era por motivos triviais.

No correr da história, quando o reino racha, após a morte de Salomão, Jeroboão, que passa a governa as 10 tribos do norte, para evitar que seus súditos fossem ao templo que ficava em Jerusalém, no do reino do sul, constrói bezerros de ouro e diz que estes eram os deuses dos israelitas. Ele não os fez por achar que era vitais à subsistência, mas para o objetivo de não ver seu povo peregrinar para a nação rival.

No livro “Deuses Falsos”, Timothy Keller, diz:

“Na Bíblia, portanto, idolatria é voltar-se para a própria sabedoria e competência ou para alguma outra coisa criada, a fim de alcançar o poder, a aprovação, o consolo e a segurança que só Deus pode dar.”⁸

Esse “voltar-se à própria sabedoria” é o que está por trás de um falso deus. Seja na condição de adorar para se obter o vital ou o trivial. Esse movimento nos faz perceber que o ídolo não é exterior a nós, ele parte de nosso interior, somos nós que racionalmente concebemos, por nossa própria sabedoria, a ideia de que algo ou alguém tem poder para nos fornecer o que desejamos.

Olhando de outro ângulo, para este mesmo fenômeno, vemos que esse desejo parte de um coração desordenado. James K. A. Smith, diz que “Você é o que ama porque vive voltado para aquilo que deseja”⁹. A argumentação de Smith é que há um ciclo, que se retro alimenta, entre nossa identidade, desejos e amores.

O que nós temos desejado? Por que meios temos buscado saciar este desejo? Ele está atraindo todo nosso ser? Note que a idolatria, no final das contas, é muito mais profunda e está muito mais alastrada em nossa vida do que pensamos ou gostaríamos.

Como equilibrar nossos desejos e amores e ajustar nossa identidade?

John Piper faz uma provocação em seu livro Deus é o Evangelho:

“…se você pudesse ter o céu, sem doenças, com todos os amigos que tinha na terra, com toda a comida que gostava, com todas as atividades relaxantes que já desfrutou, toda as belezas naturais que já contemplou, todos os prazeres físicos que já experimentou, nenhum conflito humano ou desastres naturais, ficaria satisfeito com o céu, se Cristo não estivesse lá?”¹⁰

Sim, nós podemos desejar o novo céu e terra por aquilo que ele nos oferecerá e não por quem nos salvou. O problema, da desordem de nosso coração, é não enxergarmos nossa satisfação em Jesus. É não entendermos que ao ter Cristo temos tudo o que necessitamos. É não compreender que as marcas mais profundas de nossa identidade é que somos amados¹¹ por um salvador manso e humilde de coração.

Precisamos nos lembrar que quanto somos salvos Deus abre nossos olhos para contemplarmos a glória na face de Cristo¹². Jesus deve ser central em nossos desejos e amores, a luz de Cristo nos atraí para si.

— —

¹WALTON, John H.; MATHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia: Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2018. p. 56

²Reinke, André Daniel. Aqueles da Bíblia: História, fé e cultura do povo bíblico de Israel e sua atuação no plano divino. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2021. p. 76

³Ibid. p. 113–114

⁴Reinke, André Daniel. Os outros da Bíblia, história, fé e cultura dos povos antigos e a sua atuação no plano divino. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2019. p. 94

⁵Os israelitas que saíram do Egito com mais de 20 anos, foram contados como aptos à batalha no 1º senso relatado no livro de Números. Contudo por terem duvidado que Deus os daria vitória na campanha da conquista de Canaã, o Senhor os faz andar por 40 anos no deserto. Neste período todas as pessoas com 20 anos ou mais morreram. O povo que está ouvindo Moisés, em Deuteronômio, 40 anos após a saída do Egito e já prestes a começarem a conquista da terra, era formado por quem saiu do Egito, com menos de 20 anos, e aqueles que haviam nascido nestes 40 anos de peregrinação.

⁶Bartholomew, Craig G.; GOHEEN, Michael W. O Drama das Escrituras, encontrando o nosso lugar na história bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2017. p.37

⁷Ibid. p. 103

Keller, Timothy. Deuses falsos: as promessas vazias do dinheiro, sexo e poder, e a única esperança que realmente importa. São Paulo: Vida Nova, 2018. p. 17

Smith, James K. A. Você é aquilo que ama: o poder espiritual do hábito. São Paulo: Vida Nova, 2017. p. 33

¹⁰Piper, John. Deus é o evangelho: um tratado sobre o amor de Deus como oferta de si mesmo. São José dos Campos, SP: Fiel, 2019. p. 16

¹¹Nouwen, Henri J. M. Uma espiritualidade do viver. São Paulo: Editora Vida, 2018 p. 31–2

¹² 2 Coríntios 4.6

Clique neste LINK e se inscreva para receber notificações sempre que houver texto novo aqui no blog.


메타데이터
post_id
a9c2deeb36df
slug
baal-nosso-de-cada-dia-a9c2deeb36df
url
https://medium.com/@sandro_vie/baal-nosso-de-cada-dia-a9c2deeb36df
canonical_url
https://medium.com/@sandro_vie/baal-nosso-de-cada-dia-a9c2deeb36df
author_url
https://medium.com/@sandro_vie
status
ok
fetched_at
2026-06-23 17:05:31