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A Cor Púrpura é musical com paralelepípedos

Vitor Evangelista

Vitor Evangelista · 2024-01-18 17:48 · 0 claps · 5.1 min read
#blitz-bazawule #a-cor-púrpura #the-color-purple #fantasia-barrino #danielle-brooks
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A Cor Púrpura é musical com paralelepípedos

Danielle Brooks gabaritou sua presença nas premiações, mas A Cor Púrpura foi enfraquecido pela campanha do estúdio (Foto: Warner Bros.)

Danielle Brooks gabaritou sua presença nas premiações, mas A Cor Púrpura foi enfraquecido pela campanha do estúdio (Foto: Warner Bros.)

Vitor Evangelista

Não demorou muito — coisa de 4 anos -, para que Alice Walker lançasse seu romance epistolar, vencesse o *Pulitzer e vendesse os direitos de adaptação para Steven Spielberg. No Oscar, uma estatística amarga tomou conta dos livros de História. Na Broadway, o musical nasceu em 2005 e foi revivido em 2015. Agora, A Cor Púrpura retorna às telonas, num remix *de todas suas iterações anteriores.

Spielberg assina a produção executiva, junto de Quincy Jones (compositor do original), Scott Sanders e Oprah Winfrey (que começou a carreira no filme de 85). Até Whoopi Goldberg, a Celie antiga, faz uma ponta aqui: justamente na cena onde a nova versão da personagem dá a luz e começa sua longa e árdua jornada de dor e resiliência.

Com menções do Oscar para Whoopi, Oprah e Margaret Avery, filme de Spielberg saiu perdedor nas 11 categorias que disputou (Foto: Warner Bros.)

Com menções do Oscar para Whoopi, Oprah e Margaret Avery, filme de Spielberg saiu perdedor nas 11 categorias que disputou (Foto: Warner Bros.)

O diretor encarregado é Blitz Bazawule, um dos responsáveis pelo *Black Is King* de Beyoncé, e até então confortável no papel de diretor de vídeos musicais. Para a versão cantada da obra de Alice Walker, a escolha parece precisa. Mas, o que sucede às duas horas e vinte de rodagem é um filme incerto de sua potência e de seu alcance.

Na trama, as jovens irmãs Celie (Phylicia Pearl Mpasi) e Nettie (Halle Bailey) vivem à mercê de um pai autoritário e controlador. Sem mãe, as garotas sofrem quando ele vende Celie à Mister (Colman Domingo), um brutamontes viúvo que coloca a menina para trabalhar noite e dia, limpar, cozinhar e cuidar dos filhos dele. Separadas por ordem do marido, elas juram se reencontrar — e escrever uma para a outra até que o momento chegue.

No musical, o papel de Celie foi interpretado por LaChanze e depois por Cynthia Erivo; as duas venceram o prêmio Tony (Foto: Warner Bros.)

No musical, o papel de Celie foi interpretado por LaChanze e depois por Cynthia Erivo; as duas venceram o prêmio Tony (Foto: Warner Bros.)

Anos depois, surge Fantasia Barrino (da fama de *American Idol*) como a protagonista. Mais acostumada à rotina de agressão e submissão com o esposo, a personagem lida com a realidade um dia de cada vez. O enteado Harpo (Corey Hawkins) começa um romance com a arretada Sofia (Danielle Brooks), uma mulher que não abaixa a cabeça para ninguém e rompe com o esperado para a classe na época, meados dos anos 1920.

No constante conflito entre as normas machistas do período e do sonho de emancipação de Celie, ela mesmo acaba se encantando pela amante do marido, a cantora Shug Avery (Taraji P. Henson). Igualmente livre das amarras sociais, é vivaz e desperta em Celie uma fagulha que passa de cuidado e carinho para a paixão avassaladora, estopim para o que o futuro reserva a ela. Nessa toada, Bazawule intercala o drama do discurso literário de Walker, com as montagens musicais baseadas no trabalho de Marsha Norman nos palcos.

Taraji denunciou o tratamento recebido no set, sem direito a motorista para transportar o elenco até o local de gravações, camarim ou mesmo comida (Foto: Warner Bros.)

Taraji denunciou o tratamento recebido no set, sem direito a motorista para transportar o elenco até o local de gravações, camarim ou mesmo comida (Foto: Warner Bros.)

Pelo roteiro adaptado de Marcus Gardley, A Cor Púrpura oscila entre a grandiosidade de sua matriz e o emaranhado narrativo que despe o filme de ritmo, construção de tensão e sentimentos de catarse. Seguindo à risca o romance, as coisas acontecem por acontecer, imitando uma estrutura muito mais hábil e fortalecida, tanto nas páginas quanto na versão de Spielberg. Celie cospe no copo de água do velho Mister (Louis Gossett Jr.), mas nada indicava a raiva ou o ressentimento para com o sogro.

Shug é chamariz de todo o mote da história, por mais que Henson receba pouquíssimo com o que trabalhar no cenário dramático, cômico ou mesmo romântico. O tema *queer que ronda o livro some aqui, à moda do apagamento do filme original. Quase nulo também é o esperado impacto de Brooks como Sofia, papel que rendeu a ela uma indicação ao [Tony Awards](https://variety.com/2023/film/awards/the-color-purple-danielle-brooks-iron-claw-holt-mccallany-podcast-1235835756/)* e é tido como o mais apetitoso na lista de elenco, especialmente pela amplitude sentimental e pelos acontecimentos trágicos.

Produtora do novo filme, Oprah, que viveu a Sofia na versão original, optou por não fazer uma participação especial (Foto: Warner Bros.)

Produtora do novo filme, Oprah, que viveu a Sofia na versão original, optou por não fazer uma participação especial (Foto: Warner Bros.)

Herança do trabalho de Oprah no original, a coadjuvante de Brooks empalidece frente às reviravoltas, e o ar jovial da direção de Bazawule tira a veia vibrante da atuação. Em especial nos momentos depois da prisão de Sofia, que sofre com o abandono e o tempo perdido, mas logo resgata o humor de Brooks na canção que envolve o uso de calças. Até mesmo os interesses pessoais das mulheres são trabalhados na chave da referência, e nunca na do desenvolvimento.

Shug e Mister se amam, mas não existem evidências ou pistas sobre o fato. Celie passa décadas refém do marido, que esconde as cartas de Nettie (Ciara) e a priva da felicidade. Domingo, no trabalho mais vistoso de um 2023 movimentado, aqui se consagra como o cabra-macho que amolece na espreita de um fim de vida miserável e amaldiçoado.

Na campanha coadjuvante por A Cor Púrpura, Domingo busca uma vaga de Melhor Ator no Oscar 2024 por seu trabalho em Rustin (Foto: Warner Bros.)

Na campanha coadjuvante por A Cor Púrpura, Domingo busca uma vaga de Melhor Ator no Oscar 2024 por seu trabalho em Rustin (Foto: Warner Bros.)

E por mais que sua encarnação do Mister não pende para o terror e o desconforto empregados por Danny Glover em 85, Domingo causa a repulsa e a raiva que o personagem leva de bagagem. Como Celie, Fantasia canta como ninguém, embora o texto coloque uma porção de obstáculos no crescente de sua ira e eventual liberdade. No derradeiro jantar que sacramenta o futuro e desvirtua o casamento, a atriz explode sem preâmbulos.

Falha tanto do roteiro quanto da direção, desinteressada em contar a história da maneira que melhor a favoreça, e sim entusiasmada em visitar as referências anteriores e colocar em canção dramas que não se sustentam nas composições simplórias, arranjos despercebidos e até em coreografias que não registram com a mesma potência que deveriam. Se a comparação ficar no campo do recente *Amor, Sublime Amor de Spielberg, A Cor Púrpura* diminui ainda mais. Se lá, Ariana DeBose tinha a música e o drama alinhados em gume afiado, aqui Danielle Brooks não tem amparo para sair por cima da situação.

No SAG, A Cor Púrpura surpreendeu aparecendo em Melhor Elenco; no Oscar, a maior esperança é em Brooks, além de possíveis menções para figurino e canção original (Foto: Warner Bros.)

No SAG, A Cor Púrpura surpreendeu aparecendo em Melhor Elenco; no Oscar, a maior esperança é em Brooks, além de possíveis menções para figurino e canção original (Foto: Warner Bros.)

O elenco coadjuvante, que ostenta os nomes de H.E.R., Jon Batiste, Aunjanue Ellis-Taylor e Elizabeth Marvel, vai sendo anulado por cada decisão precipitada e imatura. O despreparo técnico foi transmitido por osmose para o trabalho de distribuição e propaganda da Warner, que escondeu o filme até quando pôde, falhou em angariar apoio das premiações televisionadas e dos sindicatos e pode enfrentar um retrato amargo no Oscar 2024. Oposto do cenário anterior, quando Spielberg emplacou 11 menções da Academia (mas perdeu todas).

Atrasos e adiamentos: do legado original de The Color Purple, a versão musical de 2023 cai em tentação no arcabouço de sua criação. Sem boas músicas, um roteiro que passe de espirituoso para tortuoso e então gracioso, e uma colagem desigual de homenagens mal acabadas, o filme de Blitz Bazawule destoa do esperado. Danielle Brooks até conseguiu sobreviver à seca geral, com reconhecimento no SAG e nas demais cerimônias. Fora Sofia, A Cor Púrpura não deixa sua marca.


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